“Há sinergia entre floresta e periferia”, diz filha de Chico Mendes, que já visitou favela em SC

Em entrevista ao NSC Total, Ângela Mendes falou sobre visita à comunidade que leva o nome do pai, em Florianópolis, e a conexão entre a luta pela preservação da floresta e a realidade das favelas

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Ângela tinha 19 anos quando o pai, maior ambientalista do Brasil, foi assassinado em 1988 (Foto: Redes sociais, Reprodução)

A filha do maior ambientalista do Brasil, Ângela Mendes, já visitou a favela que carrega o nome do seu pai, Chico Mendes, na Grande Florianópolis. Em 2022, a militante veio à comunidade, que fica no bairro Monte Cristo, e ficou hospedada na casa de Josiani Cristina dos Santos, que atua com um projeto voltado ao combate de violência doméstica.

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Para a moradora, a visita de Ângela à comunidade Chico Mendes foi marcante para os moradores da região:

— A visita dela na comunidade fez toda diferença, porque ela não conhecia o bairro que leva o nome do pai, o ativista Chico Mendes. Foi muito importante para toda comunidade — diz a moradora.

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Ambientalista e presidente do Comitê Chico Mendes, Ângela luta pela preservação do legado do pai, assassinado em 1988 por defender a Amazônia e os direitos dos seringueiros. O comitê, criado na noite do assassinato de Chico, busca ser um catalisador de soluções para uma Amazônia ambientalmente equilibrada, economicamente próspera e socialmente justa.

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Em entrevista ao NSC Total, Ângela falou sobre a visita à comunidade Chico Mendes em Florianópolis, a importância de projetos sociais na periferia e a conexão entre a luta pela preservação da floresta e a realidade das favelas. Confira a entrevista completa:

Como foi a experiência de visitar a comunidade Chico Mendes para você?

Eu fui lá apenas uma vez, mas eu quero muito voltar à comunidade. Porque eu acho que as periferias, assim como as populações que moram na floresta, vivem à margem. [Elas são] super manipuladas, em época de eleição, seus votos são super valorizados, mas depois a política pública não alcança essas pessoas. Elas são invisibilizadas, vulnerabilizadas por uma política pública que nunca chega e quando chega, não chega com a força e com a intenção necessária para atender as suas necessidades. É por isso que eu acho que há uma sinergia entre floresta e periferias. Nesse cenário de apagamento.

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[A visita] foi muito rica e muito interessante para a mim. É importante conhecer ainda mais profundamente toda essa “pulsatividade” que vem, conhecer a própria história da Revolução dos Baldinhos, o trabalho que eles fazem com compostagem. Isso é tão essencial, é tão estratégico pra gente “hackear” o sistema neoliberal, colocar as pessoas nos seus devidos lugares, as coisas nos seus devidos lugares. Porque o capitalismo faz pensar que só existe saída pelo capitalismo. Mas não é assim, e a gente engole essa história e às vezes não busca outras saídas. Mas as saídas estão nesses lugares [na própria periferia]. Só que é isso, o sistema vai manter essas histórias sempre apagadas. E essas pessoas sempre em uma luta constante pela vida.

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Qual a importância de movimentos como a Revolução dos Baldinhos no contexto da periferia?

É uma mudança de mentalidade, sabe? Quando você envolve a comunidade, quando você envolve principalmente as escolas — eu acho que isso precisa estar muito presente nas escolas — a gente volta a respirar esperança de que o futuro não vai ser tão ruim. É através da arte, da cultura, da educação de qualidade, inclusiva, pública, real, que desperte esse senso crítico, que faça as crianças se aproximarem do que de fato importa.

E é real ter o contato com a terra, ter o contato com as iniciativas de reciclagem, todas essas iniciativas que nos façam entender todo o ciclo do mundo, dessa vida aqui na Terra. A gente precisa estar nas escolas também e levar essas iniciativas, o que a gente sabe que é um desafio porque não é todo mundo que abre as portas para que isso aconteça. Por isso que eu acho que a Revolução dos Baldinhos tem uma potencialidade incrível, assim como todas as outras atividades e ações que rolam [na comunidade Chico Mendes].

