nsc
dc

MEMÓRIA DO CARNAVAL

O militar e o sambista

A viúva Léia Farias com o quepe da PM de Santa Catarina e a medalha da Os Protegidos da Princesa, objetos que tanto honraram o marido Armando Farias

14/02/2021 - 10h00

Compartilhe

Por Ângela Bastos
leia-farias-homenagem-personagens-carnaval-vitimas-covid-19
Para Léia, a medalha da escola e o quepe da PM representam o marido Armando
(Foto: )

É com delicadeza que Léia Farias abre a maleta de mão de onde retira dois objetos que tinham um valor inestimável para o marido, Armando Farias, falecido na madrugada de 2 de setembro: o quepe da Polícia Militar de Santa Catarina e a medalha cunhada com o nome da escola Os Protegidos da Princesa.

– É sempre uma honra falar do Armando, seja entre amigos, seja para a comunidade do samba. Eu espero não decepcionar – conta ela, sob o olhar atento da filha do casal, a fisioterapeuta Amanda, 24 anos, que acompanha a entrevista sentada numa das poltronas do teatro.

> Clique aqui e receba as principais notícias de Santa Catarina no WhatsApp

A vida de Armando, subtenente da PM, tinha a família, os amigos e o samba como prioridades. A relação com a música existia de longe, pois Léia é cantora desde os tempos de namoro. Mas foi depois de assistir a um desfile na passarela que a leveza do samba conquistou o coração do militar.

Armando ficou maravilhado com a grandeza da apresentação, com o capricho dos carros alegóricos, com o canto e a dança dos componentes. Tempos depois, acompanhando a um ensaio pensou: “Se assim já é bom, imagino o quanto poderia melhorar com certa organização?”.

– Armando se colocou à disposição para ajudar. Fazia de tudo: abastecia o barracão, carregava coisas no carro, levava na costureira. Sem nunca imaginar que um dia seria diretor de Harmonia (quesito responsável pelo canto e dança), e que em 2018, por ocasião dos 70 anos da escola Os Protegidos da Princesa, receberia uma medalha da Harmonia – conta a viúva.

> Vídeo: familiares e amigos recordam personagens do Carnaval vítimas da Covid-19

> Henry Cromack: Violão na mão e um peito cheio de saudade

> Carocha: Que falta faz o amigo

> Antônio Carlos Barbosa: A ferro e a amor

> Lapa: Sem gurufim, mas o chapéu como herança

Houve uma época que cada um cuidava do seu quadrado: Léia como diretora de eventos, Amanda era princesa e Armando na Harmonia. Para Léia, a relação de Armando com a escola foi muito feliz. O que a princípio parecia não combinar deu certo, agregando o aprendizado da vida militar ao desenvolvimento de uma escola de samba.

– Todo mundo sabia que Armando era militar. Para não perder o ensaio, ele chegava fardado. Isso ajudou a fazer com que a comunidade do samba fosse vista de outra forma. Em família, Armando acordava cedo, era barulhento, abria as cortinas da casa, gostava de movimentar-se. Envolvia-se também com os cuidados com a mãe, que tem Alzheimer, e para quem antes de ser intubado deixou um recado: “Diz a ela que a amo muito, e que estou viajando. Não quero que sofra com minha ausência”.

> Variantes do coronavírus: o que são e quais as diferenças entre elas

Assim está sendo com dona Lourdes. Como também está sendo o silêncio em casa. Armando morreu no dia do aniversário, data em que completava 58 anos.

– Isso é coisa para os grandes – diz Léia.

Peço à cantora, afinadíssima que é, que cante uma música que tenha marcado a vida dela e do marido:

– Pula esta parte.

> Floripa Mil Grau estreia programa na rádio Atlântida

Dias depois, Léia enviou uma mensagem pelo celular.

– As Rosas Não Falam, de Cartola, esta seria a música que não consegui cantar no dia da reportagem. