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    Testagem nos bairros

    Estudo sobre coronavírus quer descobrir por que a morte não dá trégua a Blumenau

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    Evandro
    Por Evandro de Assis
    28/08/2020 - 06h17 - Atualizada em: 28/08/2020 - 07h54
    Coveiros do cemitério do Progresso usam roupas de proteção durante enterro na quarta-feira
    Coveiros do cemitério do Progresso usam roupas de proteção durante enterro na quarta-feira (Foto: Patrick Rodrigues)

    Um carro funerário chega ao cemitério do Progresso, em Blumenau. Dois homens cobertos de branco aproximam-se, retiram o ataúde de dentro do veículo e carregam até o jazigo previamente preparado. São coveiros do município.

    Roupas protetoras e luvas coloridas, daquelas de limpeza, os trabalhadores receberam instantes antes de um servidor municipal. Elas tornam ainda mais difícil a tarefa de transportar entre as lápides o caixão lacrado, que leva um corpo envolto em plástico. 

    Só uma familiar pôde acompanhar o desfecho apressado de mais uma vida blumenauense perdida para a Covid-19.

    > Leia também: Números indicam que pandemia do coronavírus estabilizou em Blumenau, mas mortes segue em alta

    Cenas como a presenciada pelo repórter-fotográfico do Santa, Patrick Rodrigues, na quarta-feira (26) de manhã, repetiram-se 62 vezes só no mês de agosto. Enquanto números de casos e de internados por coronavírus despencaram, a morte não dá trégua a Blumenau.

    O ritmo da tragédia nem mesmo desacelerou. A segunda quinzena do mês já conta 29 vidas levadas pela Covid-19, contra 33 da primeira. E ainda faltam quatro dias para agosto ir embora.

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    Essa recorrência de mortes levou a Secretaria de Promoção da Saúde a desenvolver um esquema de testagem especial para desvendar o que está havendo. É um levantamento amostral, chamado de inquérito epidemiológico.

    Na próxima semana, 1,3 mil blumenauenses serão testados aleatoriamente nos sete ambulatórios gerais. Não os pacientes com sintomas de Covid-19 — que continuam sendo atendidos e examinados normalmente —, mas pessoas que foram aos AGs por outros motivos, como vacinar o filho, buscar um medicamento ou solicitar informação.

    — Queremos saber uma estimativa de quantos casos, de fato, estão positivos em Blumenau — explica o médico Adriel Rowe, coordenador de Políticas de Saúde.

    Guia para novas medidas

    A prefeitura usará o inquérito para testar a hipótese de que as mortes permanecem num nível alto porque há mais casos ativos do que os 548 computados oficialmente. A testagem serviria para indicar o tamanho real do problema e em quais bairros ele é mais crítico. Os dados podem guiar futuras medidas de controle da pandemia.

    Caso não se comprove a tese, ganhará força a possibilidade de as mortes atuais ainda estarem relacionadas ao pico da pandemia.

    — Ou são um efeito residual da alta contaminação de julho/agosto, ou a população simplesmente retornou à vida normal, levando a uma menor procura nos centros de atendimento — cogita Rowe.

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    Os testes foram distribuídos de acordo com a populaçao. O AG da Velha, por exemplo, aplicará 23% dos exames. O do Garcia, 13%. Serão adotados testes do tipo RT-PCR, que detectam o vírus. Esse é um aspecto inédito — e talvez crítico — do plano blumenauense.

    Falsos negativos

    Testes RT-PCR são mais eficazes para detectar o vírus após o terceiro dia de infecção, em média. No protocolo do município, eles são indicados para pacientes que já apresentam sintomas de Covid-19. Assim, reduz-se a chance de um falso negativo. 

    Levando em conta que só serão testadas pessoas assintomáticas no inquérito, o número de positivos pode não representar a realidade, alerta o doutor em Epidemiologia Fernando César Wehrmeister, blumenauense professor da Universidade Federal de Pelotas (UFPel).

    Estudos de prevalência da Covid-19 numa população geralmente usam os testes rápidos, que detectam as defesas do corpo contra o coronavírus. Assim, é possível ter uma ideia de qual parcela da população teve contato com o Sar-Cov-2, mesmo que os pacientes já estejam curados. Porém, como Blumenau busca um retrato do momento, e não um levantamento geral de infectados, optou-se pelo RT-PCR.

    Pelas limitações do método, talvez o estudo não consiga responder claramente à questão que o motivou. Mas o esforço de testagem servirá para "caçar" a Covid-19 de maneira ativa, recomendação expressa da Organização Mundial de Saúde (OMS) que, até o momento, o Brasil praticamente ignorou.

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