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Catarinenses são enviados para o ‘corredor da morte’ em nome da economia

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Por Dagmara Spautz
02/03/2021 - 12h51 - Atualizada em: 02/03/2021 - 21h28
No Norte da Itália, campanha 'non si ferma' antecedeu explosão de mortes
No Norte da Itália, campanha 'non si ferma' antecedeu explosão de mortes (Foto: Reprodução)

O desfile funesto de 70 caminhões do exército italiano carregando corpos das vítimas da Covid-19 na cidade de Bergamo, na Lombardia, é possivelmente uma das imagens mais sombrias que a pandemia de coronavírus legou ao mundo. Um ano depois, tentamos cobrir os olhos para não enxergar a nossa própria pilha de corpos em Santa Catarina. O Estado enfrenta o colapso do sistema de saúde e registrou, na última semana, uma morte a cada 25 minutos.

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No fim de fevereiro do ano passado, Bergamo e a capital lombarda, Milão, viveram dias muito semelhantes aos que enfrentamos em Santa Catarina. Os casos de Covid-19 aumentavam exponencialmente e os cientistas apontavam para a necessidade urgente de restrições de circulação. Mas os governantes locais, pressionados pelo pujante setor econômico do Norte da Itália, não se dobraram às evidências.

As duas cidades protagonizaram uma campanha com o slogan “non si ferma” – em português, ‘não fecha’. Era um estímulo para que as pessoas tocassem suas vidas normalmente. Um mês depois, os prefeitos precisaram vir a público para um ‘mea culpa’ e as entidades empresariais que encamparam a campanha amargaram o desgosto de ver o país elevado a epicentro mundial da pandemia. E sob rígido confinamento.

É verdade que, um ano atrás, sabíamos muito menos do que hoje sobre o novo coronavírus. As máscaras, por exemplo, só passariam a ser um item indispensável meses depois da tragédia italiana. As vacinas pareciam um sonho distante. Mas também é verdade que o vírus, durante esse tempo, adaptou-se e tornou-se mais ‘eficaz’ para causar estragos. Falamos, hoje, em variantes que têm um poder de transmissão pelo menos 50% maior.

Não há caminhões do exército carregando nossos mortos. Mas temos um exército de pessoas circulando de segunda a sexta, com poucas restrições e alto risco de contaminação. Enquanto isso, a fila de espera por leitos de UTI já chegou a 260 pessoas – o que o procurador-Geral de Justiça, Fernando Comin, chamou de “corredor da morte”. Não há vagas em hospitais públicos, nem privados. A esta altura, não adiantam mais as faturas em dia no plano de saúde.

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Assim como na Itália, as entidades empresariais de Santa Catarina repudiam o lockdown, apontado pelos especialistas como a maneira mais eficaz de reduzir a pressão sobre o sistema de saúde. Os manifestos vieram do comércio, do transporte e até da indústria, que nunca parou em SC.

Há razão no setor econômico quando aponta para o risco à sobrevivência de pessoas e de empresas diante do fechamento. Mas impressiona que interditar medidas venha antes do óbvio, que seria a negociação com o governo por medidas compensatórias – tanto para CNPJs, quanto para CPFs. O Estado teve superávit em 2020, em plena crise, e tem condições de socorrer quem passa por dificuldades. 

Sem representação política e sem voz, catarinenses estão sendo enviados para o ‘corredor da morte’. Calados pela falta de ar, muitos jamais voltarão para casa. Mais tarde, assim como mostra o exemplo italiano, talvez só restem os pedidos de desculpas.

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O que acontece de mais relevante em boa parte do litoral catarinense, especialmente Itajaí e Balneário Camboriú. Fontes exclusivas e informações de credibilidade nas áreas de política, economia, cotidiano e segurança.

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