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    Com vacina da Covid-19, está na hora de deixar de lado ivermectina e cloroquina, diz cientista

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    Dagmara
    Por Dagmara Spautz
    10/01/2021 - 08h52 - Atualizada em: 10/01/2021 - 11h05
     Luiz Gustavo de Almeida, PhD em Microbiologia pelo Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo, ICB-USP.
    Luiz Gustavo de Almeida, PhD em Microbiologia pelo Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo, ICB-USP. (Foto: Divulgação)

    A expectativa de aprovação da Coronavac e da vacina de Oxford pela Anvisa, com a previsão de início da vacinação em breve no Brasil, é motivo para deixar de lado a insistência do Brasil com medicamentos como a ivermectina e a cloroquina. A opinião é do cientista Luiz Gustavo de Almeida, PhD em Microbiologia pelo Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo, ICB-USP.

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    Diretor no Brasil do festival internacional de divulgação científica Pint of Science – Um Brinde à Ciência, e coordenador dos projetos educacionais do Instituto Questão de Ciência, Almeida falou, em entrevista exclusiva à coluna, sobre os recentes estudos que envolvem os dois medicamentos, e sobre os dados já divulgados a respeito da vacina no Brasil.

    O pesquisador está animado com os resultados apresentados até agora, mas ressalta que o Brasil poderia ter desenvolvido a própria vacina se houvesse investimento.

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    Entrevista: Luiz Gustavo de Almeida

    O que os estudos mais recentes afirmam sobre a eficácia da ivermectina, para uso preventivo ou tratamento da Covid-19?

    Esses estudos de reposicionamento de fármaco estão uma bagunça. Saíram mais estudos reportando eficácia, mas o problema é que são muito fracos em evidências, no desenho estatístico, em como comparam as pessoas que tomaram e que não tomaram o medicamento. Esses estudos pegam pessoas que não são de risco, muitas vezes não fazem nem o teste para saber se a pessoa está com o vírus ou não, nem o PCR e muito menos o de anticorpos. Ter um estudo científico publicado não significa que está escrito em pedra. Tem revistas que você paga para publicar, então ter um artigo publicado, se for numa revista dessas, significa que você pagou e conseguiu publicar. Aí sim é que ele vai cair no escrutínio do consenso científico. E todos os pesquisadores sérios, renomados, médicos que têm um nível de conhecimento científico adequado, analisam esses resultados. A gente consegue ver muito bem quando o desenho cientifico é bem feito, como no caso das vacinas. São (testes em) centenas de milhares de pessoas, compara-se quem tomou com quem não tomou vacina, tem o duplo cego, quem tomou não sabe e quem aplicou a vacina não sabe o que está aplicando. É esse tipo de rigor que está faltando.

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    Houve tempo para esses testes?

    Tivemos muito tempo para fazer isso, desde o começo. Já se passou um ano, e foram feitos testes muito bem desenhados sobre cloroquina, sobre ivermectina, e infelizmente elas não funcionaram. Parte-se daquela premissa de que funcionou em cultura de células, mas é uma premissa errada, porque eles utilizam células que não são similares àquelas que o vírus infecta no organismo das pessoas. Eles utilizam células de rins de macaco. Não é pegar o macaco e tirar o rim dele, mas a gente imortaliza as células de embrião em laboratório, e faz os testes com as drogas nessas células, que são muito diferentes das células do nosso sistema respiratório. O vírus entra por uma outra via, totalmente diferente. Esses medicamentos não têm nem sentido biológico em inibir essa entrada. A ideia (do medicamento) é impedir que o vírus entre inteiro, mas o coronavírus entra por outra ‘portinha’ nas nossas células do sistema respiratório. Então, desde o princípio, (a pesquisa sobre esses medicamentos) se baseou em princípios errados. Quando fizemos esses mesmos experimentos utilizando células de sistema respiratório de outros mamíferos, já não funcionava nem em laboratório. Então, acumulamos evidências suficientes. Já testamos, já fizemos os experimentos corretos, que tinham que ser feitos, bem desenhados. E não foi a primeira vez que fizemos isso, não foi só com Sars-Cov 2. Já tínhamos feito com ebola, com zika, com o primeiro Sars, com o Mers, que é outro coronavírus.

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    Com esses mesmos medicamentos?

    Principalmente a hidroxicloroquina. A ideia da hidroxocloroquina é usar contra a malária, e o agente causador da malária entra de um jeito parecido com o que alguns vírus entram em células especificas. Mas o Sars-Cov 2 entra por outra via, muito mais eficaz, que é baseada na proteína spike dele. Ele acopla na célula do sistema respiratório e se funde à nossa membrana (celular). Entra só o material genético (na célula). A ideia do medicamento, da cloroquina, é para quando o vírus entra inteiro dentro da célula e, lá dentro, tem que se desmontar. A cloroquina impede que o vírus saia dessa bolha e se desmonte, assim como ela faria no caso da malária. Só que o coronavírus não entra inteiro, ele se funde à membrana de células do epitélio, de células do pulmão, e joga só material genético. Então, pelo princípio biológico dele, já não funcionaria. Tem estudo mostrando em células de laboratório, células mais específicas, e esses medicamentos não funcionam. Ou, se funcionam, é numa dose cavalar, gigantesca, que não daria para usar em humanos. Mataríamos a pessoa só com a dose que teria que se aplicar. Vão sair mais estudos, com certeza. Mas é sempre a mesma coisa. Quando olhamos, tem dado estatístico ruim, tem desenho mal feito.

