Andreia, Karla, Nayara. Nenhuma delas prestou prova no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) em 5 de novembro, mas estiveram presentes como protagonistas do tema da redação: “Desafios para o enfrentamento da invisibilidade do trabalho de cuidado realizado pela mulher no Brasil”. Enquanto os candidatos escreviam sobre dupla jornada, desvalorização do trabalho de cuidado, impacto da participação feminina no mercado e equidade de gênero, Andreia, Karla e Nayara continuavam com seus trabalhos domésticos. Lavavam louça e roupas, faxinavam, preparavam comida. Também exerciam o cuidado, garantindo o bem-estar dos filhos ainda pequenos ou idosos adoecidos.

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Trabalho que, mesmo exigindo tempo e esforço, não costuma ser remunerado, o que leva a busca por alternativas de renda e sobrecarrega. Atividades invisíveis aos olhos, mas essencial para a vida.

– Nós trabalhamos muito: serviço fora, cuidamos da casa e da família e ainda buscamos alternativas para aumentar a renda, como o brechó que recém abri – conta Andreia Granella, 40 anos, mãe de uma adolescente de 15 e um menino com 10 anos.

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Além de temas em provas, como a do Enem, o país precisa pensar como será nos próximos anos. Dados recentes do IBGE, mostram que até 2050, cerca de 77 milhões de pessoas irão depender de cuidado, o equivalente a um terço da população entre crianças e idosos. Em 2022, as brasileiras dedicaram quase 9,6 horas a mais da semana nessas tarefas do que os homens.

“A gente não sossega nunca”

A rotina de Andreia Granella, 40 anos, é basicamente no bairro Abraão, parte continental de Florianópolis, onde mora com a família. Certo dia, entre uma faxina e outra, soube que tinha uma sala para alugar bem perto de casa e resolveu tornar real o sonho de um pequeno negócio, algo alimentado desde os tempos em que com sacolas saía vendendo roupas numa pequena cidade do Paraná. A placa do brechó é um dos atrativos entre os pequenos negócios do bairro.

A correria é grande. Antes de abrir as portas do comércio que vende roupas novas e usadas, perfumes e livros, Andreia teve que experimentar uma nova atividade: foi ela quem raspou, passou massa corrida e pintou as paredes da sala onde funcionava uma antiga barbearia.

– Decidi por algo que pudesse conciliar o trabalho em casa, o cuidado com os filhos e as faxinas. Além do que também trabalho como passadeira. Acordo bem cedinho, levo as crianças para o colégio, vou faxinar e abro o brechó na parte da tarde – explica.

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Para não atrapalhar a rotina familiar, ela prepara o jantar de olho no almoço do dia seguinte:

– Meu Deus, a gente não sossega nunca. Eu estava conversando com minha mãe que disse precisar de algo para fazer. Brinquei com ela: “Eu queria achar alguma coisa para não fazer”.

Brincadeira à parte, Andreia está otimista com as vendas e acredita que com a proximidade do Natal o movimento vai crescer. As atividades parecem bem divididas: enquanto ela lava e passa as peças usadas antes de se organizar nas araras e balcões, a filha cuida das redes sociais.

– Nossa propaganda é pelo Instagram (@brechoandreiagranella) e placa para quem passa na rua – diz.
Por enquanto, o brechó abre diariamente das 13h às 19h. Fecha na segunda-feira, quando Andreia faz faxina o dia inteiro. Aos sábados, ela conta com a ajuda da filha.

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“A rotina cansativa me levou à exaustão”

Nayara Cristina da Costa, 39 anos, trabalha como atendente de telemarketing, finaliza o curso em técnicas de enfermagem, faz artesanato (técnica de artes aplicadas), cuida da casa e educa sozinha a filha de 16 anos. Moradora em Biguaçu, na Grande Florianópolis, preocupou-se tanto com as despesas domésticas que desenvolveu quadro de ansiedade. Ano passado, precisou de ajuda médica.

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– A rotina cansativa me levou à exaustão. Eu achava que não daria conta de pagar as prestações da casa, manter despesas minhas e da filha. Hoje, sinto-me bem melhor, aprendi a cuidar da minha saúde física e emocional – conta ela.

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Nayara reconhece que sempre pode contar com a família e que a empresa onde trabalha oferece suporte psicológico.

– Não é fácil ser mãe, assim como não é fácil criar uma adolescente sozinha, pois exige muita a nossa presença. Sorte ter uma filha companheira e que me estimula a não parar de estudar, a manter meu trabalho e as coisas que me fazem bem.

A respeito da sobrecarga de trabalho, ela acredita que mesmo formada não vai mudar:

– A questão é que aprendi a viver o hoje e não me preocupo mais tanto com o amanhã – diz.

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Pandemia aumentou carga de trabalho invisível

Uma pesquisa da Sempreviva Organização Feminista mostrou que 50% das mulheres do país passaram a cuidar de alguém na pandemia do coronavírus (março de 2020 a maio de 2023) e 72% afirmam ter sido necessário ampliar o monitoramento e a companhia de pessoas. Foi o caso de Karla Irinéa Silva, 45 anos, moradora no bairro Prado, em Biguaçu, na Grande Florianópolis.

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Mãe solo de três filhos com 28, 18 e 13 e avó de duas crianças, ela teve a vida impactada a partir do surgimento da Covid. A primeira urgência foi levar a mãe, doente, para morar com ela, redobrando a rotina das atividades. Mas foi a morte da matriarca por Covid que lhe deu um baque difícil de enfrentar. Precisou de tratamento para enfrentar a depressão. Além do cuidado com a família, trabalha como cuidadora de idoso e faz doces e bolos de pote.

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Além do cuidado com a família, Karla trabalha como cuidadora e faz doces (Foto: Patrick Rodrigues)

Karla se reconhece em uma demanda puxada. Como mora em Biguaçu, precisa usar ônibus para chegar ao Saco dos Limões, em Florianópolis. Além dos cuidados domésticos com o senhor que sofre com um transtorno mental, tem que cuidar da casa e dos filhos adolescentes. Recentemente, o mais jovem recebeu o diagnóstico de Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH), um distúrbio neurobiológico crônico que se caracteriza pela desatenção, impulsividade e agitação motora. O TDAH afeta principalmente crianças – cerca de 3% a 5% –, acometendo mais os garotos.

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Com tanta coisa para fazer, falta-lhe tempo para oferecer os doces e bolos que faz em casa:

– Aproveito as idas e vindas na igreja (ela é evangélica) e a ajuda de familiares para vender. Tenho sobrinhas professoras e elas me ajudam a oferecer para as colegas de escola – explica.

Quando a pergunta é sobre o descanso, a resposta fica difícil:

– É bem complicado.

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