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    SC É A NOVA CINGAPURA?

    Santa Catarina e Cingapura: o que têm em comum?

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    Por Estela Benetti
    02/04/2021 - 14h00
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    Imagem geral do horizonte e dos arranha-céus em Cingapura (Foto: Roslan Rahman, AFP)

    A diversificada economia de Santa Catarina, que conseguiu um dos melhores desempenhos do país no ano de 2020 apesar da pandemia – recuou 0,9% enquanto o Brasil caiu 4,1% – merece ser comparada com a da cidade-estado Cingapura? A metrópole da Ásia chama a atenção do mundo pelo “milagre econômico” em área de apenas 728 quilômetros quadrados repleta de arranha-céus. Em entrevista para a coluna de Estela Benetti no dia 20 de março, o secretário de Estado da Fazenda, Paulo Eli, disse que “SC é a nova Cingapura, novo Tigre Asiático no Brasil”. 

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    Para o presidente da Federação das Indústrias de Santa Catarina (Fiesc), Mario Cezar de Aguiar, a comparação em economia faz sentido. 

    – Só tenho que cumprimentar o secretário Paulo Eli. Acho que ele fez uma colocação bem pertinente. Acho, realmente, que Santa Catarina e Cingapura têm similaridades. Ele não está comparando SC com Cingapura, mas está dizendo que SC é a Cingapura do Brasil. Isso porque Cingapura se destaca em nível mundial. É uma cidade-estado que, embora pequena, tem uma importância econômica forte. Nós somos um pequeno estado do Brasil, mas temos uma importância econômica muito forte para o país – argumenta Aguiar.

    Segundo o líder empresarial, entre as semelhanças de SC com o país asiático está o comércio exterior. O Estado exporta e importa muito. Está em segundo lugar em movimentação de contêineres no país e onde isso ocorre há movimentações de cargas de valor agregado.

    Aguiar destaca também tecnologia e outros setores. 

    – Temos, principalmente na região de Florianópolis, um ecossistema de tecnologia e inovação extremamente dinâmico, o que existe também em Cingapura. Temos indústrias de tecnologia, serviços sofisticados e um segmento forte de turismo. Então, temos muitas semelhanças que permitem fazer essa comparação com Cingapura, que eu acho que foi muito feliz – afirma ele.

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    O presidente da Feisc reconhece, entretanto, que Santa Catarina tem obstáculos que não estão presentes no país do Oriente. Ele cita que o setor empresarial catarinense cobra, há muitos anos, reformas do setor público como as fiscais, tributária e administrativa, problema que não existe na cidade-estado, com a uma economia aberta, altos investimentos e colocação boa no ranking de competitividade mundial. SC é o segundo estado em competitividade no Brasil, só atrás de São Paulo. 

    Aguiar cita também diferenciais catarinenses como a presença de multinacionais próprias, sediar 27 das 100 cidades com melhor IDH do Brasil, ter a indústria mais diversificada do país, com valor agregado. Hoje, 10% da arrecadação de impostos industriais do Brasil é de SC. O Estado segue com a menor taxa de desemprego do país, 5,3% e o menor índice de desigualdade social, cita ainda o industrial.   

    O professor de Internacionalização de Empresas dos cursos de Administração Empresarial e Economia da Universidade do Estado de Santa Catarina (Esag-Udesc), Marco Seifriz, vê poucas razões na comparação, embora reconheça alguma semelhança no dinamismo econômico. 

    – Para mim, o erro do secretário Paulo Eli foi fazer a comparação com Cingapura. Isso porque a metrópole asiática é um ponto muito fora da curva, tanto sob o ponto de vista histórico, quanto sobre como foi formado aquele ambiente de negócios, que não tem nada a ver com o Brasil. Cingapura é um entreposto comercial das antigas colônias britânicas, a primeira multinacional do mundo. Os caras têm logística na genética – diz o professor.

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    Seifriz destaca que hoje a cidade asiática se projeta pela economia hight-tech e centro financeiro. Pelas características diferentes, ele acredita que a comparação só pode ser por metáfora. Contudo, para ele, são duas coisas incomparáveis. SC é uma unidade importante de uma federação e, lá, eles têm um sistema político que é um compartilhamento entre o setor empresarial e o governo. Ele reconhece que o Estado tem um agronegócio forte que ativa o comércio exterior e grandes indústrias fora da curva, exemplos de gestão. Para o professor, SC não é comparável a ninguém.

