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Cultura e saúde mental

Interrupção das atividades de lazer durante a pandemia impactou a saúde mental dos brasileiros

Na região Sul, 43% dos entrevistados afirmam que pelo menos uma pessoa da casa onde vivem passou a apresentar algum problema de saúde mental nos últimos meses; psicóloga explica a relação

15/08/2021 - 06h00

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Marina
Por Marina Martini Lopes
saúde mental
A pandemia de coronavírus levou a um aumento no número de casos de depressão e ansiedade, como já mostraram estudos realizados em diversos países
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Dizer que a pandemia de coronavírus afetou a saúde mental de milhões de pessoas em todo o mundo não é novidade. O medo da contaminação, a perda de familiares ou pessoas queridas, o isolamento social, a interrupção ou mudança radical de atividades cotidianas, a eventual piora nas condições financeiras - tudo isso levou a um aumento no número de casos de depressão e ansiedade, como já mostraram estudos realizados em diversos países.

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Agora, porém, uma nova pesquisa nacional avalia os impactos na saúde mental das mudanças envolvendo uma área bastante específica: a realização de atividades de entretenimento e o consumo de conteúdos culturais. O estudo também avalia as alterações causadas ou aceleradas pela pandemia nas maneiras como os brasileiros consomem cultura.

Das atividades culturais que costumavam ser realizadas antes da pandemia, 67% dos entrevistados, por exemplo, relatam sentir mais falta de ir ao cinema. 32% sentem falta, sobretudo, de assistir apresentações artísticas (como shows, dança e teatro); 21%, de frequentar bibliotecas; 20%, de ter acesso a atrações infantis; 17%, de visitar centros culturais; 15%, de frequentar exposições e museus.

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Entre os participantes, 42% relatam sentir falta do entretenimento e da diversão associados à realização de atividades culturais; 41%, da interação com outras pessoas; 24%, de encontrar os amigos durante esse tipo de atividade; 23%, de ter momentos de lazer com a família; e 9%, de ampliar conhecimentos e conhecer coisas novas. 6%, ainda, associam a realização de atividades culturais à manutenção do equilíbrio emocional.

67% dos entrevistados, por exemplo, relatam sentir mais falta de ir ao cinema
67% dos entrevistados, por exemplo, relatam sentir mais falta de ir ao cinema
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Uma observação importante: as porcentagens de alguns dos tópicos da pesquisa resultam em mais de 100% porque, em várias perguntas, os entrevistados podiam escolher mais de uma resposta. Na pergunta sobre qual é a atividade da qual os participantes mais sentiram falta durante a pandemia, por exemplo, os entrevistados podiam selecionar três opções: o número indicado no resultado de cada uma é a soma das porcentagens dos que escolheram aquela atividade específica em primeiro, segundo e terceiro lugar.

A pesquisa foi conduzida pelos institutos Itaú Cultural e Datafolha, e entrevistou 2276 homens e mulheres de todas as regiões do Brasil, com idades entre 16 e 65 anos, integrantes de todas as classes econômicas. As entrevistas foram realizadas entre os dias 10 de maio e 9 de junho de 2021. 16% do total, ou seja, 236 pessoas, moram na região Sul do país.

- Ir ao cinema, a um show, assistir uma apresentação de dança ou teatro, tudo isso são momentos de autocuidado - comenta a psicóloga Alessandra Fischer, que atua no Hospital Santa Luzia, em Ponte Serrada, no Oeste de Santa Catarina; e é co-líder da organização Hacking Health, que busca criar soluções para problemas de saúde por meio do uso de tecnologias emergentes. - É um momento seu, de aproveitar algo de que você gosta, na companhia de pessoas de quem você gosta. Isso traz uma sensação muito boa de bem-estar.

- Também há a falta da interação com outras pessoas - ela prossegue. - Estar com outras pessoas, trocar ideias a respeito da atividade que estamos realizando, da apresentação que estamos vendo, do filme que estamos assistindo, é parte essencial da atividade cultural. A falta desses espaços causa um vazio muito grande. E isso, por sua vez, causa uma sensação de tristeza: as pessoas se sentem mais sozinhas, mais melancólicas, mais desanimadas.

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Migração para o online

Com a impossibilidade de realizar presencialmente as atividades culturais às quais estavam acostumadas, muitas pessoas procuraram opções online: a pesquisa Itaú Cultural/Datafolha mostra que, das mais de duas mil pessoas entrevistadas, 57% passaram a se interessar mais por atividades culturais virtuais desde o início da pandemia. 72% delas, ainda, disseram que a disponibilização de conteúdo cultural online possibilitou o acesso a atividades de que, de outra forma, elas não poderiam participar - mesmo antes da pandemia.

