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Lembranças

Saudade sem despedida marca Dia de Finados de familiares das vítimas do coronavírus

Em ano de velórios breves e restritos por causa da pandemia, familiares que ainda convivem com o luto usam data para recordar e homenagear quem partiu

02/11/2020 - 05h00 - Atualizada em: 02/11/2020 - 14h26

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Clarissa
Por Clarissa Battistella
Em Blumenau, fotógrafo do Santa flagrou o enterro de uma vítima de coronavírus durante a pandemia
Em Blumenau, fotógrafo do Santa flagrou o enterro de uma vítima de coronavírus durante a pandemia
(Foto: )

Quase cinco meses após perder a esposa por complicações causadas pelo coronavírus, um morador de Itajaí, no Vale, ainda não conseguiu ter uma ocasião com amigos e familiares para homenagear a mulher com quem viveu 27 anos de sua vida. Neste dia de Finados (2), o primeiro de Adriano Alexandre Pereira, 50 anos, sem a esposa, o momento vai continuar sendo de isolamento.

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A decisão de aguardar mais um tempo pela despedida, ainda sem data prevista, atende ao desejo que Rosane Magali Pereira, 46 anos, expressava, em vida, sobre os cuidados durante a pandemia. Ela teve um aneurisma em 27 de maio, três dias após começar a sentir fortes dores de cabeça, e foi diagnosticada com covid-19 durante a internação hospitalar. Em apenas 10 dias, ela faleceu, tornando-se uma dos 3.122 catarinenses que perderam a vida por conta da doença, conforme dados atualizados pelo Estado neste domingo (1º).

- Infelizmente no dia do falecimento os protocolos impediam o velório. A última vez que a vi, estava entubada. Agora está numa urna aqui em casa esperando a situação (da pandemia) melhorar, para chamar nossos amigos e parentes, para podermos nos despedir dela - comenta o marido.

Pereira conta que a mulher era muito cuidadosa em relação ao vírus e, ao lado do marido, buscou se informar sobre todos os riscos e cuidados, evitando aglomerações e saídas desnecessárias:

Rosane Magali Pereira é uma entre as mais de 3 mil vítimas do coronavírus em SC
Rosane Magali Pereira é uma entre as mais de 3 mil vítimas do coronavírus em SC
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- Eu que faço o mercado. Só fazia compras uma vez na semana, sozinho. Ela só saiu duas vezes de casa desde o começo da pandemia: demos duas volta de carro pela região sem desembarcarmos. O problema era o trabalho, do qual praticamente não tivemos condição de nos ausentar.

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O marido também entende que o vírus influenciou decisivamente sobre o aneurisma de Magali, já que o rompimento do vaso sanguíneo dependia de fatores externos.

- A covid é uma doença hematológica, o que aumenta a pressão arterial. Ela sempre teve pressão baixa e nos dias próximos (ao aneurisma) ela me relatou aumento da pressão - lembra, com pesar.

E enquanto espera por uma vacina contra o coronavírus, para finalmente encontrar as pessoas próximas, abraçá-las sem insegurança e realizar uma cerimônia de despedida, Pereira sente como se a vida estivesse “em suspensão” e teme que as circunstâncias apaguem as memórias deixadas pela esposa:

- Eu fico muito triste quando parece que Magali ficou esquecida pelas circunstâncias. Era um ser maravilhoso que deixou marcas em quem a conheceu. Tá sendo muito difícil.

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“É algo que não se imagina, ter que se despedir de uma forma tão cruel”

Assim como a família de Magali, muitas outras entre as mais de 3 mil vítimas do coronavírus em SC, não conseguiram se despedir de seus entes ou tiveram uma rápida e restrita cerimônia de despedida nos últimos oito meses, por consequência da pandemia e dos protocolos de segurança estabelecidos para o período de enfrentamento da covid-19. É o caso de uma família de Tubarão, no Sul de SC, que sofreu uma perda recente, também por complicações do coronavírus, e vive o luto há duas semanas.

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A despedida do familiar, depois de 50 dias entre internação, transferência, entubação e óbito, não durou mais do que duas horas. Com o caixão fechado, limite no número de pessoas e sem o conforto que um abraço proporciona em horas de dor, a família, que preferiu não se identificar, viveu um momento nunca imaginado antes.

- É muito triste. Terrível ver as pessoas acharem que vão ser contaminadas (pela vítima). É algo que não se imagina. Não se imagina que tu tenha que se despedir de uma forma tão cruel. Não poder abraçar. É frio - diz uma das filhas, que pegou as cinzas do pai na última sexta-feira (30), três dias antes do Finados.

O pai da entrevistada, com 63 anos, deu entrada no hospital do município para um procedimento considerado simples: colocaria um catéter, preventivamente, e voltaria para casa. Já internado, precisou de uma cirurgia cardíaca, que não foi o suficiente para abatê-lo, segundo a filha. Se recuperava bem, ao mesmo tempo em que dividia o quarto com outros cinco hospitalizados e seus respectivos acompanhantes, quando começou a ter tosses frequentes.

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O quadro piorou e precisou ser transferido para o hospital de Criciúma, imediatamente, segundo alegaram aos familiares, por falta de leitos de UTI. E mesmo em um hospital referência para tratamento da covid-19, com todo o suporte necessário, o familiar não resistiu.

- Foi algo muito injusto, levei ele andando para o hospital e trouxe o corpo dele. A gente acha que não vai acontecer conosco e acontece - conclui.

“A ausência dele é bem sentida, porque ele era muito presente”

João Carlos da Silva é uma das vítimas de coronavírus em Joinville
João Carlos da Silva é uma das vítimas de coronavírus em Joinville
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Todo filho quer ouvir uma opinião dos pais antes de tomar uma decisão importante. Especialmente quando as palavras que encontra ao longo da vida são de incentivo e ditas com amor. Eram essas palavras que Jean Patrick da Silva sempre ouvia do pai, João Carlos da Silva, 57 anos, quando o procurava. São essas palavras, também, que deixaram de ser ditas em julho deste ano, quando Silva teve a vida encurtada pelo coronavírus.

- Sinto mais falta é de ouvir ele dizer que vai dar tudo certo - lamenta.

Torcedor do Caxias de Joinville e do Fluminense, fanático por futebol e amante de música, Silva perdeu a vida em 17 de julho. Na época, foi cremado, seguindo a determinação sanitária, mas sem cerimônia.

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- Ele seria cremado de qualquer forma, porque era um desejo dele, mas ninguém se reuniu, não houve velório. Eu e minha irmã fomos um dia na casa da minha avó, onde meu pai cresceu, e jogamos as cinzas do meu pai lá. Foi um momento muito emotivo - lembra.

Muito por conta da despedida particular, mas satisfatória, nesse Finados a família não deve se reunir, mas sim lembrar da saudade e do legado de amor e de empatia deixados pelo pai:

- Era um homem muito bom, um cara muito inteligente, que lia muito e estava sempre atento a novas leituras. Mente aberta, disposto sempre a aprender algo novo e que me ensinou muitas coisas, a mais importante, respeitar e se colocar no lugar das outras pessoas, se solidarizar com quem não tinha as mesmas oportunidades.

Número de mortos por coronavírus em cidades de SC

Itajaí - 177 Tubarão - 96 Joinville - 363 Florianópolis - 164 Blumenau - 159 Chapecó - 78 Criciúma - 111

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