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Entrevista

“Vamos fazer um pacote de virada de jogo”, afirma o prefeito de Chapecó, João Rodrigues

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Ânderson
Por Ânderson Silva
04/04/2021 - 07h00
João Rodrigues, prefeito de Chapecó
João Rodrigues, prefeito de Chapecó (Foto: Divulgação)

Chapecó viveu no início de 2021 uma das situações mais difíceis por conta do agravamento da pandemia em Santa Catarina. Com restrições e ações na área da saúde, o município diminuiu os casos ativos e aos poucos reduz também internações em leitos de UTI.

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O prefeito da maior cidade do Oeste, João Rodrigues (PSD), prevê para os próximos dias o lançamento de um pacote de investimentos com foco na retomada econômica. Ao mesmo tempo, se planeja para manter estruturas médicas em caso de nova necessidade.

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Leia abaixo a entrevista completa. Ela faz parte de uma série de entrevistas com os prefeitos das sete cidades-polo de Santa Catarina sobre o futuro da pandemia. Confira:

Como o senhor avalia a rede de saúde de Chapecó diante do que passou e do que está por vir no futuro? Primeiro, a estrutura que eu montei foi suficiente para não deixar ninguém em casa sem atendimento. Tanto isso deu resultado, para você ter uma ideia, que de 75 leitos de enfermaria só tenho cinco internados, 70 já deram alta. Dos 20 leitos de UTI semi-intensiva só tenho seis internados. Então o conjunto da obra deu muito resultado. Essas estruturas vou mantê-las. Só vou dispensar RH, mas deixarei tudo pronto. Se tiver um novo episódio, Chapecó já está preparada sem fazer nenhuma loucura. Vou deixar tudo montado, 75 leitos de enfermaria e os 20 leitos de UTI semi-intensiva. Isso vai ficar por mais uns seis meses, pelo menos.

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No pós-pandemia, quais as lições que ficam para a área da Saúde? Primeiro, acho que todo prefeito tem que se preparar. Já vivemos uma pandemia que ninguém sabe quando termina, a não ser que tenha vacinação. Peguei o mandato em janeiro, e em 90 dias montamos tudo. Isso tem que ser perene até que mude o cenário, não pode montar e desmontar porque deu uma baixada no contágio, que a situação está voltando à normalidade. Para você ter uma ideia, vou construir o centro regional de Saúde num bairro grande da cidade com previsão de, no mínimo, 40 leitos de enfermaria nesta unidade, que vão ficar reservados, fechados. Se um dia precisar, vai estar lá. A gente não sabe o futuro, e vamos ter outros episódios, outras doenças. Então já vou preparar as estruturas para tudo.

A gente percebeu uma integração entre os prefeitos do Oeste na tomada de decisão. Essa é uma boa lição que fica, de agir em conjunto diante de situações complicadas? Com certeza. Agimos exatamente juntos. Tanto que você vê o cenário. Foi o pior, iniciando por Chapecó e depois indo para o Oeste inteiro, e hoje o melhor cenário de Santa Catarina é o Oeste de novo. Não estamos tendo novos internamentos, o que temos é o agravamento dos internados. Mas internamento não temos mais. Integração é o que define. Não adianta isolar uma cidade e as demais continuarem no contrapé. A união aqui foi extremamente importante.

Do ponto de vista de leitos de UTI, a luta será por manter a estrutura atual? Desde antes da pandemia já se falava que havia necessidade de mais capacidade para atendimento. Na verdade, em Chapecó sempre faltou leito de UTI mesmo fora de Covid. Agora, por exemplo, no Hospital Regional, com muita briga conseguimos de 35 leitos subir para 108. Claro que acho impossível deixar 108 leitos com RH, mas pelo menos, e isso como prefeito vou cobrar, que eles mantenham os leitos sem RH. Que seja mantido o RH onde for necessário, mas se tiver nova emergência os leitos estão prontos naquele local sem precisar fazer toda essa correria que a gente fez. Então, no mínimo, dos 108 leitos de UTI do Hospital Regional deverão ficar fixos lá 80. Porque 28 são locados os equipamentos com RH. Os 80 são montados com equipamentos que conseguimos no Ministério, no Estado. Vamos fazer esse acordo com o hospital para que mantenham os 80 leitos lá. E mantenha RH suficiente para atender a demanda que vai voltar à normalidade num futuro muito próximo.

