Com a eleição para governador definida em 20 dos 26 estados e as batalhas pelo parlamento encerradas, a corrida pela Presidência da República foi o centro das atenções das últimas três semanas de campanha. Enquanto Flávio Bolsonaro tentou manter a agenda favorável após sair do 1º turno como o mais votado, a campanha de Lula organizou um “exército” digital para tentar concorrer com o bolsonarismo nas redes e também ocupar as ruas com atos de apoiadores. Das 10 eleições presidenciais ocorridas desde a reabertura política, em 1989, esta é a oitava que tem definição em 2º turno — a quarta com presença do atual candidato petista na disputa.
Lula, o veterano
A sétima candidatura presidencial de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) surgiu de forma natural. Com bons números na economia, como recordes de geração de emprego e renda no terceiro mandato, Lula continuou sendo visto como o principal nome capaz de aglutinar eleitores e enfrentar nas urnas a direita e o bolsonarismo.
A escolha natural do PT ganhou contornos definitivos após Lula se destacar na negociação e na defesa da soberania com o presidente Donald Trump. Após o governo dos Estados Unidos aplicar um tarifaço contra o Brasil, Lula e Trump fizeram reuniões que mais tarde resultaram no recuo da sobretaxa sobre alguns setores, um momento que elevou a popularidade de Lula e pôs em xeque o bolsonarismo.
Soma-se a isso uma crítica comum ao atual presidente, de não ter formado um sucessor no campo da esquerda, e Lula caminhou rumo à campanha de 2026 com o desafio esperado de buscar um quarto mandato inédito na história da República.
Lula, 80 anos, é torneiro mecânico, sindicalista e tem uma trajetória que se confunde com a democracia brasileira após a ditadura militar encerrada em 1985. Lula iniciou no sindicalismo representando trabalhadores de metalúrgicas no ABC Paulista e ajudou a fundar o Partido dos Trabalhadores. Pai de cinco filhos, Lula atualmente é casado com Janja Lula da Silva, que o acompanhou nas agendas de toda a campanha pelo país, incluindo um comício em Florianópolis, em setembro.
Após perder três campanhas presidenciais, Lula foi presidente da República por dois mandatos consecutivos, entre 2003 e 2010. Investigado e preso na Operação Lava-Jato, ficou preso por 580 dias na Superintendência da Polícia Federal em Curitiba (PR), entre 2018 e 2019. Após as condenações serem anuladas por entendimento de que a Justiça Federal de Curitiba não seria o foro adequado para julgar o caso, Lula foi solto, voltou a ficar elegível e foi eleito novamente presidente em 2022, alcançando o terceiro mandato.
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Pré-campanha confortável
Os meses que antecederam a campanha eleitoral foram de aparente tranquilidade para o presidente. Na liderança das pesquisas, Lula assistiu à indefinição sobre quem seria o herdeiro do bolsonarismo. Viu o governador de São Paulo Tarcísio de Freitas (Republicanos) sair do radar, após permanecer no cargo a partir de abril, prazo em que precisaria sair da função caso quisesse disputar o Palácio do Planalto.
No mesmo período, o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro se fixou nos Estados Unidos e acirrou o discurso de rivalidade de sanções americanas a autoridades brasileiras, afastando-o também de uma possibilidade de ser o escolhido de Jair Bolsonaro. Ratinho Júnior, Eduardo Leite, Michelle Bolsonaro: todos também foram nomes que saíram do radar, deixando no horizonte o embate direto entre Lula e Flávio Bolsonaro.
Enquanto isso, Lula também se articulou. Na tentativa de atrair votos de centro e centro-direita, reeditou a dobradinha com o ex-tucano Geraldo Alckmin (PSB) como vice, tentando repetir o apelo de frente ampla que ajudou na vitória em 2022. Escolheu nomes estratégicos como o de Fernando Haddad (PT) para concorrer ao governo de São Paulo e o da ex-ministra Simone Tebet (PSB) para concorrer ao Senado no estado paulista. A intenção era ter palanques fortes que permitissem a Lula ser competitivo em estados em que o PL poderia ser favorito.
Em pouco tempo, no entanto, Flávio Bolsonaro conseguiu unificar intenções de voto no campo da direita e se aproximou de Lula nas pesquisas de intenção de votos. Crises na pré-campanha de Flávio, como a divulgação do áudio dele pedindo dinheiro ao banqueiro Daniel Vorcaro para o filme Dark Horse, foram boas notícias que se acumularam nos comitês petistas, aumentando o otimismo.
Nos meses seguintes, no entanto, Flávio conseguiu estancar a sangria e se manteve próximo de Lula nas pesquisas, o que exigiu que os petistas fossem entrando pouco a pouco na campanha.
Campanha focada em legado no 1º turno
A campanha de Lula ao longo do 1º turno focou no legado dos seus mandatos. Com menções a programas reconhecidos como Bolsa Família, Minha Casa, Minha Vida e Pé-de-Meia, Lula exaltou conquistas como ter tirado o país do mapa da fome e apostado na política de valorização do salário-mínimo.
A estratégia, no entanto, acabou ofuscada pela agenda política. A crise no Supremo Tribunal Federal (STF) com a revelação de supostas conversas entre o ministro Alexandre de Moraes e o banqueiro Daniel Vorcaro dominou a agenda da campanha eleitoral em parte do mês de setembro. Com dois nomes indicados no atual governo (Flávio Dino e Cristiano Zanin) e associado a Moraes por decisões do magistrado que desagradaram o bolsonarismo nos últimos anos, o petista acabou tendo a popularidade atingida às vésperas do 1º turno.