    O economista e professor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) Dominick Hartmann diz que é muito difícil fazer comparações entre o Estado e Cingapura. Recentemente, ele e outros economistas divulgaram o artigo “Criando Pontes”, sobre a evolução de economias de 116 países entre 1970 e 2010, incluindo a cidade-estado asiática.

    Uma das conclusões dos especialistas foi de que a economia de Cingapura foi uma das que conseguiram fugir da armadilha do desenvolvimento intermediário, com a indústria mais inteligente no período.

    Para o futuro, Estado foca em estrutura e educação

    O secretário de Estado de Desenvolvimento Econômico Sustentável, Luciano Buligon, concorda com a comparação. Reconhece que há diferenças, mas tanto a cidade-estado asiática quanto Santa Catarina têm forte dinamismo econômico. Para o futuro, Buligon acredita que as semelhanças econômicas podem aumentar com melhoria nos investimentos e em educação. 

    – Uma das prioridades nossas, agora, é o investimento. Para enfrentar a pandemia, o governo catarinense está sendo contundente na oferta de crédito, investindo em infraestrutura e ampliou o diálogo com o setor empresarial para saber as reais demandas. Apesar da pandemia, estamos passando mensagem de esperança. Para o setor turístico, por exemplo, São Paulo alardeou a oferta de R$ 100 milhões em crédito. Nós estamos trazendo R$ 329 milhões, três vezes mais – pondera Buligon. 

    Na opinião dele, um grande desafio frente a Cingapura é avançar na qualidade da educação. Na última quinta-feira, dia, 25, Buligon teve reunião com o secretário estadual de Educação, Luiz Fernando Vanpiro, para tratar da oferta de mais cursos técnicos e formação técnica geral aos estudantes do ensino médio. Segundo ele, o estudante precisa ter formação maior em ciência, tecnologia e inovação. O plano é aproximar o setor público que oferece ensino médio, universidades e o sistema S na formação técnica.

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    Sobre a alta empregabilidade no Estado, com a menor taxa de desemprego (5,3%) apesar de ter informalidade e outros problemas, o secretário atribui o êxito ao modelo econômico do Estado.

    – Nossa micro e pequena empresa responde por cerca de 50% dos empregos formais no Estado. No Brasil, esse segmento responde por 23% a 25% do total. O empresário catarinense tem no DNA resistir às crises. Muitos empregadores, nas cidades pequenas, também são amigos da família. Então, há um esforço maior em manter os empregos em períodos de crise – diz o secretário.

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    Ainda sobre a resiliência do catarinense, um dos exemplos que Buligon gosta de citar é o de Blumenau. Após enfrentar duas enchentes, em 1983 e 1984, a cidade não ficou lamentando, criou a Oktoberfest, segunda maior festa alemã fora da Alemanha, que aquece o turismo do Estado em outubro.

    Curiosidades sobre Cingapura

    Conhecida como “pérola do Oriente” pelo desenvolvimento econômico, Cingapura é uma cidade-estado que se tornou independente em 9 de agosto de 1965, sob a liderança do político Lee Kuan Yew, um economista graduado pela London School of Economics. Em cerca de três décadas, tendo inglês como idioma oficial, de uma província insular pobre que pertencia à Malásia, Cingapura se transformou num país rico. Abriu a economia, fortaleceu o porto, a indústria naval (de plataformas de petróleo), comércio, turismo e tecnologia.

    Um dos pilares do salto econômico é a qualidade da educação. O país ficou anos no topo do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (PISA), que testa conhecimento de ciências, matemática e leitura de estudantes de 15 anos em diversos países. Em 2018, ficou em 2º lugar na pesquisa com nota média de 549, enquanto o Brasil ficou em 57º lugar, com nota 413.

    Com baixa tributação de fortunas, é um dos locais preferidos de residência de bilionários da Ásia e até de outras regiões. Quem fixou residência em Cingapura é o brasileiro Eduardo Saverin, um dos fundadores do Facebook.

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