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Entrevista

“Blumenau é uma cidade resiliente”, diz Mário Hildebrandt

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Por Evandro de Assis
29/03/2021 - 06h15
Hildebrandt considera o transporte coletivo um dos principais desafios da gestão pós-pandemia
Hildebrandt considera o transporte coletivo um dos principais desafios da gestão pós-pandemia (Foto: Francisco Fresard, BD, Santa)

No momento em que os números da Covid-19 começam a recuar mais uma vez, o prefeito de Blumenau Mário Hildebrandt (Podemos) conversou com a coluna sobre a crise e projetou o pós-pandemia. Na entrevista abaixo, publicada na edição impressa do Jornal de Santa Catarina do último fim de semana, analisa a lenta campanha de vacinação, prevê dificuldades para promover a Oktoberfest 2021, observa uma cidade mais disposta a aproveitar a vida ao livre e fala sobre desafios como o transporte coletivo.

Como será a Blumenau que sairá dessa crise provocada pela pandemia de Covid-19?

Vai sair uma Blumenau mais forte, fortalecida, que vai buscar cada vez mais implementar suas ações e construir alternativas para superar os desafios. Blumenau é uma cidade resiliente, ela tem essa característica vinda das enchentes, das tragédias por que passou. Estamos, nesse mesmo espírito, superando os desafios da pandemia.

O que muda no modo de ser da cidade?

Estamos vivendo um processo que tem gerado mudanças no comportamento da população, que impacta diretamente no modelo de vida. Uma das principais é que as pessoas estão dando mais valor ao ar livre. Tenho visto em restaurantes, bares… As mesas mais procuradas são as que ficam na calçada, na área externa, na sacada. Tem feito as pessoas buscarem espaços ao ar livre: caminhada, andar de bicicleta, as pessoas têm se voltado cada vez mais para isso. Blumenau vai buscar e desenhar caminhos para ter uma convivência mais saudável, com o aprendizado quando sair da pandemia.

O planejamento da cidade e do governo muda por causa disso?

Muda, sim. Um projeto que a gente já estava desenhando e se fortaleceu muito é o modelo da Rua Curt Hering (no Centro), que trata de criar uma extensão maior para as pessoas e uma calçada complementar ao ar livre, que os restaurantes e o comércio vão poder utilizar para ter um espaço maior. Ruas paralelas já estão nos procurando, como a Floriano Peixoto, para poder implementar nelas também esse modelo.

O que é preciso fazer para acelerar a saída de SC e de Blumenau dessa crise?

Vacinação é a saída para o mundo inteiro. É onde vamos conseguir ter uma estabilidade maior, uma segurança maior, para podermos voltar a um ritmo de normalidade, se assim posso dizer daquilo que a gente vai encontrar após ou até durante a pandemia. Não temos a data decretada do final dela, mas temos uma visão de que, segundo os dados no mundo, com os idosos que tomaram primeiro (a vacina), tem caído o número de internações e de óbitos nesse grupo, e pensamos que vai se estender para os demais. O que vai mudar, resumidamente, é a imunização, sem deixar de lado os princípios básicos: ainda o uso da máscara, o distanciamento social e a higiene.

O que muda no setor de saúde do município depois da pandemia?

A pandemia antecipou uma série de mudanças tecnológicas, no modelo de atuação. Mas ainda vem outro desafio, que é o atendimento dos que já tiveram Covid. A implementação do ambulatório pós-Covid para cada cidadão que tenha essa necessidade, para que possa fazer um acompanhamento e evitar complicações maiores. Queremos fazer com a Furb e estamos trabalhando para ajustar esse processo. Todo o sistema de saúde vai se tornar mais tecnológico e mais ágil. A estrutura hospitalar da cidade tem um legado, que são os leitos de UTI que vão ficar para Covid e outras áreas.

Pelos indicadores do município, o quanto a economia da cidade foi afetada e quanto tempo será necessário para recuperar os prejuízos da pandemia?

Se olhar pelos indicadores de arrecadação, tivemos uma queda. Ou melhor, não tivemos o crescimento esperado. Neste ano estamos com essa mesma incógnita. Mas com algumas áreas que superaram um pouco a expectativa: o ISS e o ICMS. Em especial o ISS, fruto da área de tecnologia, que se fortaleceu e muito durante a pandemia. Como Blumenau é um polo, acabou tendo um fortalecimento dessa área. Esse é um ponto: houve uma arrecadação melhor.

Temos feito uma série de ações focadas no desenvolvimento econômico, preparando o turismo para o retorno, como as concessões do Frohsinn, do Museu da Cerveja, da Praça da Estação e da Praça Doutor Blumenau. Queremos atrair cada vez mais a atividade da iniciativa privada para serviços que, em tese, seriam públicos. São obras importantes que vão garantir a retomada.

