A embaixadora dos Estados Unidos no Brasil, Elizabeth Frawley Bagley, fez a primeira visita oficial a Santa Catarina nesta semana (dias 16 e 17). O compromisso principal foi assinar memorando de entendimento permanente com o governador Jorginho Mello para relações bilaterais. Mas também se reuniu com empresários, lideranças sociais e, em entrevista à coluna, falou sobre eventos para celebrar os 200 anos de relações diplomáticas entre Brasil e Estados Unidos, que inclui seminário econômico em Florianópolis. 

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Segundo ela, o SelectUSA, evento promovido pelo Departamento do Comércio em Florianópolis dia 02 de fevereiro visa incentivar investimentos dos EUA no Brasil e de empresas brasileiras no mercado americano. Enviados de 12 regiões representando oito estados americanos estarão na capital para participar de reuniões. 

Elizabeth Frawley Bagley também destacou que, para marcar os 200 anos de relações entre os dois países, que serão completados em 26 de maio, serão realizados eventos por 12 meses, em diversas áreas. Segundo ela, Florianópolis pode sediar mais um. 

Entre os dados destacados pela embaixadora sobre as relações diplomáticas entre Brasil e EUA estão negócios que geram mais de 550 mil empregos no Brasil e impulsionam prosperidade para ambos os países. Os investimentos diretos americanos somam US$ 192 bilhões e o comércio bilateral em 2022 ultrapassou US$ 80 bilhões. 

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Os EUA também são o principal destino das exportações catarinenses e a maior parte é de produtos de maior valor agregado. Em 2023, somaram US$ 1,69 bilhão. Por isso os empresários de SC estão motivados para o SelectUSA. 

Antes da visita oficial, a embaixadora americana esteve em Florianópolis em viagem particular. Elogiou as belezas naturais, qualidade das praias e a cultura.

Nascida no estado de Nova York, Elizabeth Frawley Bagley atuou na diplomacia e na advocacia nas últimas quatro décadas. Foi embaixadora dos EUA em Portugal, assessora dos secretários de Estado John Kerry, Hillary Clinton e Madeleine Albright e representante especial na Assembleia Geral das Nações Unidas para Parcerias Globais.

Essa trajetória dela influenciou a escolha, também, por agenda social em Florianópolis. Ela conta na entrevista por que se reuniu com meninas que participam do programa MinaTech, que incentiva fazer graduação em ciências exatas, e com líderes de projeto que apoia mulheres vítimas de violência. Saiba mais a seguir: 

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Qual foi o objetivo principal da sua visita a Santa Catarina? 

-Eu estive em Florianópolis há cerca de duas semanas em uma visita pessoal com o meu filho. Agora, a visita oficial que faço tem como principal objetivo assinar um memorando de entendimento com o governador Jorginho Mello. Assinamos esse memorando que vai abrir oportunidades para parcerias em educação, ciência, tecnologia, agricultura e turismo, além de outras áreas nas quais temos interesses conjuntos. 

Neste ano de 2024 temos o aniversário de 200 anos de relações diplomáticas entre o Brasil e os Estados Unidos. Que eventos vão marcar essa data? 

-Muitos eventos! Estamos começando com o lançamento das celebrações hoje à noite, em São Paulo (quarta-feira, 17) quando também acontece a partida para os Estados Unidos de 46 alunos da rede pública selecionados para o programa Jovens Embaixadores. Esses jovens vêm de todos os estados brasileiros e por 2 semanas estarão nos EUA em um intercâmbio focado em liderança, emprendedorismo e desenvolvimento de projetos de impacto social. Esse será o nosso primeiro evento. Além disso, teremos todos os meses, durante 12 meses, um ou dois eventos que vão marcar a nossa história, os nossos 200 anos de amizade, os laços fortes que nos uniram todos estes anos, as parcerias que vamos ter, as que já temos vamos potenciar ao longo deste ano. 

As relações diplomáticas entre os dois países começaram em 26 de maio de 1824, quando o presidente dos EUA na época, James Monroe, recebeu na Casa Branca o diplomata brasileiro José Silvestre Rebello como Encarregado de Negócios do Brasil junto aos Estados Unidos. Em contrapartida, o presidente Monroe nomeou Condy Raguet da Pensilvânia como Encarregado de Negócios junto ao Brasil. 

