Reconhecida como patrimônio cultural de Santa Catarina e motor econômico para milhares de famílias, a pesca da tainha é atividade tradicional no Estado. A importância gastronômica, histórica e financeira é notada até por aqueles que nem gostam de comer o peixe. Durante a safra, entre maio e julho de todos os anos, pescadores aguardam ansiosamente a vinda dos cardumes. Em 2026, a pesca iniciou de forma extremamente positiva. A abundância no litoral catarinense fez com que o período fosse chamado de “supersafra”.
— Está sendo uma supersafra, com a pesca bem adiantada, na verdade. A venda está sendo feita na praia mesmo, para a comunidade e pequenas peixarias. Mas, quando se trata de grande quantidade, precisamos vender para a indústria, que paga um preço bem baixo, dificultando para os pescadores — relatou Laurentino Benedito Neves, subsecretário de pesca, maricultura e agricultura de Florianópolis e que comanda o Rancho Saragaço, na Barra da Lagoa.
FOTOS: Como foi a safra da tainha em 2025
O primeiro problema foi econômico. Com a chegada de grandes cardumes em um curto intervalo de tempo, a oferta de tainha aumentou rapidamente. A demanda, no entanto, não cresceu no mesmo ritmo. Sem estrutura suficiente para armazenar, processar e distribuir toda a produção, muitos pescadores ficaram dependentes da indústria para vender grandes volumes de peixe. Laurentino afirmou que, na comunidade, o valor fica de R$ 8 a R$ 10 o quilo, mas o preço para a indústria acaba sendo menor.
— A comunidade, ao pagar, entende que o pescador também precisa. A indústria não está nem aí. Eles vêm aqui e querem pagar de R$ 2 a R$ 3 o quilo. No ano passado eram maiores, os valores pagos pela indústria chegavam a R$ 10 — concluiu.
A Secretaria Executiva da Aquicultura e Pesca também reconheceu que o cenário tem gerado desafios para a absorção da produção pelo mercado. A pasta declarou manter “diálogo permanente com representantes do setor pesqueiro, colônias de pescadores e demais órgãos envolvidos, buscando apoiar os profissionais da pesca”
Ciclones extratropicais podem explicar supersafra da tainha
Por trás da boa safra, ciclones extratropicais formados na Argentina podem explicar o elevado número de tainhas pescadas. Caio Magnotti, doutor em Aquicultura e engenheiro do Laboratório de Piscicultura Marinha da Universidade Federal de Santa Catarina (Lapmar/UFSC), afirma que o fenômeno pode ter favorecido a movimentação do peixe em direção ao litoral do Estado.
— Tivemos dois ciclones extratropicais na Argentina, exatamente onde os cardumes se adensam, na região da Lagoa dos Patos e na saída do Rio da Prata. Então, provavelmente, esses ciclones podem ter empurrado de forma mais violenta e rápida esses cardumes que batem aqui em Santa Catarina — explicou o especialista.

Os ciclones mencionados apresentaram intensidade para impactar na movimentação dos peixes e também coincidiram com local e data de migração. O pesquisador considera essa uma possibilidade, mas ressalta que a movimentação das tainhas é complexa e envolve “condições climáticas, de vento, das correntes e da maturação dos peixes”.
O especialista destacou que, para que os cardumes se movimentem, a água deve estar entre 19 °C e 21 °C, temperaturas que foram observadas no litoral catarinense desde a abertura da safra.
— Passamos praticamente maio inteiro nesse intervalo de temperaturas. É a água ideal para esses peixes. Enquanto essa água não esfriar e não houver vento sul predominante por mais tempo, é possível que esses peixes fiquem mais tempo aqui na costa e tenham oportunidade de serem pescados — disse Magnotti.
Por que as tainhas nadam para SC?
A fartura de tainhas observada no litoral catarinense não é obra do acaso. Entre maio e julho, a espécie realiza sua migração reprodutiva, deslocando-se em grandes cardumes. Impulsionados pela queda da temperatura do mar, pelos ventos do quadrante sul e pelas correntes oceânicas, os peixes passam próximos à costa catarinense.

