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Racismo

Violência, jogos e relações virtuais: o que já se sabe sobre o autor das ameaças à vereadora em Joinville

Ataque racista foi postado em comentários nas redes sociais logo após as eleições municipais

22/11/2020 - 15h46 - Atualizada em: 22/11/2020 - 18h19

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Cláudia
Por Cláudia Morriesen
foto mostra a delegada claudia de máscara dando entrevista
Delegada Claudia foi responsável pela investigação em conjunto com o departamento de inteligência da Polícia Civil
(Foto: )

O homem de 22 anos que é o principal suspeito de ser o autor das ameaças de morte e ofensas racistas à vereadora eleita em Joinville Ana Lúcia Martins tem um passado de agressividade, costuma postar comentários preconceituosos nas redes sociais, contruiu sua base de relacionamentos pela internet e passa boa parte de seu tempo nesse "mundinho" virtual, entre em jogos online e interações nas redes.

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Os primeiros traços do perfil dele foram divulgados pela delegada Cláudia Cristina Gonzaga, titular da Delegacia de Proteção à Criança, ao Adolescente, à Mulher e ao Idoso (Dpcami) de Joinville, em coletiva à imprensa na tarde deste domingo (22).

O jovem foi localizado nesta manhã, quando foi cumprido o mandado de busca e apreensão na casa dele, no bairro Paranaguamirim, na zona Sul de Joinville. A Polícia Civil estava investigando o caso desde que a denúncia foi feita pela vereadora e ganhou atenção nacionalmente, por meio de portais de notícia e telejornais, na última quarta-feira. 

Com a ajuda do serviço de inteligência da Polícia Civil, os policiais foram filtrando os perfis que fazem postagens de teor racista e neonazista. Ele foi investigado pelo jeito de escrever, pelo formato semelhante dos conteúdos e, no fim, até pela foto do perfil, que era a mesma que ele usava em outras redes sociais. 

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O homem estava em casa com a mãe quando a polícia chegou ao local. Durante a investigação, segundo a delegada Cláudia, já era do conhecimento da polícia que o jovem recebeu laudo médico de esquizofrenia. Na casa, a mãe apresentou a documentação que comprova o diagnótico.

— Existia uma certa violência antes de ele ser diagnosticado. Ele tinha um perfil entre os colegas de certa agressividade, de sempre querer arrumar problema. Há dois boletins de ocorrência [registrados contra ele], mas não têm relação com racismo ou nazismo — afirmou a delegada.

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O rapaz é de uma família que tem antepassados de origem alemã. Na casa, piadas de cunho racista parecem comuns, segundo a polícia observou durante os depoimentos. Ele foi a uma escola onde havia um grupo de alunos que também tinham essas práticas, além de exaltar o neonazismo. A partir desse contato, começou se relacionar com outras pessoas que defendem discursos de ódio pela internet. 

— É uma pessoa que gosta muito de jogos, pelo que a gente encontrou, que está sempre nesse mundinho muito virtual, e as relações dele se construíram virtualmente. Isso (o tempo passado com jogos online) incomodava a família — destacou a delegada Claudia.

Investigações continuam em busca de grupos neonazistas

As investigações sobre o caso continuam para buscar se há outros envolvidos. A delegada suspeita que o jovem possa ter sido instigado a fazer o comentário em que sugere que a vereadora eleita será assassinada.

— As investigações tem que continuar pra ver se tem um grupo por trás disso, e entender quem, eventualmente, é o mandante do crime. Mas, a priori, tudo indica que foi ele o autor destes fatos. Pode ser investigado em outra delegacia, porque a Dpcami tem uma demanda específica. Nós investigamos porque era um crime contra uma mulher, por isso se tornou uma prioridade para a gente — disse ela.

O HD e a CPU do computador do suspeito foram apreendidos, assim como o celular dele. O aparelho, no entanto, estava sem o chip e, segundo a mãe do jovem, ele teria engolido a peça na quarta-feira, quando o caso começou a ganhar atenção. A polícia ainda quer enteder se ele fez isso por conta própria ou se foi a mando de outra pessoa.

— A família disse que foi uma semana atípica, em que ele ficou muito agitado. Ele passou o dia das eleições agitado e, na quarta-feira, precisou de medicação para se acalmar — relatou a delegada.

Mesmo sem o chip, a perícia consegue obter os dados no celular do suspeito. Outras investigações sobre o caso, como a hipótese de haver células neonazistas na região, serão investigadas após definição da Delegacia Geral de Polícia Civil de Santa Catarina.

foto mostra ana lucia martins
Ana Lúcia é professora aposentada e é a primeira mulher negra eleita em Joinville
(Foto: )

Ana Lúcia Martins é a primeira mulher negra eleita na história de Joinville para compor o Legislativo. Ela sofreu uma série de ataques racistas antes mesmo de se eleger, com mais de 3,1 mil votos. Após os resultados das Eleições 2020, Ana Lúcia teve contas invadidas nas redes sociais e sofreu ameaça de morte na última quarta-feira (18).

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Nos comentários, o perfil que, em um primeiro momento, não possuía identificação clara e teve as postagens excluídas, escreveu frases como "agora só falta a gente matar ela e entrar o suplente que é branco" e "os fascistas mandaram avisar que ela que se cuide".

O caso repercutiu nacionalmente e aconteceu na semana de celebração à Consciência Negra no Brasil.

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