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Então, fomos um dos primeiros países a reconhecer o Brasil independente de Portugal. É um momento muito emocionante. Todo este ano de celebrações será um reflexo dos nossos anos de amizade. 

Então, teremos vários eventos nas artes e na música.

A nossa relação militar também será destacada.Temos um porta-aviões chamado George Washington. Ele virá para o Rio de Janeiro e ficará no Estado entre os dias 21 e 24 de maio. Acredito que teremos uma grande festa no Rio nesse período. 

O Brasil também sediará o primeiro jogo da temporada regular da National Football League (NFL), a liga de futebol americano, em 2024. Aparentemente, o futebol americano é bastante popular aqui. Isso é surpreendente porque o futebol é um esporte tão importante. Dizem que 30 milhões de brasileiros assistem futebol americano e a maioria é mulher, o que é impressionante. Então, eles escolheram o Brasil para receber o primeiro jogo de 2024, em setembro, em São Paulo. Será emocionante! 

Entre os eventos culturais, um deverá ser em Salvador, Bahia. A ministra da Cultura, Margareth Menezes, quer fazer algo na sua cidade natal. Teremos pessoas lá. 

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Teremos também pessoas do Instituto Smithsonian (complexo de museus de Washington) vindo para o Brasil. O diretor do Instituto, Lonnie Bunch, também criador do Museu Nacional de História e Cultura Afro-Americana em Washington, um museu incrível, está vindo para o Brasil em maio. 

Eles estão fazendo uma série de coisas com o governo brasileiro. Um dos projetos é um livro sobre a história do relacionamento entre os Estados Unidos e o Brasil. 

Eles farão também um simpósio, acredito que em maio, com as participações do embaixador brasileiro nos Estados Unidos e da embaixadora dos Estados Unidos no Brasil. Estão fazendo algo no Kennedy Center. 

Também farão algo com música e arte. Teremos uma exposição de artistas em São Paulo com arte afro-americana-brasileira. Então, há uma série eventos e estamos muito animados. Esperamos fazer algo em Florianópolis também. 

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O que a senhora destaca nas relações econômicas atuais do Brasil e Estados Unidos? 

-Um dos destaques é uma pauta encaminhada pelo presidente Lula e o presidente Biden. Quando eles se encontraram em 20 de setembro para lançar a Parceria pelos Direitos dos Trabalhadores, o presidente Lula defendeu que ambos relançassem o CEO Fórum, um espaço de diálogo entre empresários dos nossos países. 

Isso aconteceu em dezembro, com a participação da nossa secretária de Comércio, Gina Raimondo e do vice-presidente do Brasil, Geraldo Alckmin. Foi um evento muito be´m-sucedido. Organizei um jantar de recepção. 

Participaram 12 CEOs do Brasil e 12 CEOs dos Estados Unidos. Eles falaram sobre como melhorar as relações comerciais e como ampliar o comércio e investimentos para o Brasil e para os Estados Unidos. A partir disso, ficou encaminhado que eles teriam uma série de reuniões. 

É um programa lançado na administração anterior e que depois ficou meio que adormecido. Agora, nós relançamos e ambos os lados estão muito animados com isso. Nós conversamos sobre isso hoje quando nos reunimos com o governador e sua equipe. Então, eles perguntaram também sobre cortes de emissões de carbono sobre cada grande base de fabricação.

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Eles têm um setor de tecnologia enorme aqui. Inclusive, várias edições do Startup Summit aqui em Florianópolis receberam palestrantes dos Estados Unidos, especialistas do Vale do Silício. Devemos participar novamente este ano. 

Nós temos um evento realizado pelo Departamento de Comércio dos Estados Unidos chamado SelectUSA. É patrocinado pelo Departamento de Comércio. Fui ano passado, em junho, em Washington. Levamos uma comitiva de 65 empresas brasileiras para se reunir com governadores e outros representantes de todos os 50 estados americanos. Todos estavam representados para conversar com eles sobre investir nos Estados Unidos. 