Na reta final, Lula ainda recusou convites para participar de debates, incluindo o da TV Globo. Sem o incumbente, o encontro acabou sendo alvo de duas liminares para incluir outros candidatos entre os convidados, o que acabou resultando na desistência de Flávio Bolsonaro e na anulação do debate.
Na abertura das urnas, Flávio superou o projetado por parte das pesquisas de intenção de voto que o colocavam atrás de Lula e liderou a apuração do 1º turno, com 47% das intenções de voto, contra 45% do petista. Não bastasse isso, o PL de Flávio Bolsonaro elegeu 121 deputados federais, cinco governadores, 19 senadores e aumentou ainda mais a base conservadora no Congresso a partir de 2027. O resultado surpreendeu a cúpula petista — Lula chegou a admitir que acreditava em uma vitória em 1º turno —, mas provocou uma correção de rota na campanha para o 2º turno.
A reação para “virar votos”
A surpresa com o resultado do 1º turno forçou mudanças na campanha petista. Após dias de trocas de farpas, com a ex-senadora Kátia Abreu (PT-TO) chegando a afirmar que a estratégia deveria ter “mais Alckmin e menos Janja”, a cúpula convocou o ex-ministro Camilo Santana (PT-CE) e o governador reeleito Rafael Fonteles (PT-PI) para coordenar a campanha. Dias depois, recebeu uma boa notícia do Senado: a entrada em pauta da votação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) do fim da escala 6×1, tema explorado por Lula na campanha, mas que teve a votação adiada de setembro para outubro.
Outro reforço importante à campanha petista foi o deputado federal reeleito André Janones (Rede-MG). Conhecido por estratégias de enfrentamento à direita nas redes sociais, Janones criou um canal no WhatsApp chamado de “Exército do Lula”. O espaço tinha 10 milhões de membros até a sexta-feira (23) e reunia “missões” de Janones para os apoiadores de Lula executarem nas ruas e nas redes sociais, ajudando a divulgar a candidatura de Lula. O objetivo era um só: “virar voto”. A estratégia passava por mobilizar eleitores que não foram às urnas no 1º turno ou que optaram por outros candidatos. Até eleitores de nomes da direita, como Renan Santos (Missão), foram cobiçados por apoiadores petistas.
Mas a principal mudança foi no ritmo e no tom da campanha. Nos programas de rádio e TV, a campanha de Lula apostou em uma campanha focada em eventuais riscos de um governo Flávio Bolsonaro, como o de aumento no acesso a armas ou de acabar com programas sociais como o Bolsa Família. A estratégia também passou por ações possibilitadas pela máquina do governo. Além da promulgação do fim da escala 6×1, que entrará em vigor ainda este ano, Lula também apresentou outra PEC para adotar a tarifa zero aos fins de semana nas cidades brasileiras. Outros anúncios como uma terceira versão do programa Desenrola e um plano de apoio a Microempreendedores Individuais, os chamados MEIs, com promessa de Pix de R$ 5 mil no próximo ano, também fizeram parte da reta final da campanha petista.
Na última semana, Lula também desafiou o adversário Flávio Bolsonaro a abrir o sigilo bancário, ideia que foi aceita pelo candidato do PL dias depois. A intenção foi dominar a agenda política da reta final. Aliada à estratégia digital capitaneada por Janones e a atos de rua com públicos expressivos em locais como a Avenida Paulista, em São Paulo (SP), e a praia de Copacabana, no Rio de Janeiro (RJ), a campanha buscou construir um “clima de virada” até o dia do 2º turno.
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As principais propostas
Entre as propostas de Lula para um eventual quarto mandato, estão a manutenção da política de valorização do salário-mínimo e dos outros programas do governo e a ampliação do limite de faturamento para MEIs. Além disso, o candidato à reeleição também propôs a criação do Pé-de-Meia para universitários e a criação do Ministério da Segurança Pública, que segundo ele poderia ajudar no combate ao crime organizado e na articulação da segurança com estados e municípios. O tema é tradicionalmente explorado pela direita e exigiu até um reposicionamento de Lula, que em sabatina no Jornal Nacional afirmou ser a favor da redução da maioridade penal para 16 anos em caso de crimes graves.
O que vem depois das urnas
A última dança de Lula em eleições pode terminar de forma triunfal em caso de uma possível virada do petista no 2º turno. Ele iria para um inédito quarto mandato com um cenário adverso no Congresso, espaço em que a direita aumentou ainda mais a sua presença, mas pode ter em nomes como os atuais presidentes do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), e da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), aliados para tentar construir condições de governabilidade. A conjuntura poderia representar um desafio para o último mandato do petista.
Caso os resultados repitam os do 1º turno e tenham o rival Flávio Bolsonaro como vitorioso, Lula ficaria sem mandato já a partir do próximo ano. Em contrapartida, poderia ter na formação de sucessores e de novas alternativas da esquerda a principal tarefa como referência do campo político que estaria de volta à oposição. Em qualquer dos cenários, a experiência do veterano Lula será ativo importante para seu campo político — seja na tentativa de conduzir um quarto mandato em meio a um Congresso mais conservador, seja na reorganização da esquerda, que seria responsável por fiscalizar e controlar um eventual governo Flávio Bolsonaro. Uma trajetória que começou no chão de fábrica, chegou ao Palácio do Planalto, passou pela prisão e por um retorno à Presidência terá na votação deste domingo um capítulo decisivo sobre os atos finais da vida eleitoral de Lula.







