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Setor de bicicletas cresce e impulsiona a economia de Santa Catarina

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Por Estela Benetti
17/04/2021 - 06h00
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A Bicicletas Mormaii, que tem grande fábrica em Blumenau, registrou crescimento de vendas de 58% no primeiro trimestre deste ano frente ao mesmo período de 2020 (Foto: Patrick Rodrigues)

Em ritmo acelerado desde o ano passado, as vendas de bicicletas crescem no Brasil em tempos de pandemia. Essa explosão de consumo acontece porque elas proporcionam pelo menos três diferenciais para esses novos tempos: atividade física, mobilidade mais barata e lazer. Essa fase impacta positivamente a economia de Santa Catarina, que sedia o terceiro maior polo nacional produtor de bicicletas, peças e outros itens para o setor. É uma indústria que avança com o uso de tecnologias de ponta, a chamada indústria 4.0 ou internet das coisas (IoT).

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A Bicicletas Mormaii, que tem grande fábrica em Blumenau, registrou crescimento de vendas de 58% no primeiro trimestre deste ano frente ao mesmo período de 2020. É um resultado acima da média do setor no país, que encerrou o ano passado com crescimento de vendas 50% maior na comparação como 2019, segundo a Associação Brasileira do Setor de Bicicletas (Aliança Bike).    

Mas enquanto o consumo segue em alta, nem todos fabricantes nacionais conseguem produzir no mesmo ritmo. Há falta de peças em função da alta demanda no mundo. Além disso, parte das fábricas brasileiras cedeu o oxigênio da produção, temporariamente, para uso por doentes de Covid-19 em hospitais. 

A Associação Brasileira dos Fabricantes de Motocicletas, Ciclomotores, Motonetas, Bicicletas e Similares (Abraciclo), apurou que no primeiro bimestre de 2021 o país fabricou 113.059 bikes, 3,2% menos do que as 116.808 do mesmo período do ano passado. Segundo a entidade, o Brasil conta hoje com mais de 70 milhões de bicicletas em uso e fabrica em torno de 2,5 milhões por ano, a quarta maior produção mundial.

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A maioria das vendas de bicicletas infantis no país envolve preços entre R$ 200 a R$ 700 e, para adulto, entre R$ 500 a R$ 2 mil. Mas o maior crescimento de vendas, acima de 100%, ocorre no segmento de bicicletas elétricas, com preços que variam entre perto de R$ 2.000 a R$ 6,5 mil por unidade. 

Segundo o departamento de marketing da Mormaii, as pessoas estão adquirindo mais bicicletas para transporte e lazer. Com a pandemia, é uma alternativa mais segura de transporte porque foge de aglomerações. Outro fator considerado é o aumento dos preços dos combustíveis. O fato de permitir uma atividade física ao ar livre, como lazer, também é um atrativo. Segundo a empresa, o valor influencia. A procura é maior por bicicletas com preço mais acessível.

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A Bicicletas Mormaii vende para todo o Brasil, mas tem presença maior na região Sul. A empresa trabalha com três marcas, das quais uma tem exportações para o Paraguai, Uruguai e Bolívia. Para os próximos meses, a aposta é de que o alto ritmo de produção e de vendas vai continuar. Por isso, para atender essa maior demanda, a empresa planeja lançar uma nova linha de bicicletas aro 29 de alumínio, um dos produtos mais demandados no mercado. 

O longo prazo é promissor para o setor, já que o produto oferece maior qualidade de vida e tem apelo ecológico.

Bicicletas infantis aliam lazer e qualidade de vida

Maior fabricante de bicicletas infantis da América Latina, a Nathor, de Blumenau, enfrenta os desafios da pandemia nos diversos mercados. Ainda assim, segue com vendas em alta e projeta crescimento de 15% para este ano. O aumento da produção exigiu a contratação de 100 trabalhadores desde janeiro, o que elevou para 550 o quadro de pessoal. Para o diretor Antônio Vergos, os principais motivos são o fato de as pessoas preferirem estar com os filhos, em contato com a natureza, ter um meio de transporte que permite fazer exercício físico e ter mais saúde.

Segundo ele, quando surgiram os primeiros casos de Covid-19 e foi adotado o isolamento social a produção foi interrompida. Meses depois, quando os pais buscaram alternativa de lazer ao ar livre para os filhos aconteceu um boom de vendas. Este ano, a empresa começou com vendas aquecidas, mas teve um primeiro trimestre diferente em função do fechamento de lojas para contenção do coronavírus e algumas empresas terem segurados as compras, o que exige novas estratégias internas.

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Maior fabricante de bicicletas infantis da América Latina, a Nathor, de Blumenau, projeta crescimento de 15% para este ano e contratou 100 trabalhadores desde janeiro
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Vergos considera ainda o alto preço dos combustíveis e a busca de um meio de transporte que não tem aglomerações como fatores que impulsionam as vendas de bicicletas. O empresário avalia que a consolidação da marca resulta de produtos de qualidade e seguros, feitos com crescente automação de processos, com o propósito de oferecer uma experiência positiva para as crianças. Uma das novidades é uma bicicleta sem pedais.

– Além de desenvolver o equilíbrio e a coordenação motora, a bicicleta é a realização dos sonhos das crianças, onde a Nathor proporciona momentos especiais com a família e amigos. A bicicleta (sem pedais) é recomendada para crianças de dois anos a cinco anos. Crianças que brincam com esse modelo desenvolvem o equilíbrio estático e dinâmico, e têm muita facilidade para, posteriormente, pedalar uma bike comum, sem o auxílio de rodinhas laterais – explica Vergos. 

