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Covid-19

"É como uma festa de aniversário": o dia a dia nos pontos de vacinação contra Covid em Florianópolis

Com sorrisos e sentimento de missão cumprida, aplicadores contam os desafios e a rotina durante o processo de imunização

19/07/2021 - 15h21 - Atualizada em: 19/07/2021 - 16h44

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Por Júlio Ettore
Por Luana Amorim
Aplicadores e enfermeiros contam como é o processo de imunização na Capital catarinense
Aplicadores e enfermeiros contam como é o processo de imunização na Capital catarinense
(Foto: )

Em seis meses de vacinação, as equipes responsáveis pela aplicação das doses já encontraram e conheceram dezenas de histórias nos pontos de imunização espalhados por Florianópolis. A rotina é a mesma: acorda cedo, vai até o trabalho, prepara o espaço e inicia mais um dia de aplicação. No drive-thru da Beira-Mar Continental é assim também. 

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Há quase uma semana, os dias eram de ar seco em Florianópolis. Às 7h40min, o calçadão e a ciclovia estavam movimentados. As águas da Baía Norte também, com a presença dos atletas de remo da Capital. 

No estacionamento, a enfermeira e Coordenadora de Aplicação do drive-thru da Beira-Mar Continental, Raquel de Siqueira, se prepara para mais um dia de aplicação da vacinas contra a Covid-19, junto com outros 24 servidores da prefeitura. 

— Todo dia eu chego com este sol nascendo — gabou-se. 

O dia era segunda-feira, 12 de julho. Enquanto o dia ia começando, profissionais de várias áreas, como enfermeiras e assistentes sociais, retiravam móveis e outros materiais de dentro de um contêiner e, assim, começavam a montar o "drive", como eles chamam o ponto de vacinação. 

— Dizemos que é como uma festa de aniversário. Você arruma e convida todo mundo. Tem convidado que sai reclamando da comida e depois guarda tudo de novo. E é isto todo o dia — compara a assistente social Wânia Rosa. 

Equipe do drive da Beira-Mar em mais um dia de vacinação
Equipe do drive da Beira-Mar em mais um dia de vacinação
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Hora de organizar a festa

Os primeiros convidados, no caso, já tinham chegado. Quatro carros aguardavam o início da vacinação, com mais de uma hora de antecedência - começava às 9h. Naquele dia em especial, o foco era a aplicação da segunda dose, por meio de uma campanha da prefeitura chamada de "segundou com a vacina". 

Para muitos, aquele era o segundo dia em um ponto de vacinação contra a Covid. Para Raquel, era o 138º dia desde que a rotina dela mudou, no dia 26 de fevereiro. Dali em diante, servidores de diversas áreas da prefeitura integraram o esforço mundial de vacinação na maior pandemia da humanidade em cerca de um século.

Raquel de Siqueira é casada. Não tem filhos, só as cadelas Tekila e Pipoca, da raça Yorkshire. Em dias de vacinação, a enfermeira acorda 6h30min e dirige do apartamento, em Barreiros, em São José, até o local de trabalho, na Capital. 

O horário combinado entre os servidores é 7h30min. Quando chega, veste a touca de Mulher Maravilha, que ganhou de uma amiga também enfermeira.

— Nós nos sentimos parte desse movimento de salvar vidas. Se ela [a Mulher Maravilha] faz isso, então nos sentimos um pouco como ela — diz, sem jeito.

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Enquanto os servidores montam o drive, Raquel faz uma espécie de "chamada".

"Jucélia?", pergunta em voz alta, lendo a escala do dia. "Ana da UPA tá aí, né?"; "Ana Carla já chegou?". Uma servidora se aproxima: "Eu fico onde?". "Tu fica ali comigo", responde.

Depois de distribuir as tarefas, os servidores fazem uma roda pra alinhar os últimos detalhes.

— Prestem bem a atenção na hora de pegar o cartãozinho, confira se a data é de hoje — disse a enfermeira aos colegas.

A preocupação era que ninguém tomasse a vacina fora do prazo.

