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Custo de vida

Conheça o responsável por calcular a inflação de Florianópolis há 50 anos

Hercílio Fernandes atua com a pesquisa do Índice de Custo de Vida (ICV) de Florianópolis desde 1971

01/01/2022 - 13h00

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Estela
Por Estela Benetti
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Perto da aposentadoria, Fernandes fala sobre a trajetória e dá dicas para os consumidores economizarem em tempos de aumentos
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O sobe e desce da inflação tem impactos amplos na economia e na vida das pessoas, em especial para as mais pobres, como mostra o atual momento de alta de preços. Por isso, para o administrador Hercílio Fernandes Neto, 69 anos, liderar a pesquisa do Índice de Custo de Vida (ICV) de Florianópolis, a inflação da capital, é missão e paixão. Em fevereiro deste ano ele vai completar 50 anos nessa atividade de apuração do índice da Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc Esag), sendo desde 1974 como coordenador.

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Questionado se é o mais longevo gestor de índice de inflação do Brasil, Hercílio Fernandes diz que imagina ser, sim. Isso porque a turma que começou com ele nos anos de 1970, em outras instituições do país, não está mais na ativa. Nascido em Florianópolis, ele planejava fazer medicina, mas acabou ingressando no curso Administração da Udesc.   

– Entrei como aluno da Udesc Esag em 1971. Comecei a trabalhar como tabulador e pesquisador do Índice de Custo de Vida. Fiz muita pesquisa de campo, conheço todos esses processos porque participei de tudo desde o início. Eu fazia cálculos a mão – conta.

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Quando concluiu a graduação, em fevereiro de 1976, assumiu a função de técnico na instituição e a coordenação do índice, função que ocupa até o momento. O curso de economia não fez falta porque o de administração também tem muita matemática e estatística. Além disso, fez especialização em administração pública.

Na trajetória de cinco décadas, Fernandes acompanhou ritmos diversos de inflação, tanto local quanto nacional. O histórico descontrole de preços no Brasil, em especial a hiperinflação no fim dos anos de 1980 e começo dos anos de 1990, resultou em números estratosféricos. Para se ter ideia, entre 1968 e 1998, a inflação acumulada no país chegou a 970 trilhões por cento, destacou o ex-senador catarinense Neuto de Conto, no livro “O Milagre Real”, em que ele conta a participação que teve em 1994 como relator da lei que criou a Unidade Real de Valor (URV). Foi com essa unidade, tipo uma moeda paralela, que o Brasil conseguiu alinhar os preços para a nova moeda, o Real, e acabar com a hiperinflação. 

– Hoje o pessoal está se assustando com inflação de 10% ao ano. Tínhamos isso por dia nos tempos de hiperinflação. Em 20 dias úteis, chegamos a ter em Florianópolis inflação de quase 200% ao mês – lembra.

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O ICV foi criado em 1968 por sugestão de Ivan Mattos, então secretário de Estado da Fazenda na gestão do governador Celso Ramos. Coube ao Instituto Técnico de Administração e Gerência (Itag) da Udesc criar o índice para ser usado numa série de custos de serviços e produtos no Estado. Isso porque a inflação oficial do país não incluía – e ainda não inclui – pesquisa de preços em SC. Conforme Fernandes, o índice da Udesc é usado como base para reajustes de serviços e produtos de Florianópolis e região.

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Desde o início, o indicador foi elaborado de forma semelhante ao nacional, com rigor técnico e ponderação local. É integrado atualmente por 297 preços de alimentos, produtos e serviços e, com muita frequência, fica próximo da inflação oficial do país, o IPCA. O trabalho é constante e criterioso. A coleta de dados em 16 locais diferentes é feita por quatro estagiários e uma economista. Bruna Soto entrou como estagiária em 2016 e quando concluiu a graduação em Ciências Econômicas na Udesc Esag foi contratada como economista do índice.

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Fernandes conta que em tempos de escassez de recursos, a Esag não tinha estagiários. Para manter o índice todo mês, ele próprio saia para fazer pesquisas. Também pedia ajuda para a esposa, a professora Neusa Fernandes do ensino fundamental que, muitas vezes, foi aos supermercados para anotar lista de preços.