— Os mais antigos dizem que, quando temos uns três dias de vento sul, ele traz os cardumes para a costa e, quando entra o vento nordeste, esses peixes encostam na praia. Há uma série de questões, na verdade. As tainhas viajam nas margens das praias, mas a maior parte dos cardumes passa a até 60 metros de profundidade. O peixe que vemos não é tudo que passa — afirma Mignotti.
Ao serem expostos a certa quantidade de luz, os peixes passam por uma maturação, gerando uma “cascata hormonal”. Instintivamente, as mudanças hormonais impulsionam o movimento migratório das tainhas.
— Esses peixes migram no sentido Norte, sempre fugindo da água fria. Essa natação começa em locais como a Lagoa dos Patos, no Rio Grande do Sul, e vai até São Paulo praticamente — analisa o especialista.
Em quanto tempo a supersafra virou suspensão?
A pesca extremamente ativa logo nas primeiras semanas de safra de 2026 teve efeito imediato: a modalidade arrasto de praia (marcada pelos grandes lanços de rede) chegou a 90% do limite da cota e foi suspensa pelo governo federal no dia 7 de junho.

Para 2026, todos os formatos de pesca da safra tiveram aumento de 20% na cota. Com isso, o arrasto de praia chegou a um limite de 1.332 toneladas. Confira os números impostos a modalidades diferentes do arrasto de praia, a princípio:
- Captura no estuário da Lagoa dos Patos: 2.760 toneladas; pesca realizada no estuário da Lagoa dos Patos, no Rio Grande do Sul, conforme regras específicas para essa área.
- Emalhe anilhado: 1.094 toneladas; atuação restrita ao litoral de Santa Catarina; cada embarcação pode capturar até 15 toneladas, com tolerância extra de até 20%.
- Emalhe costeiro de superfície: 2.070 toneladas; pesca permitida no litoral e em águas mais afastadas (ZEE) das regiões Sudeste e Sul.
- Cerco/traineira: 720 toneladas; área de operação no litoral e em águas mais afastadas (ZEE) das regiões Sudeste e Sul do Brasil; cota é distribuída por embarcação.
Santa Catarina, contudo, é o único estado que possui cota limite na modalidade de arrasto de praia. Segundo a Secretaria de Aquicultura e Pesca, o estado catarinense é o único que tem a modalidade regulamentada no Ministério da Pesca. Embora outros estados também tenham a prática, como Paraná, Rio de Janeiro e São Paulo, eles não ficam sujeitos ao limite das cotas.
Ao contrário do sistema de cotas nos outros tipos de pesca de tainha, que começaram em 2018 visando garantir a proteção da espécie e evitar risco de extinção, a cota para o arrasto de praia foi definida pela primeira vez em 2025.
A safra de 2026, portanto, é a segunda que ocorre com cota no arrasto de praia. No ano passado, o período de captura terminou sem que o limite máximo fosse atingido, com pouco mais de 1 mil toneladas pescadas. Neste ano, no entanto, a safra foi encerrada em apenas 38 dias.

— Esse foi um questionamento que a secretaria sempre fez para o Ministério da Pesca, por que só Santa Catarina na modalidade de arrasto de praia tinha cota? Mas não tivemos resposta. Santa Catarina defende que não tenha cota para o arrasto de praia — opina o secretário-executivo de Estado de Aquicultura e Pesca, Fabiano Müller Silva.
A leitura do secretário é que na prática a cota apenas para SC acaba prejudicando os pescadores artesanais catarinenses, o que leva à luta por critério igualitário entre os estados.
— É uma modalidade que já vem há mais de 100 anos, e se mantém, independente de cota, porque a gente entende que o limite biológico dessa pesca a própria natureza faz. É necessária uma condição climática para a chegada dos cardumes que já limita naturalmente essa pesca — avalia Müller Silva.
Em 2025, mesmo com uma safra considerada abaixo das expectativas, o governo catarinense já defendia a extinção da cota para arrasto de praia. Na ocasião, foram 415 embarcações artesanais catarinenses e 1.041,94 toneladas pescadas, o que correspondeu a 83,35% da cota permitida.
Jogo nos bastidores
A suspensão de pesca mobilizou pescadores e o governo estadual para uma reversão da medida. Pescadores artesanais do Litoral Norte do Estado relataram que, por se tratar de um período inicial da safra, os cardumes ainda não haviam chegado na região. Na prática, a cota teria sido atingida sem que o peixe pudesse ser pescado de forma igualitária entre as diferentes localidades.

