Gustavo Henrique da Silva Coutinho, de 28 anos, brinca com as alturas. Atleta profissional de highline, Coutinho é um dos quatro brasileiros classificados para representar o país no campeonato mundial de speedline, que irá ocorrer na comuna francesa de Ribeauvillé, entre os dias 6 e 9 de julho. Na busca do sonho de viver do esporte e ser referência nele, o atleta está rifando uma câmera Canon T5I para poder custear as despesas da viagem.

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O highline é um esporte derivado da escalada e uma das modalidades mais desafiadoras do slackline, esporte mais conhecido e que consiste em tentar se equilibrar em uma fita esticada entre dois pontos. A diferença para o highline é que essa fita fica presa a dezenas ou centenas de metros de altura, elevando os riscos e exigindo mais habilidades do atleta. Nessa modelidade, a fita costuma ser estucada em montanhas, cachoeiras, cânions e até entre prédios no meio da cidade. No speedline, o atleta deve atravessar a fita com a maior velocidade possível, praticamente correndo em cima dela.

Em Ribeauvillé, 20 homens e 10 mulheres de todo o mundo irão competir para ver quem atravessa os 150 metros de fita em menor tempo, sendo que a avaliação contabilizará apenas os 100 metros centrais, pois há as margens de segurança em cada extremidade. Os atletas andarão sobre ruínas de castelos medievais, construídos há mais de 500 anos.

Ribeauvillé é conhecida por seus castelos ainda preservados (Foto: Reprodução/CRTA)

A competição, que teve sua primeira edição em 2022, cedeu ao melhor atleta de cada continente vaga garantida para este ano. O baiano Matheus Vidal, que ficou em 3° colocado na edição passada, abriu mão de sua inscrição por motivos pessoais. O restante das vagas foi definida através de vídeos que os atletas enviaram para avaliação, que tinha como critério principal o menor tempo percorrido em uma distância sugerida de 100 metros. Cerca de 80 atletas de todos os países se inscreveram para o evento, restando apenas os 30 classificados. Coutinho andou 120 metros em um minuto.

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Já em terras francesas, o campeonato vai fazer uma rodada inicial onde todos os atletas atravessarão a fita e terão seus tempos de performance rankeados, delimitando as chaves e seguindo para oitavas de final, quartas, semi e final.

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Para Coutinho, que largou a faculdade de Arquitetura em Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, para vir a Florianópolis e realmente viver do esporte, a oportunidade de competir no mundial pode ser uma virada de chave na vida.

— Acho que vai abrir muitas portas, para dar visibilidade como atleta mesmo e talvez até conseguir patrocínios, além de me ajudar a levar o esporte para frente e conseguir desenvolver projetos sociais de acesso ao highline. Quero ser referência pela inserção no esporte, e uma das minhas ideias é estruturar uma escola de slackline e de highline aqui na Ilha, tanto no âmbito esportivo quanto no âmbito social.

Atleta leva a altura também para o trabalho de alpinista industrial, fazendo pintura e restauração de prédios (Foto: Arquivo pessoal)

Rifa e a busca pelo sonho

Para tornar o sonho realidade, Coutinho está rifando uma ferramenta de grande importância para seu crescimento no esporte: uma câmera Canon T5I, usada por ele para produzir vídeos e imagens dos treinos no highline. A mídia é uma importante aliada para conquistar a visibilidade e atrair patrocinadores:

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— Essa rifa é de grande importância, muito significativo pegar e poder não só pedir uma ajuda, fazer uma vaquinha, mas também pra quem tá apoiando ter um retorno, ter uma possibilidade de ganhar uma parada que é realmente muito valiosa para mim. A câmera é muito importante da mesma forma que essa viagem é muito importante.

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O valor arrecadado com a rifa será utilizado para cobrir as despesas da viagem, que não são poucas, principalmente levando em conta o valor do euro. A competição não fornece auxílio financeiro, e custos como passagens aéreas, alimentação e local para dormir são bancados pelos próprios atletas:

— Até agora, a gente está numa busca incansável para juntar os fundos para poder ir para a viagem, que eu realmente não tenho condições de bancar por conta própria.

Com a rifa, o atleta conseguiu arrecadar 50% do valor necessário para a viagem, que ainda não está garantida e depende de maiores arrecadações.

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Como comprar a rifa

As rifas custam R$ 20 por número escolhido. Ao todo, são 400 números, e a pessoa escolhe quantos quiser, caso ainda estejam disponíveis.

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Para participar, basta acessar o link da rifa digital e escolher os números desejados. A forma de pagamento é através do Pix, pela chave 03387373082, o qual deve ser enviado o comprovante para o número do atleta confirmando a participação.

Gustavo está realizando ainda a venda de camisetas, para conseguir mais recursos. As encomendas podem ser efetuadas através do seguinte número: (54) 9 9684-7751.

Camisetas serão usadas pelo atleta no mundial (Foto: Reprodução)

Highline em Florianópolis

A capital catarinense é um dos epicentros do esporte no Brasil e ganhou destaque mundial em 2015 com a realização do primeiro festival de highline do país, o Gravatation, que aconteceu na praia da Lagoinha do Leste.

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Festival internacional de Highline transforma Florianópolis em capital do esporte durante quatro dias

A variedade de lugares para praticar o esporte, com locais de ancoragem já montados e as boas condições climáticas contribuem para esse destaque de Florianópolis no cenário.

— Floripa é uma cidade que sempre atraiu pessoas fantásticas, e vários atletas vieram morar aqui depois do festival. Sempre tem highline acontecendo na cidade, é uma prática constante. Só quando tá com vento muito forte que a gente dá uma parada, por questões de segurança mesmo — explicou o atleta.