Mas dedicação e resiliência nunca faltaram ao coordenador. No fim de cada mês, os cálculos estavam prontos. Mesmo que isso exigisse trabalho nos finais de semana ou em mais horas à noite. Nas primeiras décadas, o esforço era grande porque a tecnologia não era como a atual e ele tinha dois empregos. Durante o dia, trabalhava na Celesc (até 2005), e à noite, na Udesc.

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Como está completando cinco décadas à frente do índice, Fernandes já começou a preparar a aposentadoria e a despedida da atividade. Quando sair, o ICV passará a ser liderado pela economista Bruna Soto (foto abaixo), que ele preparou nos últimos anos para levar a missão adiante. Além ter participado de pesquisas de preços, ela também faz os cálculos e coordena a coleta de dados apoiada por software especial e aplicativo.

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A economista Bruna Soto vai assumir a coordenação do índice após a saída do mestre
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“Comprar alimentos durante a semana é mais barato”, ensina Fernandes

Pesquisar centenas de preços por cinco décadas permite acumular aprendizados sobre como comprar melhor, observa Hercílio Fernandes. O coordenador do Índice de Custo de Vida (ICV) da Udesc Esag alerta que, atualmente, é mais barato comprar alimentos durante a semana. No caso de produtos de higiene e limpeza, é possível gastar de 30% a 40% menos se as aquisições forem em lojas de atacarejo: 

– Fazer uma grande compra no final ou no início do mês ajuda a gerar inflação. Isso porque o supermercado entende que tem alta demanda e precisa repor o estoque. O ideal seria fazer a compra mais distribuída ao longo do mês e não de uma vez só – explica.

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Os levantamentos de preços para o ICV da Udesc apontam, também, que aos finais de semana, quando as pessoas compram mais, há menos ofertas nas prateleiras de supermercados. Por isso, a dica para gastar menos é não comprar nos finais de mês e nos finais de semana.

– Se as pessoas fossem mais vezes aos supermercados, além de colaborar para a redução de preços, ajudariam também as empresas do setor. Isso porque elas não precisariam de lojas grandes e disponibilizar um grande volume de mercadorias para vender num curto período. O problema maior é no setor de hortifruti, que tem produtos muito perecíveis. Se o consumidor comprar menos, os estoques podem ser menores. O grande problema da economia são os desequilíbrios – alerta Fernandes.

A batata inglesa subiu mais de 30% em outubro e, em novembro, na safra, não teve recuo na mesma proporção

Hercílio Fernandes, coordenador do ICV da Udesc Esag

No último ano, também estão chamando a atenção da equipe do ICV as variações de preços nas safras. O normal era que, quando iniciava a colheita de um determinado produto, aumentava a oferta e caia o preço. Mas os números da inflação de Florianópolis têm mostrado que nem sempre é assim, o que intriga Hercílio Fernandes. 

– Frutas, legumes e hortaliças, normalmente, têm um período de safra e outro de entressafra, com queda de preços na safra e vice-versa. Este ano, a gente observou produtos com alta de preços na safra. A batata inglesa subiu mais de 30% em outubro e, em novembro, na safra, não teve recuo na mesma proporção – detalha.

Os desequilíbrios dentro e fora do período de safra também aconteceram com os preços de cereais comercializados com base na cotação do dólar. As maiores pressões durante a pandemia vieram dos preços do arroz, milho e soja. Para o especialista, a falta de estoques reguladores da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) reduz a oferta e ajuda a gerar inflação. Chama a atenção, também, o crescente número de produtores rurais que estocam produtos à espera de preços mais altos. Essa é outra pressão nos preços de alimentos.

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Outra mudança recente destacada por Fernandes é o crescimento das redes supermercadistas de Santa Catarina, com presença em diversos estados. Isso tem reduzido as diferenças de preços de alimentos entre uma cidade e outra. Elas fazem grandes compras e praticam preços uniformes, o que inibe altas de preços muito fora da média.

“A nossa inflação atual é mais de oferta do que de demanda” 

Ao longo da trajetória de apuração da inflação de Florianópolis e da vivência com indicadores nacionais, Hercílio Fernandes aponta como melhor notícia o êxito do Plano Real para estabilizar os preços. Após a hiperinflação de 1993, quando os preços na Capital de SC tiveram o recorde anual acumulado de 2.688,74%, a inflação foi recuando com a ajuda da URV e do Plano Real.

