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    Cinco razões que mostram a falta de eficácia dos decretos contra o coronavírus em SC

    Novo decreto foi publicado no mesmo dia em que o Estado divulgou maior número de mortes e explosão de casos em um único boletim

    01/08/2020 - 16h35 - Atualizada em: 01/08/2020 - 17h48

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    Clarissa
    Por Clarissa Battistella
    Cristian Edel
    Por Cristian Edel Weiss
    Novos decretos ainda não se mostraram efetivos no enfrentamento ao coronavírus
    Novos decretos ainda não se mostraram efetivos no enfrentamento ao coronavírus
    (Foto: )

    Em menos de 20 dias, o governo de Santa Catarina anunciou quatro novos decretos para conter o avanço do novo coronavírus no Estado com medidas consideradas paliativas por especialistas, já que as imposições - que foram da suspensão das atividades físicas em grupo à proibição do transporte público -, ainda não surtiram efeitos, se analisados os números relacionados à doença. 

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    Do primeiro decreto publicado em julho, no dia 13, ao mais recente, nesta sexta-feira (31), o índice de isolamento social teve um aumento quase simbólico, de apenas 1%, enquanto a lotação das UTIs só cresceu. Ao mesmo tempo, as mortes foram registradas cada vez em maior número, assim como as notificações dos sintomas em novos pacientes. 

    Somente na última sexta-feira, 60 novas mortes e 3,1 mil novos diagnósticos de covid-19 foram confirmados. O mês de julho também encerrou com a pior média diária de mortes e pessoas infectadas: todos os dias, 1.414 novas pessoas apresentaram sintomas do vírus e outras 23 perderam a vida por complicações da infecção. 

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    Chefe do Departamento de Saúde Pública da UFSC, Fabrício Augusto Menegon avalia que um decreto de lockdown com duração mínima de 15 dias poderia controlar a situação do vírus no Estado, desde que acompanhado de um plano de contingência que preveja redução do contágio "considerando a infraestrutura de saúde, a capacidade de testagem diagnóstica e acompanhado de investimento em comunicação com a população para garantir a adesão às medidas:

    - Os decretos devem vir acompanhados de um plano de contingências que diga aos setores econômicos e à população o que será feito em termos estruturais e por quanto tempo. Caso contrário, é medida de pouca adesão. Quase inócua.

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    Para o epidemiologista, o plano de contingência deve indicar claramente o tempo em que os setores econômicos ficarão fechados, para dar uma dimensão dos impactos econômicos.

    - Isso ajuda o planejamento das empresas e aumenta a adesão dos setores econômicos, já bastante fragilizados pela redução do consumo - explica. 

    Procurada pela reportagem, a Secretaria de Estado da Saúde (SES) destacou, por meio de nota, que SC foi o primeiro Estado a adotar medidas mais restritivas contra a transmissão do vírus e disse que "acompanha o cenário (da evolução coronavírus) diariamente e emite boletins aos municípios com os dados necessários para as tomadas de decisão". 

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    Também reforçou que divide a responsabilidade sobre o combate à pandemia com os municípios, que "também podem adotar medidas mais restritivas de acordo com a realidade das regiões". 

    Confira cinco evidências de que os decretos de julho não foram suficientes:

    1. Leitos de UTIs com mais de 80% de ocupação

    Na última semana, o Estado chegou a ter 82,9% de 1377 leitos de UTI pelo SUS ocupados. A mais alta taxa durante essa pandemia. Nessa sexta, havia baixado para 81,7%. Essa conta, no entanto, considera leitos adultos, pediátricos e neonatais. Como a doença tem característica de atacar principalmente adultos, os leitos dedicados a essa faixa etária ultrapassaram 90% em algumas regiões. É o caso da Foz do Itajaí, que nesta sexta-feira tinha 91,9%, mas chegou a 97% nesta semana.

    Diferentemente da ocupação de leitos pediátricos e neonatais, nos quais a maioria absoluta está internada por outras doenças, nos leitos adultos é o inverso. Em todas as 7 macrorregiões de saúde a lotação dos leitos adultos é provocada por pacientes confirmados ou suspeitos de covid-19.