Com a impossibilidade de realizar presencialmente as atividades culturais às quais estavam acostumadas, muitas pessoas procuraram opções online
Com a impossibilidade de realizar presencialmente as atividades culturais às quais estavam acostumadas, muitas pessoas procuraram opções online
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Os participantes da pesquisa estão em diferentes graus de isolamento
Os participantes da pesquisa estão em diferentes graus de isolamento
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Ouvir música e assistir a filmes e séries foram as duas atividades que tiveram maior crescimento em comparação com 2020: o consumo de música online aumentou de 74% para 79%; o de séries e filmes, de 68% para 75%. Jogos online, cursos livres, apresentações artísticas, leitura de livros digitais e consumo de podcasts são atividades relatadas por cerca de quatro em cada dez entrevistados. Em comparação com 2020, só houve queda no acesso a webinars e exposições e museus virtuais - para todas as demais atividades, a tendência é de crescimento.

Ouvir música e assistir a filmes e séries foram as duas atividades que tiveram maior crescimento em comparação com 2020
Ouvir música e assistir a filmes e séries foram as duas atividades que tiveram maior crescimento em comparação com 2020
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O consumo de conteúdo cultural online ao longo da pandemia foi visto como positivo por boa parte dos entrevistados: 44% afirmaram que as atividades virtuais melhoraram sua qualidade de vida nesse período; 48% acham que elas diminuíram o stress e a ansiedade; 49%, que elas diminuíram a sensação de solidão; e 51%, que elas diminuíram a sensação de tristeza. Os participantes também citaram algumas vantagens da modalidade online: comodidade, flexibilidade de horários, segurança, economia, evitar deslocamentos.

Andrei Longen, 35 anos, jornalista, morador de São José, é um exemplo de frequentador assíduo de cinema - ou pelo menos era, antes da pandemia: ele conta que ele e a esposa costumavam ir ao cinema até quatro vezes por mês.

- Deixamos de frequentar e ainda hoje não voltamos, por conta da insegurança e pelos níveis de infecção e mortes por covid-19 ainda estarem bastante altos - relata. - Temos acesso a plataformas de streaming, o que ajuda bastante a distrair com filmes, séries, documentarios, reality shows, playlists de músicas pra trabalhar, para lazer. Acho que nos adaptamos bem às atividades online. Participamos de aniversários, encontros de amigos e até do curso de batismo do nosso afilhado.

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- As pessoas se viram em casa e começaram a buscar outras formas de interagir com o mundo - diz a psicóloga Alessandra Fischer. - No início da pandemia houve uma grande oferta de lives, de apresentações artísticas online. Foi uma coisa boa; uma forma de as pessoas se entreterem com algo de que gostam e fugirem momentaneamente da enxurrada de notícias ruins que estávamos recebendo todos os dias. Mas, quando a pessoa está acostumada a frequentar presencialmente os eventos, as atividades, ela sente falta do ambiente. Pense numa pessoa que gosta muito de ir ao cinema: ela pode até assistir um filme na Netflix, mas certamente não é a mesma coisa. A ida ao cinema é um ritual diferente.

- Não acho que o streaming substitui a experiência do cinema como um todo, mas é uma excelente alternativa levando em conta segurança, saúde, cuidados, comodidade, preços, horários - pondera Andrei. - O cinema tem o diferencial da qualidade do som e da tela grande, além da experiência de ver um blockbuster muito esperado com outras pessoas tão empolgadas quanto.

Não à toa, para todas as atividades, a maioria dos entrevistados escolheria a realização da atividade presencial, caso os dois formatos fossem oferecidos: no caso de apresentações musicais, por exemplo, 62% preferem a versão presencial; para apresentações de teatro, circo ou dança, 64%; espetáculos infantis, 64%; exposições e museus, 63%. Entre os principais motivos citados para justificar a escolha estão a "maior emoção" de assistir presencialmente; a melhor qualidade de vídeo e som; e a vontade de "sair um pouco da frente do computador".

A maioria dos entrevistados escolheria a realização da atividade presencial, caso os dois formatos fossem oferecidos
A maioria dos entrevistados escolheria a realização da atividade presencial, caso os dois formatos fossem oferecidos
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- A parte cultural, de entretenimento, tem um papel importantíssimo na defesa das nossas emoções, dos nosso sentimentos - destaca Alessandra. - É muito importante que as pessoas busquem formas de se divertir, de se entreter, mesmo que online, ou de forma restrita, para dar continuidade a essas atividades e se sentir interagindo mais com o mundo.

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O poder da cultura e do lazer na proteção da saúde mental é tão grande que a arte é até mesmo usada como terapia, por meio das chamadas PICs, ou práticas integrativas complementares.

