Não há silêncio que nunca termine

César Seabra escreve semanalmente neste espaço

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Soldado vigia presos políticos no Estádio Nacional, no Chile (Foto: Evandro Teixeira, Reprodução)

Onze de setembro de 1973. Naquele dia o governo de Salvador Allende e a democracia chilena foram fulminados pelos militares. Assumia o poder Augusto Pinochet – o chefe do que se transformaria na mais brutal e assassina ditadura da América do Sul. Tudo com o apoio dos colegas ditadores tupiniquins, comandados por Emilio Garrastazu Médici.

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Os primeiros dias desse trágico momento político foram flagrados por um dos maiores fotógrafos do jornalismo brasileiro: Evandro Teixeira. Parte desses registros pode ser vista no Centro Cultural Banco do Brasil, no Rio de Janeiro, com as 160 fotos da mostra “Chile 1973”; e no Museu da Memória e dos Direitos Humanos em Santiago, a capital chilena, com “Fotojornalismo e Ditadura: Brasil 1964/Chile 1973”, exposição com 41 fotografias.

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“A força das imagens do Evandro Teixeira vem da sua paixão pela fotografia. Reflete uma obstinação que só se encontra no olhar dos apaixonados”, diz o também fotógrafo Ricardo Mello.

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Evandro tem 87 anos. Há mais de seis décadas trabalha incansavelmente. Em 1968 ele participou da cobertura jornalística dos movimentos estudantis contra a ditadura militar brasileira.

“No nosso país, o ano de 1968 marcou o endurecimento do regime, com o AI5. Registrei cenas de violência nas ruas do Centro do Rio, do Exercito contra as pessoas que protestavam. A gente conseguia registrar a truculência que era mostrada à luz do dia. Infelizmente, o horror maior acontecia nas prisões e centros clandestinos de tortura, longe das nossas câmeras. A Passeata dos Cem Mil foi muito emocionante, por ter representado um grande momento de resistência”, afirma Evandro a este colunista.

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Enviado ao Chile em 1973, para cobrir o golpe pelo “Jornal do Brasil”, Evandro conseguiu entrar no país apenas dez dias depois. Lá fotografou o Palácio de La Moneda bombardeado e destruído pelos militares, o tratamento violento de prisioneiros políticos no Estádio Nacional de Santiago e a morte de Pablo Neruda, no dia 23 de setembro.

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Vencedor do Prêmio Nobel de Literatura em 1971, Neruda é considerado um dos maiores poetas latino-americanos. Revelados ao mundo pelas lentes de Evandro, os cortejos funerários de Neruda são considerados os primeiros protestos populares contra o então recém-instaurado regime militar chileno.

“Em 1973, encontrei um país que começaria a mergulhar nas trevas da repressão e da tortura. Jovens divididos, uns recrutados pelo Exército e outros sendo presos e torturados. Meu flagrante com os presos maltratados no porão do Estádio Nacional foi importante para jogar por terra a farsa que Pinochet começava a armar, para dizer ao mundo que não havia tortura”, afirma Evandro direto de Santiago, aonde foi participar da abertura da exposição, que teve a presença do presidente do Chile, Gabriel Boric.

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Veja fotos registradas pelo fotógrafo Evandro Teixeira:

A ditadura brutal de Pinochet durou 17 anos. Quarenta mil pessoas foram vítimas de execuções, desaparecimentos, prisão e tortura. Mulheres foram detidas, humilhadas, espancadas e violentadas, numa prática sistemática e generalizada de Pinochet e seus capangas.

Víctor Jara, poeta, músico e ativista político, foi uma das vítimas do regime. Jara foi torturado e assassinado com 44 tiros. Numa decisão histórica, dias atrás, a Suprema Corte do país condenou sete militares aposentados a penas de oito a 25 anos de prisão, pelo sequestro e morte de Jara. Os assassinos têm entre 73 e 85 anos.

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Lancinante história sempre lembrada pelo cinema, teatro e a literatura chilena. Na peça “A Morte e a Donzela”, Ariel Dorfman conta a história de uma vítima da tortura e a transição democrática do país. Já Roberto Bolaño, no livro “Estrela Distante”, revela um pesonagem infiltrado numa oficina de poesia que cultua uma sinistra forma de arte a partir da tortura e do desaparecimento de presos. O mesmo Bolaño escreveu “Noturno do Chile”, novela na qual um padre vive sob a proteção de Pinochet, a quem dá inusitadas aulas de marxismo.

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“Meio século de esquecimento das milhares de vítimas da ditadura de Augusto Pinochet que foram violentadas, executadas e desaparecidas; esquecimento dos milhares de familiares que ainda hoje buscam verdade, justiça e reparação; esquecimento das graves violações dos direitos humanos cometidas pelas Forças Armadas e carabineros do Chile. O esquecimento só traz dor e impunidade, por isso a memória é tão importante, para encontrar paz, para construir um futuro melhor, para não repetir a história”, escreveram na “Folha de S.Paulo” Rodrigo Bustos Bottai e Jurema Werneck, diretores da Anistia Internacional no Chile e no Brasil.

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Revisionistas tentam negar a ditadura de Pinochet, assim como nazistas tentam negar o Holocausto. Cinquenta anos depois, permanecem as cicatrizes na alma, no corpo e na memória. O passado e seus fantasmas continuam presentes. As dores ainda cortam e sangram. Com suas fotografias dramáticas, comoventes e urgentes, Evandro Teixeira prova que “não há silêncio que não termine”, como escreveu Pablo Neruda em um de seus poemas.

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