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A empresa de SC que nasceu com um computador na era da internet discada e será protagonista no 5G

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Por Pedro Machado
21/11/2021 - 12h43 - Atualizada em: 22/11/2021 - 07h32
Fabiano Busnardo, fundador e CEO, começou a Unifique, antiga TPA, quando era universitário
Fabiano Busnardo, fundador e CEO, começou a Unifique, antiga TPA, quando era universitário (Foto: Divulgação)

Se ainda restava alguma dúvida, a catarinense Unifique tratou de consolidar de vez seu nome entre as gigantes do mercado brasileiro de telecomunicações ao abocanhar, no início de novembro, um dos lotes do leilão para o fornecimento da tecnologia 5G na região Sul do Brasil. Caberá à empresa de Timbó levar a nova geração de rede de internet móvel para cerca de 250 municípios de Santa Catarina e outros 423 no Rio Grande do Sul. A paranaense Copel, com quem a Unifique formou um consórcio para entrar na disputa, atenderá o estado natal.

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A vitória no leilão coroa um ano que já pode ser considerado um divisor de águas para a Unifique. Em julho, a empresa concluiu a oferta pública inicial de ações (IPO, na sigla em inglês). Na estreia na Bolsa, captou R$ 818 milhões, recursos que estão sendo utilizados para acelerar a expansão dos negócios. Parte dessa estratégia inclui comprar operadoras menores, ampliando a base de acessos – a meta é fechar o ano em 490 mil. Só em 2021 já foram nove aquisições nos estados de Santa Catarina e Rio Grande do Sul.

Quem olha a robustez de uma companhia que tem crescido em média 50% ao ano – a receita operacional líquida acumulada em nove meses em 2021 chegou a R$ 315,8 milhões, alta de 52,1% na comparação com 2020 – não imagina que tudo começou com um único computador Pentium 133. O modelo da máquina denuncia que a história já tem algum tempo: o ano era 1997 e o hoje presidente da Unifique, Fabiano Busnardo, à época com 23 anos, era um jovem estudante de administração de empresas na Furb que via potencial na ferramenta que começava a invadir o meio acadêmico.

— Claro que eu nunca sonhei na época que iria chegar na proporção que chegou hoje. Mas eu imaginei que seria uma boa ferramenta para quem estudava, para trocar informações e principalmente para as empresas, em um primeiro momento — recorda.

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Natural de Rio do Oeste, ele se mudara ainda adolescente para Timbó. Mas foi na universidade blumenauense que aconteceu o primeiro contato com a internet, motivo que o levou, naquele ano, a comprar um computador para ter acesso à rede. Daí em diante a trajetória é cheia daqueles acasos que marcam as boas histórias de empreendedorismo. Depois de instalar a máquina em casa em uma sexta-feira, Busnardo tentou se conectar no fim de semana, mas não conseguiu.

— Na segunda-feira liguei na loja e me disseram que a internet não estava funcionando porque o provedor fechou. E eu tinha usado só um dia. Sábado de manhã ele tinha desligado todos os equipamentos. Disse que não poderia fechar, porque esse negócio era o futuro. Então comecei a pesquisar para poder abrir um provedor de volta na cidade — lembra.

Mesmo sem conhecer nada de informática, Busnardo levou a ideia à frente. Desembolsou R$ 25 mil para abrir a empresa, que nasceu como TPA (sigla para Timbó Provedor de Acesso), e contratou um funcionário entendido no ramo, responsável pelas configurações de acesso discado – quem já nasceu no século 21 pode achar um absurdo, mas não se conseguia usar a internet e falar ao telefone ao mesmo tempo naquela época.

Apesar da convicção de que aquilo era o futuro, o começo foi turbulento. No primeiro ano de atividades, o novo negócio teve um prejuízo do mesmo tamanho do aporte inicial. Três anos depois, Busnardo precisou vender uma fatia de 40% da empresa para evitar que ela quebrasse.

— Fiz o que o pessoal chama hoje, num linguajar bonito, meu primeiro equity com meu sócio Clever (Mannes), que está até hoje conosco.