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Santa Catarina enfrenta sérios problemas de especulação imobiliária e perda de áreas verdes. Você percebe uma falta de integração entre o desenvolvimento urbano e a preservação ambiental, tanto aqui em Santa Catarina quanto no Brasil?

Eu não sei falar de Santa Catarina, mas eu ouso acreditar que essa é uma realidade geral. Normalmente as pessoas que estão na cidade, elas não pensam o rural, não pensam a floresta, não pensam para além do concreto. E isso é preocupante, porque faz pensar que apenas a população que vive naquele outro ambiente é responsável por cuidar, por manter e por lutar por isso. Quando, na verdade, tudo isso aqui já foi alguma coisa menos cidade. Então a gente está aqui para tentar manter o mínimo de equilíbrio, e a gente faz isso cuidando do que está no nosso entorno, do que ainda resta de floresta, de ecossistema que precisa ser cuidado. Porque quem está nas cidades usufrui de tudo aquilo que a floresta, as águas e os ecossistemas promovem.

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Você preside o Comitê Chico Mendes. De que maneira vocês atuam, atualmente?

O Comitê Chico Mendes tem uma história importante que atravessa as décadas. O comitê nasce, de maneira informal, na noite do assassinato do meu pai, quando os companheiros e as companheiras estão ainda no sentimento do luto e resolvem que é preciso um espaço que conflua a busca por justiça em relação ao seu assassinato, com o cuidado e a reverberação da memória de luta dele.

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Então, em um primeiro momento, o comitê mobiliza a sociedade nacional e internacional para pressionar o governo brasileiro para fazer, de fato, a investigação e para punir os culpados, porque existia — e ainda hoje existe — essa sensação de impunidade. De fato, dois ou três anos depois, eles foram julgados [Darly Alves da Silva e seu filho, Darci Alves Pereira, foram condenados pelo assassinato do líder seringueiro em 1990, dois anos após o crime].

Mas outra coisa muito importante, talvez mais importante ainda, era preservar essa memória de luta e de liderança que ele teve e, sobretudo, cuidar do legado que ele deixou. Para isso também, resolvemos criar a Semana Chico Mendes, que realizamos todo ano de 15 a 22 de dezembro, que é a data em que ele nasceu, dia 15 de dezembro, até a data em que foi assassinado, dia 22. Nessa semana, fazemos uma semana de reflexões e debates sobre todo esse legado que falamos, que vai desde o projeto Seringueiro, que foi um projeto de alfabetização para adultos da floresta; passa pelos empates, que foram os movimentos pacíficos de resistência ao desmatamento da floresta; e passa pela Aliança dos Povos da Floresta, que foi uma grande aliança celebrada com os povos indígenas como uma estratégia de resistência aos inimigos comuns que eram e continuam sendo os latifundiários, os grileiros, os madeireiros.

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A Reserva Extrativista, que foi a grande criação liderada pelo meu pai, é uma área de uso coletivo protegida para que as populações seringueiras, hoje extrativistas, pudessem permanecer no seu lugar sem que a violência pelo conflito da terra lhes atingisse e, ali dentro, desenvolver seus modos de vida, seus conhecimentos tradicionais e sua cultura. Hoje, nós temos — quando meu pai morreu, foi assassinado, na verdade, ele não conheceu nenhuma reserva extrativista — cerca de 90 reservas extrativistas florestais e marinhas espalhadas dentro e fora da Amazônia, todas frutos da sua luta.

O Comitê Chico Mendes vem desde essa época celebrando esse legado, realizando a Semana Chico Mendes, despertando esse debate e, a partir de 2020, começamos a celebrar um outro legado que ele deixou: a Carta aos Jovens do Futuro. Esse chamamento à ação para os jovens. Ele deixou uma carta em 88, quando foi assassinado, que demarca um período.

