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Jovens catarinenses falam das dificuldades e adaptações do cotidiano na pandemia

Lado emocional dificultou o processo. Jovens realizam cursos extracurriculares para dar conta do que perderam após um ano longe das salas de aula

06/06/2021 - 07h00

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Carolina
Por Carolina Fernandes
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Empreendedorismo e troca de emprego foram alternativas destacadas pelos jovens como alternativas para enfrentar os reflexos da pandemia
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No começo da pandemia a grande expectativa era de que internet pudesse dar continuidade aos estudos dos alunos. Mas a pesquisa “juventudes e a pandemia do coronavírus”, promovida pelo Conselho Nacional de Juventude (Conjuve) com 18 jovens de diferentes cidades brasileiras, mostrou que para quem tinha acesso o lado emocional atrapalhou 49% dos entrevistados. Para os jovens catarinenses entrevistados pela reportagem nada substitui a aulas presenciais e as perdas educacionais causadas pela pandemia serão suavizadas no futuro com cursos focados nos conteúdos perdidos. 

– A carga ficou muito pesada, porque você não consegue limitar o tempo. Nas primais semanas me enrolei e atrasei várias coisas – conta a estudante da segunda fase do curso História de Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Marina Silva.

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Para lidar com o isolamento imposto pela pandemia e um novo ritmo de estudos, a jovem que mora em Florianópolis e tem 20 anos, teve que se reinventar. Ela começou a pintar, meditar e devorar os livros. Só em 2020 ela leu 78. 

– É um momento de autoconhecimento que todo mundo precisa ter em algum momento da vida e para nós “calhou” de ser agora – afirma.

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Para o Derick Dutra do Amaral, 17 anos, a chegada da pandemia “apagou” um pedaço do ano que ele estava focado nos estudos. 

– Entrei no primeiro ano do ensino médio para poder focar, para ir para o vestibular e poder passar de primeira. Mas daí chegou pandemia, não teve como controlar e acabou mudando tudo. Aprender no EAD tem sido muito mais custoso. Tenho que me esforçar o dobro para aprender. Já estou fazendo cursinho para tentar suprir essa falta e estou com uma rotina bem puxada agora – conta Amaral.

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Derick Dutra do Amaral, 17 anos, diz que tem dificuldades em lidar com o ensino a distância: “Tenho que me esforçar o dobro para aprender”
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Para o Marco Antônio Marcon, 24 anos, estudante do último ano do curso de História na UFSC a noção de produtividade acadêmica também foi duramente afetada pela pandemia. Ele pretendia terminar a graduação no final do ano passado, mas teve que pedir mais prazos para o orientador e readequar a proposta de pesquisa. 

– Tenho vários relatos de amigos que têm um momento de intensa produtividade, mas também grandes momentos que a gente dispersa muito. Perde a condição de acompanhar o ensino superior, eu que tive condições já tive que atrasar um pouco. Imagina para a maior parte das pessoas em que a dificuldade é muito maior – afirma Marcon. 

Para especialistas a evasão escolar de jovens nas escolas, cursos técnicos e universidades é visto com grande preocupação. Segundo Organização Internacional do Trabalho (OIT), a pandemia causa um triplo choque na população jovem, pois são eles que sofrem com a destruição de empregos, impactos na educação e obstáculos para quem procura emprego ou quer mudar de profissão. 

Felipe dos Santos é presidente do Conselho de Entidades de Base Professora Elenira Oliveira Vilela do Instituto Federal de Santa Catarina (IFSC), ele vem acompanhando os esforços dos estudantes para se manter nos cursos. 

– Os meus amigos do campus Criciúma, no Sul do Estado, estão vendendo coisa no sinal para ajudar a família e tiveram que abandonar os estudos. Estudantes de Caçador, na mesma região, que não tem nem energia elétrica (para realizar os estudos) – diz Santos.

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Conforme o estudo da Conjuve, as dificuldades para estudar são tantas que três a cada 10 jovens confessam que já pensaram em não retornar as aulas quando a pandemia passar. Para Iuri Novaes Luna, professor de psicologia da UFSC e coordenador do “Laboratório de profissão, carreiras e projetos de vida”, a pandemia pode impactar significativamente na população de jovens nem-nem, ou seja, nem trabalha e nem estuda. 