Prática do highline chama atenção de todos que visitam a praia do Gravatá (Foto: Arquivo pessoal)

Em Florianópolis, além da praia do Gravatá, principal ponto de encontro para a prática do highline na ilha, há também vias na Barra da Lagoa e na Lagoinha do Leste, além de montagens ocasionais de highline urbano, aquele que acontece no meio das cidades.

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Ponte Hercílio Luz terá travessia de highline inédita

Fitas já foram montadas na Praça XV de Novembro, no Centro, e na ponte Hercílio Luz, cartão postal da cidade. Coutinho, que trabalha com alpinismo industrial, fazendo a restauração e pintura de prédios nas alturas, visualizou no ano passado a oportunidade de montar um highline entre duas torres de comunicação no Morro da Cruz, uma das experiências mais insanas que diz já ter passado no esporte.

Gustavo Coutinho até aqui

Entre horas e horas de treinos na madrugada, travessias de centenas de metros de fita e até mais de quilômetros, além da paixão antiga por velocidade, inclusive corrida e moto, Coutinho foi se aperfeiçoando e se tornando uma das referências do highline em Santa Catarina e no Brasil.

Goiano de nascença, do pequeno município de Minaçu, o atleta mudou para Capinzal, no Meio-Oeste catarinense, aos três anos de idade, onde morou por cerca de cinco anos até se mudar para Caxias do Sul, onde viveu durante toda sua adolescência. Por lá, iniciou na prática do slackline há nove anos pela influência de um amigo. No entanto, foi nas cidades de Farroupilha e Bento Gonçalves, na serra gaúcha, que ele se interessou pelo highline, no Parque dos Macaquinhos, em 2019.

Coutinho cursava Arquitetura no Centro Universitário da Serra Gaúcha (FSG) quando decidiu abandonar tudo e viver do esporte em terras manezinhas. O atleta diz sempre ter tido o sonho de morar na Ilha, mas somente depois que conheceu o highline que concretizou seu desejo.

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— Quero viver no mundo e ter uma casa para voltar aqui em Floripa, essa é minha meta de vida. Santa Catarina é riquíssima de oportunidades de highline, tanto no Litoral quanto na Serra e nos cânions, onde rolam algumas das montagens mais insanas do mundo. Já andei em Monte Negro, Amola Faca, Avencal…

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Acostumado com a adrenalina que o esporte proporciona, o atleta chegou a trabalhar por um período na Natural Extremo, empresa de experiências de aventura conhecida pelo salto de pêndulo em Urubuici, cujo um dos sócios é Rafael Bridi, atleta que detém dois recordes no Guiness Book dentro do esporte.

Em competições, Coutinho foi campeão da modalidade speedline no Entre Ilhas de 2022, que aconteceu nas Ilhas de Itacolomi, no município catarinense de Balneário Piçarras. O atleta teve o melhor desempenho da carreira, percorrendo 45 metros em 45 segundos.

Competição aconteceu entre duas ilhas do município de Balneário Piçarras (Foto: Arquivo pessoal)

Especialista do trickline, em que o foco é fazer manobras, e do treino de endurance, maior tempo e resistência em cima da fita, onde chegou a andar 4,5 quilômetros em uma fita de 70 metros, indo e voltando sem cair, por mais de duas horas e 30 minutos, ele começou a se aventurar no speedline para melhorar ainda mais sua performance na distância e na velocidade. A fita mais alta que o atleta já entrou foi em Monte Negro, no Rio Grande do Sul, com mais de 300 metros de altura.

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Estilo de vida

Para o atleta, o esporte proporciona evoluções que desbloqueiam diferentes visões de se olhar o mundo. O alto nível de concentração necessário, junto com a noradrenalina, que é o hormônio do medo, faz o corpo perceber que está lado a lado com o limite, muito exposto à altura.

— As pessoas perguntam se eu não tenho medo de morrer. Sinceramente, eu não estou vivendo no extremo da morte, eu estou vivendo no extremo da vida, eu estou vivendo intensamente. O que o highline me proporciona é surreal. É um privilégio, são pouquíssimas pessoas que sentem essa sensação e conseguem enxergar o mundo dessa forma diferente — conta.

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Para ele, o highline, junto a outras práticas de mobilidade, como o yoga, permite uma evolução não somente física e esportiva, mas também mental:

— A gente desbloqueia algumas chavinhas na cabeça que começamos a enxergar de um lado mais humano, mais conectado com a natureza.

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Para o atleta, esporte proporciona um estilo de vida mais integrado com a natureza e com os seres humanos (Foto: Arquivo pessoal)

Levanto em conta que a vida do atleta que está em risco e totalmente exposta, é um ritual importante da prática do highline sempre estar acompanhado de alguém para dar o “double check”, que é conferir se todos os equipamentos estão presos da maneira correta.

Apesar dos materiais serem seguros e de extrema resistência, é importante ter uma análise adequada dos locais de ancoragem e do solo, além de acompanhar as condições climáticas e usar materiais de qualidade, que costumam ser duplicados para aumentar a segurança.

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Um dos projetos de inserção no esporte que Coutinho participa é o “Curta o Parque”, evento que acontece de duas a três vezes por ano por ação dos moradores da região do Parque da Luz, no Centro da cidade, levando cultura e socialização para a comunidade. Participam dele diversos oficineiros da parte de cultura, esporte e lazer.

— Eu vim para Floripa para viver disso, e uma das coisas que eu faço são as oficinas. Quero estruturar essa parte cada vez mais, principalmente do slack e de iniciação ao highline.

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Oficinas e projetos sociais de inserção no esporte são um dos focos de Coutinho (Foto: Arquivo pessoal)

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