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A carta começa assim: “atenção, jovens do futuro, 6 de setembro do ano de 2120, aniversário ou primeiro centenário da Revolução Socialista que unificou todos os povos num só ideal e num só pensamento de unidade”. Então, ele descreve e, no final, fala: “desculpem por eu escrever estes acontecimentos que eu mesmo não verei, mas tenho o prazer de ter sonhado”.

Ele fala de um marco, que é o dia 6 de setembro de 2120, porque ele fala que, em 2120, essa revolução completaria 100 anos ou faria aniversário. Então, escolhemos o dia 6 de setembro de 2020 para realizar o primeiro Festival Jovens do Futuro, que foi online devido à pandemia, com a participação de jovens de cerca de 20 países. O comitê trabalha muito focado hoje, continuando a celebrar, fazendo a Semana Chico Mendes, o Festival Jovens do Futuro que está chegando aí também.

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Mas nós também, em 2021, nos institucionalizamos, entendendo a necessidade de causar um impacto maior, principalmente durante o governo de extrema direita que estava posto e que estava nos levando a tamanhos retrocessos, principalmente no que consideramos o legado de Chico, que são as reservas extrativistas.

Trabalhamos, então, para fortalecer hoje as vozes dos jovens das reservas extrativistas, sobretudo agora da Reserva Extrativista Chico Mendes. Trabalhamos com a juventude nesse sentido, de fortalecer essas vozes, fortalecer essas ações e, também, fazendo e começando agora esse trabalho com o fortalecimento das mulheres.

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E quantas pessoas fazem parte hoje em dia do comitê? Tem uma estimativa?

Olha, as pessoas fazem parte do comitê de várias formas. A gente tem toda a governança, a estrutura de governança do comitê, com seus sócios, com sua direção, seus conselhos. E tem as pessoas que sentem que precisam estar perto, que querem estar perto, que são nossos parceiros, voluntários.

Então, eu não tenho como te dizer hoje quantas pessoas têm. Tem também o nosso corpo técnico; normalmente, a maior parte do nosso corpo técnico também é vinculada ao comitê de alguma forma, é sócio, porque a gente entende que precisa ter muito a nossa cara para fazer parte da nossa equipe. Claro que a gente não vai conseguir isso com todo mundo, porque tem técnicos que precisam realmente ser técnicos. Mas a gente tem uma boa equipe de comunicação, onde todo mundo é engajado com o trabalho do comitê, e é quem é a nossa maior equipe.

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Então é isso, as pessoas se sentem do comitê. Quando a gente vai fazer a Semana Chico Mendes, pessoas de outros lugares do Brasil sentem que querem estar perto da gente e vêm de forma voluntária. E essas pessoas são comitê também.

Seu pai foi assassinado por defender a floresta e os povos da floresta. Quase 40 anos depois, o que você acha que mudou na luta socioambiental do Brasil?

Quase 40 anos depois mesmo, porque já são 37 anos. Muita coisa mudou. Não dá para ficar [igual] esse tempo todo, porque a vida é dinâmica. Os ciclos da vida são dinâmicos, tudo muda, nada fica estático. Mas muita coisa mudou para pior. Eu acho que a gente está com o pior congresso dos últimos anos. Ele estava muito ruim no mandato passado, piorou nesse. Defendendo pautas muito ruins, não só para nós aqui na Amazônia, mas para todo o Brasil. Pautas que induzem a violência, a violação de direitos humanos, como é a questão do marco temporal, como é a questão agora desse PL da devastação.

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Já outras coisas melhoraram. A criação dos territórios de uso coletivo foi muito importante nesse processo, porque a partir das reservas extrativistas, outros territórios foram criados, garantindo proteção para as populações. Quando a gente fala que o pai em 1988 não chegou a ver nenhuma reserva criada, mas que hoje a gente tem quase 100 — e isso porque estamos falando só das que estão sob a gestão do governo federal, porque tem as que estão sob a gestão dos governos estaduais também —, isso é um grande percentual de gente sendo protegida e de território também sendo protegido. Muitos desses territórios com escolas.