– É uma das situações mais tristes. Ela está na categoria de desalento porque já perdeu a esperança de conseguir emprego. Se essa população já era bastante expressiva entre os jovens, com a pandemia se intensificou bastante – pontua o professor.

Momento é de investimento pessoal e autoconhecimento

Para muitos jovens a pandemia levou, além de um considerável número de perdas humanas, uma parte do processo formativo que não volta mais. Alguns agora tentam correr atrás do prejuízo causado pela pandemia. Nayara Prim, 23 anos, é estudante de Direito e pretende fazer um cursinho, presencial, para recuperar algumas disciplinas assim que se formar. 

– A minha rotina mudou bastante principalmente na questão dos estudos, a gente tá desde de março (de 2020) no on-line, a questão da qualidade mudou bastante. Nós estudantes tivemos que ter uma disciplina muito maior por ser on-line. Eu me sinto frustrada por ter que fazer esse curso após a graduação. Sinto que (esse último ano) foi um tempo perdido – desabafa Nayara.

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Mesmo com as dificuldades estruturais e emocionais envolvidas, especialistas apontam que o momento é de investimento pessoal. Com a prática de cursos e aulas on-line. 

– Os jovens que estão neste momento muito angustiados e preocupados com o seu futuro, acho que o principal neste momento é tomar as medidas de segurança e ter a confiança e esperança. Estamos passando por uma fase difícil, mas que isso vai passar e que eles têm muita vida pela frente e muito tempo para construir sua vida e carreira. Por enquanto, o jeito é utilizar as ferramentas que tecnológicas que a gente tem para nos auxiliar neste processo – avalia Novaes Luna.

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Para a psicóloga Fernanda Quadros, a promoção no autoconhecimento pode gerar bons frutos: 

– Invista no autoconhecimento. Para que nos momentos de desânimo (durante os estudos) você possa entender de onde este sentimento está vindo. Isso pode ajudar muito a ingressar no mercado de trabalho, na carreira e na vida pessoal – conclui.

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Sem poder encontrar os amigos e mais perto das famílias, os jovens passaram a descobrir novos hábitos e preocupações. Segundo a pesquisa “juventudes e a pandemia do coronavírus”, realizada pelo Conselho Nacional de Juventude (Conjuve) com 18 jovens de diferentes cidades brasileiras, a preocupação de perder um familiar aumentou 75%. A preocupação de se infectar ou infectar outras pessoas com a Covid-19 também correspondeu a mais de 40% do receio de alguns jovens durante a pandemia.

Marina Silva, 20 anos, mora com os pais e desde que a pandemia chegou resolveu se isolar em casa. Ela encontrou presencialmente, desde março, apenas dois amigos. A preocupação vem de dentro de casa. O pai da jovem tem diabetes, um dos grupos de risco para a Covid-19. Ela conta que se sente decepcionada ao ver aglomerações com jovens durante a pandemia. 

– Quando a gente é jovem a gente quer muito se sentir responsável. Mas acho que isso só mostra o quanto a gente está imaturo e não consegue ter um pingo de responsabilidade de poder ficar em casa. Preservando a tua integridade física e a do próximo. Fico muito chateada e decepcionada, mas não posso tomar a dor dos outros, tenho que fazer por mim. Pena, se eles não podem fazer isso vou fazer a minha parte que sei que é o correto que tenho que fazer – diz a garota.

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A enfermeira que atua na linha de frente de um hospital particular de Florianópolis, Anizelle Aline Lopes da Silva, 26 anos, conta que os dias têm piorado desde o início da pandemia e que houve uma mudança no perfil dos atendimentos.

– É muito difícil trabalhar com pessoas doentes, principalmente agora, que esse vírus acomete tão rápido os pacientes. E a gente vem recebendo muitos pacientes jovens, muitos pacientes já precisando de intubação no pronto atendimento antes de serem levados para a UTI. O que é a mais difícil é ver essa relação entre juventude. Tantos jovens sendo levados ao hospital graves e mesmo assim a mídia mostrar que o isolamento social não vem sendo levado a sério, que é pelo número maior de jovens – conta Anizelle.