A Nathor produz mais de 1 milhão de bicicletas por ano. Destina a maior parte ao mercado nacional, com distribuição partir de São Paulo, mas também exporta. Os principais mercados lá fora são a Argentina, Paraguai e Uruguai.

Indústria 4.0 é o caminho para competir na produção

Se as montadoras de bicicletas vão de vento em popa, os fornecedores de peças para o setor e fabricante de produtos para a prática do ciclismo aceleram no mesmo ritmo ou até mais. Para isso, avançam no uso da automação da produção, a chamada indústria 4.0. Entre as empresas com esse objetivo está a Royal Ciclo, de Rio do Sul, produtora de pedais e selins (assentos) para bicicletas.

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O uso de tecnologia intensiva permitiu a empresa aumentar em 60% a produção e contratar mais 100 pessoas em 2020 para o quadro de funcionários, que chegou a 320 colaboradores. De acordo com Milton Hobus, presidente da empresa, a fase atual é de instalação das máquinas automatizadas, que “conversem” e disponibilizem informações em tempo real. A cada hora, é possível acompanhar à distância, por meio de um aplicativo no celular, como está a produção de cada equipamento. 

– O grande desafio da indústria 4.0 é automatizar os processos sem perder o controle de qualidade e ter informações em tempo real – explica o industrial, que também é deputado estadual de SC.

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Produtora de pedais e selins para bicicletas, a Royal Ciclo, de Rio do Sul, usou a tecnologia para aumentar em 60% a produção e contratou mais 100 pessoas em 2020
(Foto: )

O esforço pela automação é prioridade para a empresa nos últimos cinco anos. Graças a isso, a fábrica é uma das mais competitivas do mundo, superando unidades asiáticas. Para isso, tem como sócia internacional a Selle Royal, da Itália, uma das líderes em peças para o setor. Muita tecnologia é definida pela sócia italiana, que tem unidades na Inglaterra e China. 

– Não tem outro caminho. Ou você moderniza a produção, consegue ganhos de produtividade, ou perde espaço. Nós investimos a vida inteira. Todo ano, investimos a depreciação que é 5% a 6% do faturamento. Com isso, conseguimos ser a única fábrica de pedal do mundo competitiva fora da Ásia. Agora, em março, fabricamos 1,190 milhão de pares de pedal em um mês. Fizemos também 592 mil selins no mês. Somos uma das cinco maiores fabricantes desse item no mundo – explica Hobus. 

Vendas de roupas para pedalar crescem 

A boa fase do setor de bicicletas impacta também em indústrias que fornecem confecções para a prática do ciclismo. É o caso da Márcio May Sports, de Brusque, que leva o nome do fundador, o ciclista catarinense aposentado que disputou três olimpíadas: de Atenas, Atlanta e Barcelona. Márcio May investiu em automação 4.0 e conseguiu aumentar a produção da confecção em 500%. Isso porque adquiriu uma máquina que corta tecidos de forma digital, que acelerou a capacidade produtiva frente a processo que era manual.

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Ex-atleta olímpico do ciclismo, Márcio May virou empresário e comanda uma empresa, em Brusque, que produz roupas para os amantes de ciclismo
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A nova máquina, um investimento de R$ 400 mil, permitiu elevar a produção mensal de 2 mil peças para 12 mil peças. O número de empregos diretos também foi ampliado, de sete para 20, e o total de costureiras prestadoras de serviços subiu de oito para 30. 

Segundo o empresário, outro diferencial é que o custo mensal da prestação da máquina é menor do que o valor pago antes para fazer o corte das peças fora, de forma manual. O novo processo, que faz corte de roupas sob comando de software, também permite maior controle de qualidade.

Crédito com juro baixo amplia a inovação no setor

A evolução da produção da Márcio May Sports é citada como exemplo de ganho de produtividade com o uso da indústria 4.0 pela Confederação Nacional da Indústria (CNI). A entidade nacional é parceira da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) para oferta de crédito a juros baixos e longo prazo de financiamento para incentivar a inovação. A CNI está convencida de que empresas que utilizam mais tecnologia enfrentam melhor as crises. Estudo apontou que das indústrias que usam até três tecnologias em processos, 54% já tinham retomado lucro igual ao ano anterior no mês de novembro de 2020, apesar da pandemia.

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Na Nathor, tecnologias estão presentes em diversos processos
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A máquina adquirida por May é da Audaces, de Florianópolis, que tem experiência na venda de equipamentos com linha de crédito de longo prazo e atua com vendas em mais de 70 países. A aquisição foi com a linha de crédito Inovacred, da Finep, que oferece até 96 meses para pagar e, no ano passado emprestou R$ 13 milhões.

A Royal Ciclo, anos atrás, também investiu com linha da Finep. A indústria 4.0 avança nas linhas de produção de bicicletas. A Mormaii, por exemplo, automatizou o setor de montagem de rodas. Na Nathor, tecnologias estão presentes em diversos processos. Segundo o diretor Antônio Vergos, muitos componentes são fabricados internamente, mas parte é adquirida de fornecedores brasileiros e estrangeiros.

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Especialista na economia de Santa Catarina, traduz as decisões mais relevantes do mercado, faz análises e antecipa tendências que afetam a vida de empresários, governos e consumidores.

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