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Agora, a gente sabe que precisa avançar muito mais. A consolidação precisa acontecer, com as políticas públicas chegando, alcançando essa população. A gente fala que educação tem alcançado esses lugares, mas precisa ser melhorada, muito melhorada. A educação pública em todo o Brasil precisa melhorar muito. Porque, enfim, a educação é a base de tudo. E, infelizmente, também é a base de uma construção política muito cruel, que mantém esse ciclo de manter as pessoas sem alcançar essa educação de qualidade que faça refletir. Se a gente não implementar essa educação libertadora, vai continuar nesse ciclo.

Às vezes parece que a pauta ambiental é vista por muitas pessoas como um assunto de nicho, que não afeta a vida cotidiana. Qual é a sua opinião sobre isso?

Todo mundo não respira? Todo mundo não bebe água? Todo mundo não come? Eu acho que é pensar a partir daí. Veja que, o que a gente faz é um trabalho que não é um trabalho só para nós. Quando a gente defende a Amazônia, quando a gente defende o não desmatamento, quando a gente defende e veta o PL da devastação, é porque a gente entende que isso é ruim e prejudicial para todo mundo, não é só para nós.

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Lutar para o desmatamento zero, para que se reduza a emissão de gases, de carbono, dos gases de efeito estufa, lutar contra o petróleo, que é talvez o maior emissor de gases, de poluentes, é uma luta que… Eu acho interessante uma frase conhecida do meu pai, que é assim: “No começo, pensei que estivesse lutando para salvar a seringueira. Depois, pensei que estivesse lutando para salvar a Amazônia. Agora, eu percebo que a minha luta é pela humanidade”.

Porque é isso, a gente não está lutando só pela Amazônia. Imagina, os desmatamentos ocorrem aqui na Amazônia, mas veja que os serviços ecossistêmicos que ela oferece vão para além da Amazônia. Ela vai, inclusive, permitir a produção de alimentos aí no Sul. Aí mesmo em Florianópolis, no Rio Grande do Sul, em São Paulo, no Sudeste todo, vai para o Uruguai, vai para o Paraguai.

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Então, é um serviço ecossistêmico que vai muito além das suas fronteiras. E quando a gente defende a floresta, a gente está defendendo quem usufrui de tudo isso, quem está comendo o alimento produzido nessa região. Porque os rios voadores, que são um fenômeno que acontece devido à Amazônia ainda estar de pé, levam umidade para esses lugares, levam chuva para esses lugares, porque a Amazônia distribui água para além da própria Amazônia, da própria região Norte.

Infelizmente, realmente existe esse povo que enche a boca para falar contra os ativistas, os ambientalistas, mas não entende que ele está vivendo aí a custo do trabalho que a gente está fazendo, a custo da vida de muita gente.

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Cada dia que um indígena é assassinado por defender o seu território, que um povo, uma comunidade ou uma liderança tradicional é assassinada para defender o seu território, é uma perda a mais nessa frente de defesa. E aí é um prejuízo a mais, uma perda imensurável para quem está desse lado da luta, mas deveria ser sentida também por todo o conjunto da sociedade, porque é um ativista, é um guerreiro a menos nessa luta que a gente faz contra o fim do planeta. Porque a gente está caminhando a passos largos para o fim da vida neste planeta. Não é nem o fim do planeta, porque o planeta vai continuar existindo, ele vai se regenerar, apesar de tudo de ruim que a gente vem fazendo. Mas a gente vai desaparecer. Então, eu acho que a gente precisava fazer menos esse julgamento e se juntar a essas vozes na luta também.

Qual é o Brasil que você luta para construir?

A nossa luta é por um país mais justo, com mais igualdade. Não só igualdade, a palavrinha é equidade. Igualdade, mas também equidade. É tratar diferente os diferentes. É um país que respeite todas as diferenças e que seja mais afetuoso. Eu acho que essa, na verdade, é a nossa grande luta. Acho que a gente vai vencer pelo coração.

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*Sob supervisão de Giovanna Pacheco

Antonietas

Antonietas é um movimento da NSC que tem como objetivo dar visibilidade a força da mulher catarinense, independente da área de atuação, por meio de conteúdos multiplataforma, em todos os veículos do grupo. Saiba mais acessando o link.

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