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Para o psicólogo Jamir Sardá atitudes de desrespeito às normas sanitárias impostas pela pandemia por parte dos jovens acontecem pela pouca percepção de risco que a doença pode causar nesta população.

– Existe a percepção do risco, o jovem se percebe menos vulnerável ao vírus, e, portanto, existe a maior exposição. E a família, passa mesma mensagem para o jovem ou ela se isola? – questiona o psicólogo.

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Mesmo que a idade possa funcionar conferindo certa proteção ao jovem, o médico Fábio Gaudenzi de Faria afirma que a Covid-19 é uma doença que proporciona reações exacerbadas do organismo e o quadro pode piorar em diversas faixas etárias:

– A gente precisa lembrar disso, que o jovem tem comorbidades e mesmo neste contexto o jovem precisa entender que pode sim ficar grave. Embora a proporção seja menor do que ocorre com idosos, por exemplo, mas ele precisa se cuidar e cuidar do próximo – afirma.

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Marina conta que durante os dias de isolamento vem buscando o próprio equilíbrio. Ela aprendeu a pintar e diz que a convivência com os pais melhorou muito. 

– Passei o meu aniversário com a minha prima, e fiquei devastada porque agora vou fazer os 21 sem ter vivido os 20. Fiquei doidinha, cortei meu cabelo, descolori meu cabelo... Mas foi depois desse momento que tive um desequilíbrio que consegui me recontar comigo mesma – relembra a jovem.

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Arielly tem feito exercício e investido na internet para se distrair
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Já Arielly, de 17 anos, tem feito exercício e investido na internet para se distrair. O contato com a irmã mais nova também aumentou durante o isolamento: 

– Os dias iam passando e acontecia a mesma coisa. Eu acordava comia e dormia. Para não ficar repetitivo eu fazia exercícios, comecei a fazer vídeos para a internet e a brincar muito com a minha irmã. Assim, fui me distraindo – conta ela.

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A expectativa da chegada da vacina para os jovens ouvidos pela reportagem é grande, porém distante. Enquanto alguns apostam que a imunização ocorrerá ainda este ano, outros só fazem planos para 2022: 

– O que eu quero fazer depois que a vacina vier é viver! Viver, estudar presencialmente, sair com os meus amigos, ir para o cinema, para o shopping, fazer tudo o que não posso fazer agora – conclui Arielly.

Reinvenção: como lidar com a vida profissional

Segundo a Organização Internacional do Trabalho (OI), a pandemia vem causando um triplo impacto na vida dos jovens. Além das perdas educacionais, essa população terá que lidar também com a destruição das oportunidades de empregos e enfrentar obstáculos para conseguir uma vaga ou até mudar de profissão. Até 2019, de acordo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), o desemprego era predominante entre os brasileiros de 15 a 29 anos, eram 47,2 milhões de pessoas desocupadas.

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Com a pandemia, essa situação tende a se agravar. O professor de psicologia da UFSC e coordenador do “Laboratório de profissão, carreiras e projetos de vida”, Iuri Novaes Luna, avalia que o número de jovens desempregados deve aumentar: 

– Se a gente for pegar os jovens de 18 a 24 anos o impacto do desemprego nestes jovens é quase o dobro da média dos trabalhadores ocupados de uma maneira geral. O jovem por não ter experiência ainda, por não estarem inseridos no mercado de trabalho eles sofrem um impacto muito grande nesta situação de crise – afirma Novaes Luna. 

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Sem poder atuar como DJ, Ronas passou a se dedicar a outro ofício, o de designer
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Ronas de Oliveira Ribeiro, 30 anos, mora em Joinville, no Norte do Estado e teve que se adaptar. Ele era DJ e quase 80% da renda vinha das festas que tocava e organizava.

