Comunicado no fim da tarde de sexta-feira (27), o pedido de renúncia do executivo Rafael Lucchesi do cargo de CEO da Tupy escancara ainda mais a turbulência interna vivida pela multinacional catarinense. A mudança realimenta o debate em torno da governança da metalúrgica de Joinville, alvo de questionamentos recentes de acionistas e de parte do mercado. Não é comum, para uma empresa deste tamanho, uma nova troca no topo da gestão no intervalo de apenas um ano.
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A própria indicação, em março de 2025, de Lucchesi à função, com a benção do BNDESPar e da Previ, acionistas majoritários que detêm 53% do controle da Tupy, já havia despertado desconfiança. O economista tinha trajetória sólida e reconhecida no associativismo, principalmente como diretor da Confederação Nacional da Indústria (CNI) e do Sesi, mas pouca bagagem na linha de frente de uma grande empresa. Isso, na visão de acionistas descontentes, contrariaria regras de governanças esperadas por uma companhia listada em Bolsa, de quem se espera uma gestão essencialmente técnica.
Conheça a Tupy, multinacional de Joinville
Apesar de manifestações públicas de apoio ao nome de Lucchesi, como a da Fiesc, a troca de comando foi ainda mais questionada por causa do desempenho do antecessor de Lucchesi. Fernando Rizzo, que comandava a Tupy desde 2018, era bem avaliado pelo mercado e foi responsável por liderar uma importante expansão da empresa no exterior, além de ter atuado em aquisições estratégicas, como a da MWM – um negócio fechado em 2022 por R$ 855 milhões.
Acionistas minoritários chegaram a reclamar, na época, de suposta interferência política na gestão da Tupy. Esse tipo de queixa já havia ocorrido antes, com as indicações, em 2023, dos ministros Carlos Lupi e Anielle Franco, do governo Lula, para o conselho de administração e, mais recentemente, no início deste ano, de José Múcio, da Defesa – somente Múcio ainda permanece no colegiado.
Em meio a esse cenário, a Tupy teve prejuízo líquido de R$ 655 milhões em 2025, com piora de R$ 737 milhões na geração de receitas, atribuída a um cenário macroeconômico de incertezas relacionadas a tarifas comerciais, como a aplicada pelos Estados Unidos, e menor demanda por veículos – a empresa é fabricante de autopeças, como blocos e cabeçotes de motores.
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Ao divulgar o balanço, a empresa disse que o prejuízo ocorreu em razão, principalmente, de um investimento de R$ 544 milhões para o aumento da eficiência operacional. A expectativa da companhia é de que esse aporte resulte em ganhos a partir de 2026.
Foi neste contexto que Lucchesi informou a renúncia “em caráter irretratável e irrevogável”, segundo um fato relevante divulgado na sexta pela Tupy. O texto cita que a decisão do executivo foi tomada por “razões de ordem estritamente pessoal”.
O conselho de administração da companhia, sob a coordenação do presidente Jaime Kalsing, conduzirá o processo de sucessão. Até a conclusão, o atual diretor vice-presidente de Estratégia, Novos Negócios, Inovação e M&A, Gueitiro Matsuo, exercerá o cargo de CEO em caráter temporário.
