Raquel distribuindo as funções antes do início da vacinação
Raquel distribuindo as funções antes do início da vacinação
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A torcedora do Avaí que quase foi vacinar no rival

Do lado de fora da tenda na Beira-Mar Continental, a fila aumentava. Eram 8h04min e um carro da prefeitura acabava de chegar com 500 doses da vacina, em quatro caixas térmicas vermelhas. Elas vinham da rede municipal de frio, com a temperatura monitorada por termômetros. Uma quinta caixa térmica, da cor azul, continha placas de gelox - material que resfria a temperatura das vacinas caso ela comece a subir.

Às 8h20min chegou outro carro, desta vez com os seis computadores. De jaleco, os próprios servidores puxam extensões e ligam todos nas tomadas. Eles são usados para registrar as doses no sistema.

Às 8h45min, a assistente social Wânia montava guarda no início da fila. Vestia o jaleco rosa, dos coordenadores, e tinha como função chefiar a triagem. Ela e outras duas servidoras fazem o primeiro contato com quem chega, conferindo se estão na data correta e se possuem documento de identificação. Mas a assistente social não escondia a preocupação.

— Quando é primeira dose acostumamos a ter uma fila bem maior. Por enquanto, ainda não está uma fila considerável — pontua. 

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Mal terminou de falar, Wânia apontou para um Gol, o segundo da fila. O carro tocava o hino do Avaí em uma pequena caixa de som, instalada no capô. 

— Ó, é aquela senhora, parece que ela conseguiu carona — comemora Vânia. 

A senhora era Maria de Jesus Lima, aposentada de 65 anos, que cantava o hino no banco de trás. Ela vestia camisa e máscara do time, tiara azul e branca e ostentava uma tatuagem do escudo avaiano no antebraço direito.

— Sempre tem uma alma boa, né? — ela diz, estendendo a mão esquerda à pessoa que salvou sua manhã, uma mulher de 62 anos.

Torcedora do Avaí, Maria aproveitou para garantir a segunda dose da vacina no drive
Torcedora do Avaí, Maria aproveitou para garantir a segunda dose da vacina no drive
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Mais cedo, Maria caminhou 45 minutos até o ponto de vacinação, vindo da Vila Aparecida, onde mora. O drive, no entanto, não aceitaria pedestres naquela manhã.

— Eles só dão pra quem tá de carro, mas eu não tenho carro — comentou.

Ela bateu de carro em carro para pedir ajuda e foi socorrida por Irene Fidelis, motorista do Gol que também tomaria a segunda dose da vacina da Astrazeneca. 

— Eu com espaço no carro? Não, né, de jeito nenhum vou deixar uma senhora voltar a pé sem vacina pra casa — disse a também aposentada.

Um dos aplicadores da beira-mar durante a imunização
Um dos aplicadores da beira-mar durante a imunização
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Maria e Irene tinham virado amigas. De pé, no canteiro da via, dançavam o hino avaiano na caixinha de som da própria Irene - que é torcedora do Figueirense.

— A letra do hino do Avaí é muito linda, eu gosto de letras bonitas, tá? — justificou sem se importar com a rivalidade entre os times da Capital.

Maria completou:

— Avaí e Figueirense tem que ser tudo vacinado.

Esta não foi a única ironia do destino. Se não conseguisse ajuda, Maria teria que andar até o ponto mais próximo para pedestres. E era justamente o estádio Orlando Scarpelli, do Figueira. 

— Será que eles iam me deixar entrar? — brincou.

O passo a passo da vacinação 

Antes mesmo das 9h, o Gol preto e os demais carros começaram a se movimentar. Tinha início mais um dia de vacinação. Na logística dos drive-thrus, o segundo passo, após a triagem, é o cadastro, já debaixo de uma enorme tenda. Servidores conferem os dados de quem será vacinado e registram a dose em um sistema eletrônico - que depois vai abastecer o banco de dados do Ministério da Saúde. O processo pode levar menos de um minuto. Quando liberado, o carro segue por poucos metros e já recebe a visita do servidor que aplicará a vacina.

Na Beira-Mar Continental, os veículos seguem em duas filas paralelas, tanto para cadastro quanto para aplicação. Na fila da direita, Raquel de Siqueira tem uma das missões mais importantes e cansativas: a aspiração de doses.