- A arte é um veículo de comunicação para os pacientes que apresentam algum transtorno mental - a psicóloga explica. - Por meio dela eles conseguem dar voz às suas dores e seus conflitos. Com a reforma psiquiátrica, foram se abrindo novas possibilidades de tratamento, mais humanizadas. Fazemos uso da pintura, da música, da dança, do teatro. As pessoas se expressam, colocam seus sentimentos nisso, e nós reconstruímos esses sentimentos por meio da arte. Existem muitos estudos que comprovam que o uso de arteterapia trabalha a criatividade, a memória, a concentração; diminui o stress e aumenta a sensação de bem-estar.

Andrei Longen diz que ele e a esposa só pretendem voltar às atividades presenciais quando a maior parte da população estiver vacinada, e a pandemia, mais controlada. Ele diz que se considera uma pessoa caseira, e que se distrai e se diverte com facilidade com atividades como filmes, livros e games - mas que se surpreendeu ao se pegar sentindo falta de simplesmente sair de casa.

- Eu nunca imaginei, por exemplo, que um dia iria sentir falta de sair de casa pra ir à academia - comenta. - Ou de simplesmente passear num shopping ou almoçar em algum restaurante. Mas senti falta principalmente de estar com a família.

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Parte de um cenário mais amplo

Os efeitos benéficos das atividades culturais sobre a saúde mental são um dado importante, visto que 36% dos entrevistados na pesquisa relataram que, nos últimos 12 meses, pelo menos morador da casa onde vivem teve algum tipo de problema de saúde mental. Desses, 63% procuraram tratamento. Na região Sul, a incidência de domicílios onde houve pelo menos um morador com algum problema de saúde mental nos últimos 12 meses é ainda é maior, sendo relatada por 43% dos entrevistados.

Na região Sul, a incidência de domicílios onde houve pelo menos um morador com algum problema de saúde mental nos últimos 12 meses é ainda é maior
Na região Sul, a incidência de domicílios onde houve pelo menos um morador com algum problema de saúde mental nos últimos 12 meses é ainda é maior
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- Com a pandemia, a gente percebeu que aqueles casos que já precisavam de algum tipo de tratamento tiveram os sintomas intensificados, e aí as pessoas se viram obrigadas a procurar ajuda - relata a psicóloga Alessandra Fischer. - Também surgiram casos leves a moderados por conta dessa mudança repentina: em março de 2020 as coisas mudaram de um dia para o outro, então foi bem difícil para as pessoas se acostumarem. As famílias precisaram se adaptar em 24 horas. Como a gente se organiza internamente para essa nova realidade? Como cada um lidou com as suas emoções nesse momento?

- Também houve uma piora entre pacientes que já faziam tratamento para transtornos mais graves, como depressões severas e dependências químicas - ela continua. - Vários serviços ficaram fechados por um tempo, e essas pessoas ficaram desassistidas. Muitos pacientes que tiveram piora em seus quadros precisaram ser internados. No hospital, nós recebemos muitos pacientes em casos de recaídas de uso de drogas e de álcool, porque o consumo aumentou na pandemia.

O jornalista Andrei Longen conta que, de fato, ao longo da pandemia, sentiu sua ansiedade ficar um pouco mais severa.

- Tive duas crises de choro em duas semanas distintas, aparentemente sem motivo - diz. - Acredito que tenha sido uma mistura de estar assustado com os números de infecções e mortes, pensamentos negativos em relacao ao trabalho, e o afastamento das pessoas da família.

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Alessandra compara as amoções vividas ao longo da pandemia com "vários tipos de luto": muitas pessoas passaram pela perda não só de amigos e familiares, mas também de empregos, poder aquisitivo, liberdades individuais.

- Cada pessoa lida de forma diferente com o luto; e algumas precisam de um apoio maior nesse momento - ela comenta. - Até mesmo a maneira de fazer velórios foi afetada durante a pandemia; e na nossa cultura nós valorizamos muito esse momento de despedida, de encerramento. Não poder se despedir satisfatoriamente também dificulta o processo do luto. E falar sobre saúde mental sempre foi um tabu. As pessoas ainda têm muita dificuldade de entender quando o problema realmente é algo que exige tratamento ou ajuda.

Além das atividades culturais e de lazer, a psicóloga destaca outra arma na prevenção de diversos problemas de saúde mental: a atividade física.

- A atividade física também é muito benéfica, porque ativa vários neurotransmissores que contribuem com a sensação de bem-estar, diminuindo o stress e a ansiedade - relata. - Muitas pessoas deixaram de ir à academia e mesmo de fazer exercícios ao ar livre nesse período, ficando trancadas em casa.

- Seja como for - ela finaliza, - é essencial incluir na rotina coisas que nos deem prazer: ler um livro, assistir um filme, visitar um museu, interagir com amigos, dar uma caminhada. Tudo isso alivia os sintomas de stress, de ansiedade e depressão.

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