Então, vamos fazer isso de novo. Haverá roadshow no dia 02 de fevereiro em Florianópolis, onde representantes do comércio e de 12 regiões americanas virão discutir formas de investimentos, de fazer investimentos lá e aqui. Virão representantes de governadores dos estados. Florianópolis, por exemplo, tem muito potencial para receber investimentos. Todas as informações sobre o evento, assim como link para inscrição estão disponíveis neste site: https://events.trade.gov/pt/TradeGov/ConferenciaSelectUSA/hotsite.php  

Nesse evento,  será possível receber informações sobre regulamentações e leis que necessitam saber para fazer negócios nos Estados Unidos e também para ajudar americanos sobre como investir no Brasil. Mas existem muitas oportunidades. 

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Na área de meio ambiente, o potencial em termos de energia eólica, energia solar e offshore é algo que discutimos quando grupo de empresas brasileiras foi aos Estados Unidos no ano passado. Então esse foi o nosso meio de tentar unir os dois países. Já temos uma incrível parceria, mas acho que há muito mais que podemos fazer. 

Uma das atenções dos Estados Unidos com relação ao Brasil é a pauta de mudanças climáticas. Como avalia os trabalhos atuais de preservação da floresta amazônica? 

– Nosso presidente Biden anunciou em maio passado que os Estados Unidos forneceriam US$ 500 milhões para o Fundo da Amazônia. Seriam cerca de US$ 50 milhões por ano ao longo de cinco anos. 

Estamos tendo problemas com o nosso Congresso em termos de orçamento, tentando descobrir quanto podemos fazer a cada ano, mas essa é a promessa do presidente e que tentamos seguir. 

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Então, temos algum dinheiro que já foi colocado na Amazônia. Mas, além disso, temos uma relação de longa data com a Amazônia. Nossa USAID, sigla em inglês para U.S. Agency for International Development, a Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional, colocou US$ 300 milhões em financiamento. Trouxemos empresas privadas. Private equity, portanto, há o compromisso além do fundo da Amazônia. 

Há uma série de coisas que estamos fazendo. É a nossa Development Finance Corporation que ajuda as empresas comprometidas em dar algum financiamento. Estamos trabalhando com o banco BTG Pactual, que vai oferecer mais de US$ 1 bilhão em financiamentos. 

Então, tem muita coisa acontecendo e que aconteceu. Mas, realmente aconteceu especialmente com este governo, o governo Biden. O ambiente é uma de nossas principais prioridades, estamos aumentando nosso compromisso. 

A senhora esteve no início deste ano em Florianópolis numa viagem particular, quando visitou o Projeto Tamar. O que achou desse projeto e da Ilha de Santa Catarina? 

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-Achei lindo! É como eu disse, acho que ao prefeito, ontem (terça-feira, dia 16) à noite. Aqui me lembra o Rio sem o Cristo Redentor e o Pão de Açúcar, mas tem o mesmo tipo de topografia com as montanhas e o mar. É muito bonito. Viemos porque meu filho adora surfar. 

Nós também viemos porque aqui há um teatro irlandês e há um programa de estudos irlandeses na universidade de Florianópolis (a Universidade Federal de Santa Catarina). Então, nos reunimos com eles também. E fomos a algumas praias. 

Visitamos o Museu, o que foi realmente esclarecedor. Descobri que os açorianos tinham chegado para trabalhar aqui …. Conheço açorianos de Massachusetts e de Portugal. E por isso é maravilhoso e completou um círculo ver que este é também um lugar onde há cultura açoriana. 

Ontem fui a Igreja Nossa Senhora das Necessidades, que me disseram que era uma igreja açoriana. O governador me deu algo que eu não sabia o que era [trilho/caminho de mesa de renda de bilro] e eu me senti como se estivesse de volta e Portugal. Simplesmente amei! 

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Florianópolis é uma cidade incrível, tão diferente de outras que já fui no Brasil. A Ilha é incrível, mas com um monte de potencial para o turismo pelas características. Seguro, lindo. São praias maravilhosas. Tem uma cultura maravilhosa. 