Será possível fazer a Oktoberfest neste ano nos moldes tradicionais?

Neste momento, temos três caminhos a serem trabalhos em relação à Oktoberfest. O número 1 é a Oktoberfest tradicional, que cada vez mais está distante. Só vai ser possível com uma quantidade de imunização que ainda não há confirmação se nós vamos atingir no Brasil. O número 2 é criar uma Oktoberfest que traga uma linha mais próxima à Sommerfest, de fazer os restaurantes, a música, sem a dança, sem o contato físico, com distanciamento adequado.

Talvez um pouco mais parecida com a Oktober da Alemanha. E, claro, a terceira, se nós olharmos pelo cenário do Rock in Rio e de outros grandes eventos do Brasil que já cancelaram, seria o cancelamento. Esse, neste momento, não é o nosso desejo, mas também tem que estar no repertório da cidade. Estamos avaliando todos os cenários.

Sobre educação, como recuperar o tempo perdido durante a pandemia?

Ano passado se falava na impossibilidade do retorno das aulas presenciais. Neste ano temos aulas presenciais. Ou seja, já tivemos um avanço neste contexto. Cremos que, com a vacinação, teremos um avanço mais consistente. Temos que trabalhar cada vez mais, e mais forte, para não ter um prejuízo maior. Até porque as disciplinas foram dadas, mas precisamos fortalecer isso.

Estamos fazendo algumas alterações em relação à modelagem das aulas on-line, proporcionando aulas pré-preparadas, gravadas, que os alunos vão ter acesso mesmo que não estejam em sala de aula. O professor que vai ficar responsável por alimentar a plataforma vai ter que continuar acompanhando. Vamos ter uma sequência mais sólida da educação.

Com o retorno das atividades presenciais, que a gente espera que consiga chegar a totalidade adiante, temos o desejo de fazer um trabalho de resgate daqueles que, eventualmente, não conseguiram acompanhar na qualidade necessária, com aulas de reforço complementares.

Parte do que se aprendeu na pandemia, no que diz respeito à gestão da educação, pode ser aproveitado no futuro?

Com certeza, em especial a educação a distância, que pode ser complementar da educação no nível fundamental e médio, inclusive. De apoiar o processo que aí está. Temos feito isso para modernizar o nosso sistema de educação. Por exemplo, se nós tivéssemos aula normal hoje e o aluno faltasse, ele poderia ter acesso a uma aula padrão, gravada. Ou seja, ele não perderia a aula. Vai aproximar o aluno do conhecimento, daquilo que é o currículo base do ensino, que vai ser dado para toda a rede, independentemente do aluno estar na sala.

Como vai ser o modelo de transporte coletivo de Blumenau depois da pandemia, se o número de usuários não for recuperado quando a pandemia acabar?

Esse é o modelo que o Brasil inteiro está buscando, e não somos diferentes. Através da agência reguladora e da Seterb, estamos fazendo esse diálogo com a empresa concessionária e demais parceiros. O sistema que foi projetado para 120 mil passageiros por dia está transportando 45 mil no teto dos últimos dias. Então há um déficit extremamente importante que precisa ser equacionado no custo e também na condição de agilidade, do atendimento da demanda.

Esse é um dos principais desafios da gestão nos próximos dois anos, imaginando que a gente tenha um equilíbrio da pandemia no ano que vem.

O modelo atual de transporte coletivo vigora há décadas, que é a divisão do custo pelos passageiros. Quais outras alternativas a gestão enxerga?

É um debate profundo do sistema pra gente avaliar qual é a linha. A prefeitura de Blumenau em breve vai assumir algumas responsabilidades, entre elas a vigilância dos terminais. Diante dessa mudança, vamos ter algumas reduções de custos. Isso está sendo debatido pela agência reguladora para que a gente possa implementar e buscar um equilíbrio do transporte coletivo.

A pandemia evidenciou dificuldades na integração das ações entre os municípios do Médio Vale. O que foi possível aprender na área de saúde que pode vir a ser aplicado no futuro em outras áreas para integrar mais a região?

Acho que a região está integrada hoje. É uma análise, com o perdão da palavra, não é uma crítica a você, superficial dizer que a pandemia evidenciou a não integração. Tem vários consórcios e várias ações funcionando muito bem, obrigado. Esse é um ponto importante a ser destacado. Claro, que quando você vai discutir a situação de um município de 360 mil habitantes com a de outro de 70 mil e outros com 10 mil, 5 mil habitantes, você tem situações completamente distintas. Existe uma unidade entre os prefeitos do Médio Vale, uma comunidade bem evidenciada e importante nesse processo, que tem nos dado até felicidade, na minha visão.

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