– Depois de tantos planos fracassados, o Real também nasceu com uma desconfiança muito grande. Uma das preocupações era a questão cambial. Eu achava que seira mais um plano. Me surpreendi, deu certo e foi o que segurou a nossa economia até agora – destaca ele.

Para ele, o êxito resultou das escolhas corretas de economistas de renome que elaboraram o plano. As inflações acumuladas nos últimos 12 meses na Capital, de 10,80% e no país (IPCA), de 10,74%, preocupam, mas o Banco Central está controlando.

Na entrevista a seguir, Fernandes dá mais detalhes do trabalho dele: 

Como foi elaborado o Índice de Custo de Vida (ICV) e quando saiu o primeiro? 

Coube ao professor Newton José de Andrade liderar a elaboração do índice mensal e iniciar as pesquisas. Ele foi até a FGV para saber como era feita a apuração da inflação brasileira. Visitou vários estados e solicitou uma pesquisa de orçamento familiar para embasar o cálculo. Ela definiu que produtos seriam incluídos e a ponderação de cada um no custo das famílias. Em julho de 1968 se produziu o primeiro índice do custo de vida para Florianópolis. 

Quanto índices mensais já foram apurados? 

Estamos há 53 anos calculando esse indicador. Já foram 640 meses de publicação ininterrupta. Normalmente, se faz 16 a 17 mil cálculos por mês para chegar ao resultado final. Nas primeiras décadas, o cálculo era feito manualmente, com uma calculadora antiga. Só fomos informatizar o processo pelo computador em 1990, há 30 anos.

Mas a chegada do computador não tornou o trabalho muito mais ágil. Sempre que tivesse que alterar um preço, tinha que rodar de três a quatro horas todos os dados. Nos primeiros tempos, costumávamos publicar no dia 14 ou 15 do mês subsequente. Demorávamos para fazer os cálculos e o índice era publicado depois de impresso em gráfica. Agora, fechou o mês, o relatório digital está na mão.

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Hercílio Fernandes coordena a apuração do índice, pela Udesc Esag, desde 1974
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A coleta de dados é feita com que frequência?  

A última coleta de preços é feita dia 29 e o cálculo sai dia 30 ou 31. Isso inclusive no final do ano. Dos 297 produtos pesquisados, mais de 140 itens são de alimentação, pesquisados uma vez por semana em cada fonte. São 16 fontes, incluindo supermercados, feiras livres e o Direto do Campo. no final do mês, juntamos essa massa de dados, criticamos tudo e aí vai para um cálculo final.

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Por que o cuidado com a pesquisa sobre alimentação? 

No caso de serviços públicos, raramente tem dois ou três aumentos no mês. A parte de combustível, agora é uma realidade diferenciada, com alterações frequentes. Os demais preços não oscilam muito quando a economia está controlada. Os preços de alimentos mudam com mais frequência sempre por isso são mais pesquisados.   

Um dos períodos mais críticos da trajetória da inflação brasileira foi nos anos de 1980 e 1990. O que destaca dessa época? 

No governo de José Sarney (de março de 1985 a abril de 1990) tivemos cinco planos econômicos: Cruzado, Cruzado 1, o Plano Bresser, o Plano Feijão com Arroz e o Plano Verão. Nessa época, teve congelamento de preços.

O governo Collor lançou dois programas de estabilização. Quem controlou a inflação foi o Plano Real, no governo de Fernando Henrique Cardoso, em 1994. Antes, em 1990, quando foi decretado o Plano Collor, estávamos com uma inflação calculada de 105% no mês.

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Como o senhor analisa a inflação atual?  

A nossa inflação atual é mais de oferta do que de demanda. A inflação dos combustíveis, por exemplo, ocorre porque falta refino de petróleo. Hoje, somos dependentes da importação de diesel, gasolina e querosene de aviação. Mas, na maioria das vezes, em outros momentos, o Brasil teve inflação de demanda, isto é, muita gente comprando, o que resulta em alta de preços.

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