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Vacinação contra a Covid-19 na rede privada confessaria a crueldade social do Brasil

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Por Evandro de Assis
04/01/2021 - 11h12 - Atualizada em: 04/01/2021 - 20h10
Governo brasileiro importou cloroquina da Índia, mas tratou seringas como item supérfluo
Governo brasileiro importou cloroquina da Índia, mas tratou seringas como item supérfluo (Foto: Mateus Bruxel, BD)

O anúncio de que clínicas particulares brasileiras preparam a compra de 5 milhões de doses de uma vacina indiana contra a Covid-19 indica qual solução o Brasil tende a encaminhar para a pior pandemia em um século. Quem pode pagar algumas centenas de reais pelo imunizante logo teria condições de tocar a vida sem o vírus. A maioria que não pode padeceria enquanto o governo do “Pra que essa ansiedade?” patina na compra de seringas.

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Em Santa Catarina, por exemplo, o governo estadual planeja vacinar, até o fim do ano, cerca de um terço da população: 2,8 milhões de pessoas. Os outros dois terços, incluídos aí crianças, adolescentes e adultos sem comorbidades que não trabalham com saúde, educação e segurança, não têm qualquer perspectiva de vacinar-se. A menos que o próprio bolso resolva.

Seria a confissão da crueldade social que o Brasil pratica desde sempre e tão escancarada na pandemia. O Estado, que deveria promover o bem estar coletivo, omite-se. Sentada sobre o direito individual de zelar pelos seus, a elite brasileira prepara-se para botar a cabeça fora d’água enquanto os pobres mergulham na crise.

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Até quem ajudou a sabotar medidas preventivas e impulsionar bobagens sem comprovação científica teria o direito de vacinar-se primeiro. Mesmo quem espalha falsidades contra imunizantes poderia recorrer a uma clínica e livrar-se do carimbo de cidadão de segunda classe quando os aeroportos passarem a exigir certificado de vacinação. Os demais, que esperem.

Quem tem boa memória lembrará das primeiras campanhas de vacinação contra o H1N1. Enquanto o governo tratava dos grupos prioritários (grávidas e idosos), filas enormes formavam-se nas clínicas particulares. O cenário que se avizinha é o mesmo, mas com uma diferença: o Sars-Cov-2 mata três vezes mais doentes, inclusive pessoas jovens e sem comorbidades conhecidas. Destroça a vida produtiva de quem sofre com sequelas e impõe restrições econômicas graves a quem não consegue trabalhar a pleno.

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Direitos iguais

No Reino Unido, o governo do Partido Conservador decidiu que não haverá oferta de imunização fora do sistema público. Todos terão o mesmo direito de receber vacinas viáveis e seguras, começando por quem mais precisa. No Brasil, toda vacina aprovada pela Anvisa pode ser oferecida, tanto na rede pública quanto nas clínicas particulares. O governo tem a prerrogativa, porém, de reivindicar lotes de imunizantes da rede privada se houver escassez no atendimento público.

Não é por acaso que a Associação Brasileira das Clínicas de Vacinas (ABCVAC) recorreu à indiana Covaxin, até aqui carta fora do baralho no país. Laboratórios que lideram a corrida pela imunização, como Pfizer, Moderna e Astrazeneca, privilegiam acordos com nações e coalizões internacionais, a exemplo da Covax Facility, para não aprofundar a desigualdade na imunização.

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Os empresários brasileiros fazem uma aposta para acelerar a oferta. Afinal, só há sentido econômico em vender vacina se ela não estiver disponível de graça. A conduta criminosa do governo brasileiro, que negociou toneladas de cloroquina com a Índia e tratou seringas e agulhas como itens supérfluos, funciona como oportunidade.

Mais uma vez, o Brasil serve incompetência aos coitados para alguém vender facilidade aos privilegiados.

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