– Aí comecei a procurar outras opções. Tenho uma segunda profissão que é designer. E essa sempre foi a minha segunda opção e tenho trabalhado como motorista de aplicativo paralelo a isto. Foram as minhas principais saídas desde que tive que parar com a minha principal profissão – conta ele.

> O desafio de se reinventar na pandemia

Derick Amaral, 17 anos, morador de Florianópolis, foi dispensado da empresa onde atuava como jovem aprendiz assim que a pandemia chegou. Depois de muita conversa com a mãe, em outubro do ano passado ele resolveu buscar uma nova colocação e conseguiu ser contratado. Hoje, atua de home office como auxiliar administrativo.

Apesar das muitas vagas fechadas por empresas e indústrias catarinenses durante a pandemia, o presidente do Centro de Integração Empresa-Escola (Ciee), Luiz Carlos Floriani, afirma que 2021 pode trazer boas oportunidades para quem está em busca de estágios. Segundo ele, cada vez mais vagas devem ser abertas a partir de agora para a realização de um movimento de retomada econômica das empresas. 

– Estamos vivendo uma oportunidade que não aconteceu nos últimos anos, do jovem mostrar o potencial, buscando se qualificar e utilizando os estágios para mostrar toda a energia e toda a força. Aproveitando esse momento para se consolidar dentro das unidades de trabalho – avalia Luiz Carlos. 

A força do empreendedorismo

Se para Ronas e Derick o jeito foi investir em planos adicionais, para Jéssica Guasseli, 29 anos, de Maravilha, no Oeste do Estado, e Bruna Letícia Duarte, 22 anos de Palhoça, na Grande Florianópolis, a maneira encontrada para dar conta das contas foi empreender. As duas decidiram abrir o próprio negócio no meio da pandemia. Jéssica que atua no ramo da contabilidade já tinha planos de montar a própria empresa antes da pandemia chegar. Em 2020, ela já havia planejado deixar o emprego com carteira assinada para concretizar o sonho de empreender. Então, veio a Covid-19:

– No primeiro momento me senti perdida. Senti ainda mais insegurança e medo de empreender, de não dar certo. Mas procurei ajuda psicológica e me adaptei ao cenário. Fiz um planejamento, tracei os objetivos, deixei tudo isso claro para mim e até hoje é o que me motiva... isso que fez diferença para mim naquele momento – conta Jéssica. 

Em setembro do ano passado ela constitui o CNPJ e agora luta para conquistar espaço no mercado. Ela já tem clientes, que como ela, são jovem empreendedores. 

– Me sinto realizada, mesmo diante de todo esse cenário – conclui.

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Bruna foi demitida da agência onde trabalhava e criou o próprio negócio na pandemia
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A publicitária Bruna foi demitida da agência que trabalhava assim que a pandemia chegou a Santa Catarina. Com renda mensal de apenas R$ 100 por mês e vivendo com os pais, a situação incomodou a jovem. Com a experiência adquirida com trabalhos durante a faculdade, ela resolveu empreender. Em agosto formalizou o negócio.

– Atuo como uma agência de publicidade focada em gerenciamento de redes sociais para pequenas marcas. Desde então, trabalho 100% em home office, de um escritório dentro do meu quarto. É um desafio diário de determinação, organização e foco, mas é recompensador – conclui.

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Para Bruno Saldivia, presidente do Conselho Estadual de Jovens Empreendedores de Santa Catarina (Cejesc), a proatividade do jovem catarinense para empreender foi aguçada com a pandemia. 

– A gente viu um movimento bastante interessante de intraempreendedores empreendendo e alguns jovem e famílias que acabaram perdendo o emprego encontrando no empreendedorismo uma solução e uma alternativa bem importante – conta. 

Para a psicóloga Fernanda Quadros, as experiências enfrentadas pelos jovens no mercado de trabalho tornarão esse profissional mais flexível e interativo.

– Vejo que essa juventude nesta faixa etária vai começar a importância de trabalhar em equipe e de como é importante a interação com as outras pessoas ou mesmo tempo que se for necessário para ela trabalhar de uma forma híbrida ela não terá dificuldade – conclui a psicóloga.

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