Com o cenário atual, de redução, o que o senhor vislumbra para os próximos meses em saúde e economia? Já começamos essa semana com investimento em saúde que é o pós-Covid. Vamos montar uma grande estrutura para atender as pessoas que passaram pela Covid, com psicólogo, com fisioterapeuta, professores de educação física, médicos. Devemos desativar um ambulatório Covid semana que vem, temos três. E vamos manter dois. Aquele desativado passa a ser pós-Covid. As unidades já voltaram ao normal, atendendo a rotina diária. O atendimento do ambulatório diminuiu 95%, as pessoas hoje procuram muito pouco. Então agora passamos a fazer o pós-Covid.

Deu para perceber que as restrições que vocês fizeram deram certo, a cidade conseguiu se estruturar, os casos ativos diminuíram, e obviamente que deves ter recebido pressão dos setores econômicos. O que tens para frente pensando na economia? Chapecó, não é atitude minha, acho que é conjunto de todos nós, é um padrão que o país poderia seguir. É um pacote completo, e ele passa por testagem rápida, medicar rapidamente as pessoas com orientação médica. Não é o prefeito que define receita, é o médico que tem que dizer o que a pessoa tem que tomar, se é uma aspirina, se é um… Não importa. É o médico que tem a ciência para isso, mas tem que tratar rapidamente, testagem rápida. E em seguida se para por um período para a montagem de estruturas. E esse foi o resultado. Então tudo contribuiu, desde o lockdown parcial, teste rápido, medicação rápida. Porque senão, como em 30 dias, nós nos olho do furacão, viramos o jogo em 30 dias. Foi a maior virada do Brasil. Porque depois de constatada a gravidade, se agravou muito a questão dos leitos de UTI, mas a velocidade com que parou o contágio esvaziou as enfermarias. Estão sobrando leitos à vontade, porque isso foi feito. Essa ação em conjunto é o que nos leva ao sucesso de momento. O que é grave é que as pessoas procuraram cuidado médico muito tarde, outros fizeram os tratamentos em casa sem acompanhamento médicos e alguns de fato tinham problemas de saúde, comorbidade, coisa parecida e agravou o quadro, com o número de óbitos que deixa todos nós extremamente alarmados. Mas, graças a Deus, agora vamos fazer o que: passou isso, já estamos lançando um pacote de obras que passa de R$ 50 milhões na cidade para injetar na economia, vamos antecipar o 13º dos servidores municipais, provavelmente em julho para injetar na economia alguns milhões também...

Será 100% do 13º salário ou 50%? Já poderia pagar 100%, mas vamos pagar 50% para poder reservar um pouco para o final do ano, senão o funcionário chega em dezembro sem nada. Vamos, então, pagar metade em julho, a outra parte em dezembro, temos também o pacote de obras e ainda o novo distrito industrial com mais de 70 indústrias cadastradas, das quais duas grandes de fora que virão para Chapecó. Então nós vamos fazer um pacote de virada de jogo, pós-Covid e investimentos para poder movimentar a economia local. O nosso comércio até que não sofreu tanto em razão de que paramos por pouco tempo, então não conseguiu ainda sair do… O que está prejudicado hoje, com dificuldade maior, é restaurante. Porque você fecha às 18h e para de vender bebida alcoólica, o restaurante praticamente fecha. A maioria das pessoas quando janta fora é para tomar um vinho, tomar uma cerveja. Isso é que está dando problemas nos restaurantes locais. Então é isso que temos de problemas, mas acho que superamos isso logo.