    O Estado apresenta taxa geral de ocupação de UTIs acima de 80% desde 24 de julho. E acima de 70% entre 12 e 23 de julho. Segundo Julio Henrique Croda, ex-diretor do Departamento de Imunizações e Doenças Transmissíveis do Ministério da Saúde, professor da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul e pesquisador da Fundação Osvaldo Cruz (Fiocruz), quando o índice de ocupação atinge 70%, é recomendável ampliar as restrições à circulação de pessoas imediatamente, para controlar a taxa de contágio. Quando atinge 80% de leitos ocupados, o controle deveria ser ainda mais severo.

    – É preciso imprimir novas medidas de distanciamento. Vai ter que fechar comércio, interromper transporte público. Toda parte de flexibilização vai ter que dar um passo para trás. Nesse momento que aumenta o número de casos, é preciso a retornar o que foi feito lá no início da pandemia – disse o especialista ao NSC Total ainda em 9 de julho, quando os dados apontavam para crescimento acelerado.

    Mesmo se adicionar a rede privada, os índices são os mais altos nesta pandemia. Entre pacientes suspeitos de covid-19 e confirmados, 630 estavam em terapia intensiva nessa sexta-feira.

    2. Média diária de novos casos é superior a 1,4 mil

    Entre 1º e 31 de julho, Santa Catarina registrou a média de 1.414 casos novos diários, segundo a data de aparecimento dos primeiros sintomas. O pico ocorreu em 10 de julho, quando 2.942 pacientes tiveram os primeiros sinais de covid-19.

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    A média de julho é quase o dobro do registrado em junho (878 por dia), 4 vezes a média diária de maio (316) e 15 vezes o que o Estado notificava em abril (91), quando ainda havia restrições mais rigorosas, mas a testagem da população era menor.

    3. Média diária de 23 mortes em julho

    Mais casos confirmados, por consequência geraram mais mortes em julho. A média diária de óbitos entre 1º e 31 de julho é de 24,4 até esta sexta-feira. E pode aumentar com a confirmação de casos ainda não contabilizados nos boletins que serão divulgados pelo Estado na próxima semana.

    Esse índice começou a crescer aceleradamente a partir da segunda semana de junho. A média diária de mortes em julho é três vezes maior do que a do mês anterior.

    4. Índice de isolamento social não supera 40%

    Segundo dados do In Loco, os mesmos utilizados pelo governo do Estado para monitorar a movimentação de pessoas a partir de dados de GPS gerados por celulares, desde 11 de maio, Santa Catarina teve dificuldades em manter uma taxa de isolamento acima de 40% nos dias úteis. Mesmo com restrição do transporte público em algumas regiões em julho, no geral, esse índice melhorou apenas 1 ponto percentual.

    O recomendável, conforme especialistas em saúde pública, seria manter acima de 50%, pelo menos. O maior índice num dia útil foi alcançado em 23 de março, quando o Estado registrou 64,4% das pessoas em casa, segundo a plataforma In Loco.

    5. Maior número de casos ativos na pandemia

    Santa Catarina superou dia após dia o número de casos ativos nesta pandemia, o total de pacientes que ainda seguem em tratamento contra a covid-19 e, portanto, podem transmitir o coronavírus para outras pessoas. Chegou nesta sexta-feira a 12.370. Há casos ativos em todas as microrregiões do Estado, com maior concentração no litoral, desde o Norte até o Sul, justamente as primeiras regiões afetadas pela doença.

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    O Oeste, que sofreu com a disseminação de novos casos entre abril e junho, hoje apresenta índices mais baixos.

    Até mesmo o número de cidades com 100% dos casos recuperados caiu em julho. Em 15 de junho, eram 80 cidades que haviam zerado o número de pacientes em tratamento contra a covid-19. Nesta sexta-feira, eram apenas 31.

    Tendência de alta nos novos casos

    Com exceção das microrregiões de Xanxerê e Concórdia, as demais 18 do Estado apresentam média móvel ascendente, o que indica que a taxa de novos casos continua acelerada nas últimas semanas. A média móvel calcula a média dos novos casos nos últimos sete dias, como forma de atenuar a curva e permitir enxergar se a tendência é de crescimento ou queda.

    A média móvel de novos casos em Santa Catarina é de 2,5 mil em 31 de julho. O Estado chegou a ensaiar uma queda em 15 de junho, quando chegou a 240 casos diários em média, mas começou uma nova escalada que ainda não dá sinais de queda.

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