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    Então podemos dizer que não há confiabilidade nesses estudos recentes que têm sido divulgados?

    Correto. Todos os estudos feitos de maneira decente, correta, com desenhos bem feitos experimentais, mostraram que não funcionam esses medicamentos, infelizmente. A gente testou. Não foi falta de teste, não foi a indústria farmacêutica querendo que esses medicamentos não chegassem à população, nada disso. Foi muito bem testado, inclusive aqui no Brasil.

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    Como vê as novidades em relação à vacina? Os dados são bons?

    Os dados que a Coronavac apresentou na coletiva de imprensa são muito bons, são animadores. O que a comunidade científica está pegando no pé é porque eles apresentaram dados de análise secundária, não de análise primária como outras empresas estão fazendo, como a Pfizer, a Moderna. O Butantan apresentou algumas partes do estudo, não a eficácia geral. Por isso eles apresentaram duas eficácias, uma de 78% e outra de 100% para casos graves. A gente queria ver o desfecho primário, que é o que a OMS está pedindo, daqueles 50% mínimos de eficácia. É 50% mínimo de eficácia para evitar qualquer estágio da doença. O que se mostrou foram algumas etapas. O que é excelente, mas a gente queria saber se protegeu mais idosos, mais pessoas jovens, mais homens ou mais mulheres.

    Qual o percentual de eficácia primária da vacina da gripe, por exemplo?

    A vacina da gripe é de 40% a 60% de eficácia, e ela salva muitas pessoas todos os anos. Isso (o percentual de eficácia) só vai mudar a quantidade de gente que precisaremos vacinar. O Brasil é o melhor país do mundo em fazer campanhas de vacinação. Ano passado já estávamos em pandemia, em março, e conseguimos vacinar 540 mil brasileiros por dia com a vacina da gripe. Os EUA estão se matando, agora, para conseguir vacinar 300 mil pessoas por dia. Parece muito, mas eles vão demorar pelo menos dois anos e meio para vacinar metade da população deles nesse ritmo, por isso precisam aumentar. O Brasil, sem fazer muita força, utilizando a incrível estrutura que temos no SUS, estava vacinando 540 mil pessoas por dia numa pandemia. Se fizermos um mínimo de esforço, conseguimos vacinar mais.

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    Mas precisamos ter as doses.

    Isso, são duas coisas diferentes. Precisamos ter a vacina, e a campanha de vacinação. Conseguimos fazer esses números incríveis na campanha da gripe porque cada secretaria estadual, municipal, estava com as doses contadas no freezer, armazenadas.

    É hora de tentarmos ainda comprovar a eficácia dos medicamentos, ou deveríamos estar focados na vacina? Qual a solução definitiva?

    Tínhamos que parar de fazer ensaios com esses medicamentos. Nós conseguimos numa velocidade tão rápida a vacina, que vai prevenir que as pessoas fiquem doentes. Não vamos tratar pessoas doentes, vamos evitar que as pessoas vão para o hospital. Foi o que o Butantan mostrou, que as pessoas que ficaram doentes só precisaram de tratamento ambulatorial. Não precisaram nem serem internadas. As vacinas, estando prontas, não tem sentido nenhum continuarmos forçando muito para encontrar um resultado, torturando os dados, que é o que estão fazendo. Ou pior, atiram para todos os lados, pegam um caso que deu certo e falam que a pessoa se curou. Não precisamos mais investir tanto nisso, poderíamos ter feito um investimento melhor em comprar vacinas. Se fosse o mundo ideal, teríamos desenvolvido a vacina aqui no Brasil. Temos capacidade, laboratórios, pesquisadores incríveis que conseguiriam fazer isso se tivessem investimento. Não teve.

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    Esse investimento seria federal?

    Tem que ser federal. Mesmo essas outras empresas (que lançaram vacinas) elas tiveram bilhões de investimento dos governos. Aqui no Brasil, a duras custas um dos laboratórios da USP conseguiu para uma pesquisa inicial para o desenvolvimento de vacinas. Quase não conseguiu. Mas temos plena capacidade, e profissionais excelentes para desenvolver vacinas tão boas quanto essas que estão sendo apresentadas. Não começou lá atrás porque não tinha investimento. Temos laboratório que desenvolve a capacidade tecnológico, e precisa de outro que produza. O Butantan produz vacinas, a Fiocruz também. Era só termos amarrado melhor, e teríamos uma vacina nacional.

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