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O senhor tem boas relações com os governos federal e estadual. Para decisões de mais restrições, faltou mais apoio de auxílio e linhas de crédito, na questão econômica, para empreendedores e também aos prefeitos para a tomada de decisão? Recurso financeiro federal para Chapecó na pandemia que eu enfrentei em janeiro não tive um centavo. É tudo dinheiro da prefeitura. Até porque não quero dinheiro do governo federal na pandemia, quero fazer com dinheiro do povo de Chapecó porque o governo federal já colocou no ano passado R$ 64 milhões em Chapecó. Foram R$ 44 milhões para o enfrentamento à pandemia e R$ 20 milhões para suprir a queda de receita que supostamente o município teria. Isso foi no mandato do ex-prefeito. Enfim, já investiu. Agora fiz questão de dizer ao ministro Pazuello de que não quero dinheiro federal na pandemia, faço com nosso dinheiro. O que quero é apoio do governo federal na retomada da economia da cidade. Então, vamos tratar desse assunto futuro. Não pude tratar ainda porque estamos no olho do furacão. Em relação ao governo do Estado, por sua vez, lançou um grande pacote de R$ 1,5 bi mais ou menos para financiamento da micro e pequenas empresas com 34 parcelas para pagar sem juros. Acho que é um bom incentivo. Mas direto para Chapecó especificamente, não tive nada ainda. Tenho compromissos do governo do Estado, infelizmente tivemos o afastamento do governador Moisés, espero que a governadora também nos atenda. E tenho expectativa do governo federal.

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Em relação à vacinação, qual a sua perspectiva e como o senhor está trabalhando para agilizar e ter garantia de que a maior parte da população esteja vacinada ainda neste ano? Nós nos cadastramos para compra da vacina (consórcio nacional de prefeitos), mas sou consciente de que não vamos conseguir comprar de ninguém em razão de que toda vacina que entra no Brasil o governo federal está comprando, o que acho correto. Porque se eu tiver a liberdade de comprar a vacina para Chapecó, a capacidade financeira que a economia local tem com empresas e prefeitura a gente pode vacinar todo mundo em 30 dias. Mas aí o Nordeste e as regiões mais pobres vão ter essa dificuldade. A gente tem consciência de que o governo federal está muito correto nisso de comprar todas as vacinas. O que estamos fazendo aqui é vacinando rápido. Toda vacina que chega a gente está vacinando. Espero que o cronograma do governo federal se concretize, que ele aconteça. Ele tem acontecido, em alguns momentos tem falhado porque a Anvisa ora está bloqueando algumas vacinas que não conseguem entrar no Brasil e aí ela não chega até nós. Acho que ainda a vacinação precisa ser mais rápida, é só isso que vai nos dar o retorno totalmente próximo da normalidade.

Percebemos na pandemia uma proximidade das pessoas com o poder público por conta da necessidade de informação, agora a vacinação. O senhor sente que estreitou a relação com a cidade nesse momento, inclusive nesse começo de mandato? Pra mim, graças a Deus, sim. Porque sempre me comuniquei direto com o povo. Converso com as pessoas, dou liberdade, através do meu WhatsApp, do meu telefone, dos contatos pessoais. Sempre tive um contato muito próximo com o povo, mas dessa feita mais ainda porque… Tem um ditado que diz: as pessoas se unem na hora da tragédia. E assim o poder público esteve muito próximo do povo pelas atitudes que praticamos. Mesmo a decisão amarga que é fechar o comércio, mas teve apoio inclusive do empresariado. Ela não foi algo conflitante, que provocou a revolta da sociedade porque fizemos para montar estrutura. Então se justifica muito isso. A aproximação com o povo foi algo extremamente importante, e me dá a condição de continuar o mandato com as expectativas que a gente tem pra fazer. Temos projetos novos, lançar, retomar, movimentar crescimento. Temos uma energia boa. O povo está nos ajudando muito.

O senhor acredita que para ter tranquilidade em fazer gestão, estás prevendo somente em 2022, ou antes já dá para fazer algumas coisas? Não. Eu lanço sexta-feira (9 de abril) que vem o pacote de obras. É já, começo agora. Devo montar também um programa de captação de recurso na ordem de R$ 150 milhões, um financiamento. Vou fazer tudo esse ano porque é na hora da crise que tens que reagir. Então vamos aproveitar no olho do furacão para reagir e poder colher os frutos já no ano que vem.

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Colunista da NSC Comunicação, publica diariamente informações relevantes sobre as decisões que impactam o catarinense, sem esquecer dos bastidores dos poderes. A rotina de Florianópolis em texto e imagens também está no radar da coluna.

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