A primeira década de mercado foi de obstáculos e ajustes de contas. No início, Busnardo usava parte das receitas de uma pequena confecção da qual era proprietário, que chegou a prestar serviços para a Cia. Hering, para abastecer o novo negócio. Com o tempo, a empresa foi se moldando ao avanço da internet e o empreendedorismo paralelo no setor têxtil ficou de lado.

As linhas telefônicas deram lugar primeiro à tecnologia de rádio sem fio e, depois, às redes de fibras ópticas que garantiam mais velocidade nas conexões. Em 2014, já com atendimento em várias cidades, manter Timbó no nome da companhia já não fazia mais sentido e a TPA virou Unifique. Mais tarde foi reconhecida duas vezes pela Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) por oferecer a melhor banda larga do Brasil.

Um dos segredos do sucesso, segundo Busnardo, pode soar clichê, mas é sempre válido: pés no chão. E também saber separar a conta do empresário da conta da empresa. No começo, ele diz ter usado todos os recursos do lucro, quando a coisa começou a vingar, para reinvestir no próprio negócio, nem que para isso tivesse que passar por dificuldades financeiras na vida pessoal. A premissa segue valendo.

— A gente fez o IPO em julho. Fizemos uma captação significativa, mas foi 100% primário. Nenhum sócio colocou um centavo no bolso. Todo esse dinheiro foi para a conta da companhia para justamente a gente poder fazer esses investimentos — justifica.

Expansão

Com o crescimento das vendas, a Unifique foi diversificando os negócios. Passou a oferecer também serviços de telefonia e TV por assinatura e a montar lojas físicas de atendimento. Até 2017, 70% do faturamento vinha de clientes corporativos. Em menos de cinco anos, essa conta se inverteu e hoje a maior parte das receitas são de usuários do varejo.

— E não é porque a receita do corporativo diminuiu, pelo contrário, vem subindo também. Mas é que houve uma explosão de consumo das pessoas para ter uma internet de melhor qualidade em casa — justifica Busnardo.

A equipe da Unifique já tem 1,6 mil funcionários e deve passar de 2 mil em 2022, projeta o executivo. A atual sede em Timbó ficou pequena. A diretoria estuda a possibilidade de construir mais um prédio em outra área. Também está em curso a implantação de uma nova diretoria de Inovação e Transformação e de uma universidade corporativa voltada à qualificação de pessoas para o atendimento ao usuário final. A diretoria é bem avaliada no site ReclameAqui e quer manter o status.

Novas aquisições também estão no radar, adianta Jair Francisco, diretor de Mercado da empresa. O compromisso assumido com investidores no IPO era comprar 100 mil acessos em 2021. Já foram 105 mil neste ano e serão mais 200 mil em 2022 e outros 200 mil em 2023, projeta o executivo:

— Temos várias empresas no nosso funil que estão sendo avaliadas.

Segundo Francisco, a proposta é consolidar a companhia, primeiro, nos três estados da região Sul. Subir para o restante do Brasil em outro momento é uma possibilidade cada vez maior. Alvo de sondagens do mercado nos últimos anos para uma possível venda, a Unifique deve continuar crescendo com “cabeça de dono”, diz o diretor.

Expectativa com o 5G

O lote arrematado por R$ 73,6 milhões – ágio superior a 1.400% – pelo Consórcio 5G Sul, do qual a Unifique tem 62,7% de participação, prevê investimentos de cerca de R$ 500 milhões para levar a tecnologia 5G ao Sul do Brasil. Em comunicado divulgado ao mercado logo após o resultado do leilão, a empresa catarinense informou que cerca de 66% deste valor já faz parte da infraestrutura atual da rede de fibra óptica das consorciadas ou estão previstos nos respectivos planos de negócios.

Para Busnardo, a vitória no leilão assegurou o futuro da companhia. Apesar da euforia com as perspectivas de revolução da nova tecnologia, ele pondera que o 5G não estará disponível “na semana que vem”. Mas quando a ultravelocidade for relevante para a maioria, talvez daqui a quatro ou cinco anos, a Unifique estará fortalecida:

— É uma coisa de olhar para o futuro. Como lá atrás eu também olhei, a gente fez esse mesmo exercício, mas em outra proporção, porque os investimentos são bilionários para botar o 5G para rodar.

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