— São Francisco do Sul está localizada no norte de Santa Catarina, e como a safra inicia em 1º de maio, geralmente os cardumes que vêm do sul do estado chegam às praias do norte apenas meados de julho. Dessa forma, a medida causa grande prejuízo aos pescadores locais, que utilizam a pesca artesanal como fonte de renda e subsistência — relatou a Colônia de Pescadores Z-02, de São Francisco do Sul.
Em 8 de junho, um dia após comunicar o encerramento da pesca de arrasto de tainha, o Ministério da Pesca e Aquicultura (MPA) convocou uma reunião emergencial do Grupo de Trabalho da Tainha para tratar do assunto.
O encontro, realizado virtualmente em 9 de junho, teve como objetivo debater alternativas para atender a demanda dos pescadores artesanais catarinenses diante do esgotamento da cota destinada ao arrasto de praia. Após a reunião, o MPA anunciou a derrubada da suspensão da pesca.
— A pesca artesanal da tainha é tradição cultural histórica, passada de geração em geração, e precisa ser mantida, protegida e valorizada. O governo federal decidiu ampliar a cota de arrasto de praia para o Litoral Norte de Santa Catarina, que não conseguiu realizar a captura — disse o ministro da Pesca e Aquicultura, Edipo Araujo.

O entendimento de que a distribuição da safra estava desigual foi reforçado pelo pescador Nilton Agenor Gaia, de Jurerê, em Florianópolis, que atua na atividade pesqueira há 30 anos.
— O encerramento da pesca da tainha nos pegou de surpresa. Nós fizemos parte do Norte da Ilha e, em Jurerê, não pegamos peixe ainda. Não deu tainha, apareceu pouco peixe. Estamos no mesmo sofrimento do Litoral Norte. Mas, se abre para o Litoral Norte, e fecha para a nossa região fica complicado. — pondera.
Qual a nova cota da tainha em SC?
A portaria interministerial com as novas cotas da safra da tainha de 2026 para Santa Catarina foi publicada pelo governo federal na quinta-feira (11). O documento do Ministério da Pesca e Aquicultura e do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima determina um aumento de mais de 430 toneladas na cota total de pesca.
O limite para a temporada, segundo o documento, é de 8598 toneladas – anteriormente era de 8168 toneladas. Todo o aumento da cota foi repassado para a modalidade arrasto de praia: o limite foi de 1332 toneladas para 1762 toneladas.
A portaria detalha limites específicos para a operação das embarcações, dividindo o litoral catarinense em dois blocos de municípios:
- Bloco Norte: Araquari, Balneário Barra do Sul, Balneário Camboriú, Balneário Piçarras, Barra Velha, Bombinhas, Governador Celso Ramos, Itajaí, Itapema, Itapoá, Joinville, Navegantes, Penha, Porto Belo e São Francisco do Sul possuem um limite máximo de captura de 230 toneladas.
- Bloco Sul/Grande Florianópolis: Biguaçu, Florianópolis, Palhoça, Paulo Lopes, Garopaba, Imbituba, Laguna, Jaguaruna, Balneário Rincão, Araranguá, Balneário Arroio do Silva, Balneário Gaivota e Passo de Torres têm um limite de 200 toneladas.
O desembarque da produção será feito exclusivamente nos municípios listados na portaria. O painel PesqBrasil – Monitoramento disponibilizará a relação das embarcações de pesca autorizadas a desembarcar tainha
Ainda de acordo com a portaria, para o ano de 2027 serão implementadas medidas e regras de gestão “específicas para o controle e distribuição do esforço de pesca de arrasto de praia no litoral do estado de Santa Catarina”.
A polêmica trouxe um debate mais amplo sobre o modelo de gestão da tainha no Brasil. O pesquisador Caio Mignotti se posiciona favorável às cotas de pesca, mas menciona erros no cálculo do modelo vigente. Na prática, a supersafra colocou em evidência um desafio que vai além da temporada atual: conciliar a conservação ambiental com uma tradição centenária que sustenta milhares de famílias.
— Não tivemos monitoramento que indicasse se as cotas tiveram efeito. Ela foi imposta e não foi verificada. A legislação tinha como contrapartida um acompanhamento futuro, mas não foi feito — finaliza.






