Negação de golpe, desculpas e piada com Moraes: o que disse Bolsonaro em interrogatório no STF

Ex-presidente justificou suas ações como dentro da legalidade

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Bolsonaro respondeu a perguntas sobre minuta do golpe em depoimento ao STF (Foto; Fellipe Sampaio, STF)

Jair Bolsonaro foi interrogado no STF nesta terça-feira (10); ele é apontado pela PGR como o líder da trama que pretendia impedir a posse de Lula (Foto; Fellipe Sampaio, STF)

Em interrogatório ao Supremo Tribunal Federal (STF) nesta terça-feira (10), Jair Bolsonaro negou qualquer tentativa de golpe, pediu desculpas por acusações contra ministros do Supremo e justificou suas ações como dentro da legalidade. O ex-presidente é apontado pela Procuradoria-Geral da República (PGR) como o líder da trama que pretendia impedir a posse de Lula.

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Negação de golpe e defesa da “minuta constitucional”

Bolsonaro afirmou que nunca houve intenção de golpe, classificando a discussão sobre a minuta encontrada como “dentro da Constituição”. Disse que o documento foi exibido brevemente em uma reunião e descartado.

O ex-presidente reconheceu que houve encontros com integrantes das Forças Armadas após o resultado da eleição, mas alegou que não tratavam de golpe, e sim de hipóteses dentro das regras do jogo democrático.

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— As conversas eram bastante informais. Não era nada proposto aqui, vamos decidir. Era conversa informal para ver se existia alguma hipótese de um dispositivo constitucional para a gente atingir o objetivo que não foi atingido no TSE. Isso foi descartado na segunda reunião. (…) Tratamos de GLO, dos caminhoneiros em Belém, sobre o que poderia acontecer com a multidão em frente aos quartéis. Falou-se em possibilidades dentro da Constituição, jamais saindo das 4 linhas — afirmou.

Segundo Bolsonaro, a minuta foi passada na tela “de forma bastante rápida” durante uma reunião com o ministro da defesa e o comandante das Forças Armadas. O ex-presidente disse que “o sentimento era de que não havia mais nada a fazer” em relação às eleições.

— Tivemos que entubar o resultado das eleições — afirmou.

O ex-presidente negou ter tido qualquer intenção de dar um golpe de Estado no país, e afirmou que uma atitude nesse sentido é “abominável”.

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— Só tenho uma coisa a afirmar a Vossa Excelência. Da minha parte, ou da parte dos comandantes militares, nunca se falou em golpe. Golpe é uma coisa abominável. O golpe até seria fácil de começar, o after day [dia seguinte] é que seria imprevisível e danoso para todo mundo. O Brasil não poderia passar por uma experiência dessas — frisou.

Protestos e 8 de janeiro

O ex-presidente disse também que não convocou “ninguém para fazer protestos” após perder as eleições de 2022, e que acabou ficando “recluso”.

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— No meu governo, nenhum ato atentatório à democracia se fez presente — afirmou.

Além disso, Bolsonaro disse que “não procede que eu colaborei com o 8 de janeiro”, em referência ao atos de 8 de janeiro de 2023 nos prédios dos Três Poderes, em Brasília, e citou discursos pós-eleição para negar golpe.

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— Sempre tem malucos com ideias de AI-5, intervenção militar. As Forças Armadas jamais embarcariam nessa — disse.

Segundo o ex-presidente, quem fazia a ponte com os manifestantes era o general Braga Netto.

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— Braga Netto fazia esse elo com os acampamentos. Ele me atualizava, falava que estava tudo tranquilo. Eu ouvia e não falava nada.

Pedido de desculpas a Moraes

No início do depoimento, o ministro Alexandre de Moraes questionou Bolsonaro sobre declarações em que ele insinuou que ministros do STF receberam “milhões de dólares em propina”. O ex-presidente admitiu que “não tem indício nenhum” para sustentar a acusação e pediu desculpas a Moraes.

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— Não tem indício nenhum, senhor ministro. Tanto é que era uma reunião para não ser gravada, um desabafo, uma retórica que usei. Se fossem outros três ocupantes eu teria falado a mesma coisa. Então, me desculpe, não tinha essa intenção de acusar de qualquer desvio de conduta dos senhores três — afirmou o ex-presidente.

O ex-presidente também manteve no depoimento as críticas às urnas eletrônicas, citando ocasiões em que adversários políticos como o atual ministro do STF, Flávio Dino, também teriam questionado o voto eletrônico. Os ataques ao sistema eleitoral foram o motivo que fizeram o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) decretar a inelegibilidade do ex-presidente por oito anos, após acusações sem provas sobre as urnas feitas em reunião com embaixadores estrangeiros, em 2022.

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Bolsonaro convida Moraes para ser vice

Em um momento descontraído, Bolsonaro convidou Alexandre de Moraes para ser seu vice em uma eventual candidatura em 2026. A declaração gerou risos na plateia.

O pedido ocorreu quando Bolsonaro perguntou se podia faezr uma brincadeira, e disse:

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— Eu gostaria de convidá-lo para ser meu vice em 2026.

Imediatamente, Moraes voltou ao microfone:

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— Eu declino novamente – afirmou, sendo sucedido por novas risadas do público.

Quem são os réus

Veja a ordem do interrogatório

  • Mauro Cid, delator e ex-ajudante de ordens da Presidência;
  • Alexandre Ramagem, deputado federal e ex-diretor da Agência Brasileira de Inteligência (Abin);
  • Almir Garnier Santos, ex-comandante da Marinha;
  • Anderson Torres, ex-ministro da Justiça e ex-secretário de Segurança do Distrito Federal;
  • General Augusto Heleno, ex-ministro do Gabinete de Segurança Institucional;
  • Jair Bolsonaro, ex-presidente da Reública;
  • Paulo Sérgio Nogueira, ex-ministro da Defesa;
  • Walter Souza Braga Neto, ex-ministro da Casa Civil.

Os réus vêm sendo ouvidos presencialmente na Primeira Turma do STF, pelo ministro Alexandre de Moraes, relator da investigação. Braga Netto é o único que participará por videoconferência, por estar no Rio de Janeiro. As falas são transmitidas ao vivo pela TV Justiça e pelo canal do YouTube do STF.

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O interrogatório dos réus marca a reta final da fase de instrução do processo penal. Na sequência, acusação e defesa podem ter prazo para pedir diligências adicionais. Encerrada esta etapa, deve ser aberto o prazo de 15 dias para alegações.

O que pesa contra os réus

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Segundo a Procuradoria-Geral da República (PGR), Bolsonaro comandou o “núcleo crucial” da organização que agiu para romper a democracia. Ele é acusado de disseminar ataques ao sistema eleitoral, pressionar militares a apoiarem o golpe e editar um decreto para intervir no TSE. Há ainda indícios de que ele sabia do plano “Punhal Verde Amarelo”, que previa o assassinato de autoridades.

Os outros sete réus são acusados de auxiliar na conspiração. Entre as condutas, estão fraudes eleitorais, bloqueios de estradas para prejudicar eleitores e elaboração de documentos golpistas. Os crimes atribuídos ao grupo incluem tentativa de golpe, organização criminosa e dano ao patrimônio público.

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