Acho que há muito mais a ser feito no turismo. Estávamos falando disso ontem à noite. E esse empreendedorismo é incrível também. 

Na sua agenda dessa visita a Santa Catarina, incluiu encontro com meninas que participam do projeto MinaTech. Na sua opinião, por que é importante mais meninas ingressarem nas carreiras de tecnologia? 

-Ah, porque elas precisam ter as mesmas oportunidades que os meninos!  Eu acho que o ambiente atual – e é verdade nos Estados Unidos – as meninas não tendem a gravitar para a matemática e ciências. Acho que é porque elas não foram encorajadas a fazê-lo. 

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E esse programa é incrível. O MinaTech é um programa parcialmente financiando pelo governo dos Estados Unidos, e criado por por uma empreendedora de Florianópolis, Tatiana Takimoto que conheceu uma iniciativa parecida ao viajar aos EUA para o intercâmbio profissional IVLP (sigla em inglês para Programa de Liderança de Visitantes Internacionais). 

Todas as meninas (do programa em Florianópolis) a amam, todas falaram sobre como ela ajudou a mudar suas vidas. Estive com cinco delas, de 13 a 19 anos, e suas vidas foram totalmente transformadas. Mas entendendo que elas, obviamente, têm interesse em ciência, tecnologia e matemática. 

Mas algumas delas não. E elas são de escolas públicas, de comunidades marginalizadas. Então eu tenho certeza de que a maioria de seus pais e familiares nunca foram para a universidade. Muitos, talvez, até mesmo não fizeram o ensino médio. 

E aqui estão elas, agora, indo para a universidade. Uma já estuda engenharia eletrônica; outra vai fazer vestibular para ciência da computação, outra está decidindo. Uma tem 13 anos, acho que está no ensino médio, mas todas elas estão olhando para carreiras. E isso é incrível, é transformador para elas. 

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É muito importante, em termos de diversidade, em termos da riqueza de trazer pessoas, meninos e meninas. Eu perguntei para elas se os meninos as acolhem ou estão ressentidos… porque eu contei a elas uma história da minha vida. 

Quando eu estava na faculdade de direito, um dos caras me perguntou por que eu estava indo para a faculdade de direito. Eu disse que eu estava indo por um monte de razões, mas realmente não é da sua conta. 

Ah, ele disse: Bem, porque você está tomando um assento de outra pessoa, como um menino, um homem que usaria isso, melhor do que você. 

O que é insano, mas você sabe, isso é nos Estados Unidos. Então, você pode imaginar essas meninas, ter oportunidades que elas nem sabiam que tinham, sabe. Elas não sonhavam em ser engenheiras elétricas porque elas não achavam que poderiam. 

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Então, agora, elas têm essa oportunidade. Eu acho que é justo, importante para a sociedade e importante para elas e para as suas irmãs. 

Uma das meninas me disse: estou trazendo a minha irmã e, ao fazer isso, incentivo outras famílias a virem, outras meninas porque eles têm que entender agora que existem oportunidades das quais elas podem fazer parte. 

Entre as reuniões da sua agenda em Florianópolis, teve também uma com grupo de mulheres que foram vítimas de violência e outra com lideranças para falar sobre diversidade e racismo. Essa pauta mais social está ligada à sua trajetória ou é uma orientação do governo dos Estados Unidos? 

-Bom: os dois, eu acho. Uma razão é pela minha própria trajetória. Sempre trabalhei nessas questões. E o tráfico, em particular, quando eu estava no Departamento de Estado com Hillary Clinton, fiz muito trabalho sobre o tráfico. Minha filha foi para Stanford e fez sua tese sobre tráfico de mulheres. Então tem sido uma coisa que eu tenho muito interesse. 

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E o presidente Biden foi o autor da Lei de Violência Contra a Mulher aprovada em 1994. Então, após anos trabalhando e se preocupando com essas questões, ele teve que reautorizar (a lei) no Senado. Acho que foi reautorizado para nós no ano passado e assinado por ele. Então, é algo que ele se preocupa profundamente. Eu, pessoalmente, trabalhei por muitos anos (nessa área). Então, para mim, também é muito importante.

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