A enfermeira começa retirando uma agulha da embalagem e encaixando numa seringa. Em seguida, pega um frasco do imunizante, dentro da caixa térmica, e o fura com a agulha. O frasco fica de ponta-cabeça, preso pela agulha, encaixada na seringa. Com o dedão, ela pressiona o frasco para que ele não se solte da agulha. E, com frequência, volta pra casa com leves dores nele.

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A dose da vacina da Astrazeneca tem 0,5 ml. Um frasco "rende" cinco doses, às vezes seis. Cada aspiração leva poucos segundos e as seringas vão sendo colocadas dentro de outra caixa térmica para, em instantes, serem retiradas por um aplicador e partirem em direção a mais um antebraço. A engrenagem não pode parar. Intervalo? Só pra um café e uma água.

— Mas é bem satisfatório, né? Os resultados da vacina realmente estão chegando, então eu fico muito feliz de estar participando disso e de trabalhar com uma equipe tão boa — comemora Raquel.

No drive, funcionários de setores distintos da prefeitura acabaram se conhecendo e formando uma "família". Aos sábados, a equipe procura fazer uma "festa", com decoração e música ao longo da vacinação. No grupo, há desde auxiliares administrativos a nutricionistas, mas os profissionais de saúde são a maioria. E, entre eles, é difícil achar alguém mais experiente do que a enfermeira Márcia Castanhel, 51 anos. Ela é uma das três aplicadoras das vacinas aspiradas por Raquel.

— Que bom que o senhor veio hoje pra segunda dose. Eu já vou ali buscar a vacina — diz Márcia para um homem que dirigia um Fusca cinza.

A enfermeira segue quase sempre o mesmo roteiro e começa mostrando a seringa:

— Aqui, dona Claudete, 0,5 ml da dose, Astrazeneca.

Em menos de cinco segundos, a picada é dada. Márcia também adora encerrar a aplicação com um "uhul!", comemorando mais um vacinado. E recomenda: "siga os cuidados!"

Equipe aproveita para comemorar todos os dias ao fim das doses
Equipe aproveita para comemorar todos os dias ao fim das doses
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Um momento para ficar na lembrança 

Márcia Castanhel é servidora municipal há 29 anos. Participou de várias campanhas de vacinação, mas tem carinho especial por uma delas.

— Em 1994 a gente fez uma das campanhas que serviram pra eliminação da pólio no país— relembra.

Mas a alegria ao aplciar as vacinas não se restringem a Santa Catarina. Em 2010, Márcia cruzou o Atlântico e foi combater a poliomielite em Angola, na África. Como voluntária da Organização Mundial da Saúde (OMS), ajudou a levar o conhecimento brasileiro à capital, Luanda, e a áreas rurais e pobres do interior do país. 

— Como não há censo populacional, cada criança vacinada era marcada com uma cor marrom no dedinho. Foi uma experiência de vida, conhecer essa outra realidade — relembra.

Márcia durante sua passagem pela África
Márcia durante sua passagem pela África
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No dia em que a reportagem do Hora de SC visitou o drive da Beira-Mar Continental, o movimento estava mesmo abaixo do normal. Pouco depois das 10h, o ponto chegou a ficar alguns minutos sem ninguém para vacinar.

Raquel aproveitou para abrir uma caixa de bombons doada por um vacinado. Enquanto comia um, contou:

— Hoje tá menor, mas, no começo, não conseguíamos comer tudo de tanto presente, tanto chocolate que vinha. 

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Apesar da aparente menor procura, todas as 500 doses que chegaram de manhã foram aplicadas e mais 700 tiveram que ser levadas pela prefeitura. Já eram quase 16h quando o último carro teve a entrada liberada. Até esta segunda-feira (15), segundo dados do Monitor da Vacina, 22,77% da população de Florianópolis recebeu a segunda dose da vacina. 

A "festa de aniversário" estava sendo desfeita, com servidores recolhendo tudo e levando de volta para o contêiner. Dentro do carro, desparamentada, Raquel disse:

— Um pouco cansada, mas é só o início da semana. Pronta pra ir pra casa, ficar com a minha família, com o meu marido, com as minhas cachorras, porque amanhã tem mais.

Às 7h20min da terça-feira, ela estaria de volta ao mesmo visual da Baía Norte. A previsão era de tempo seco.

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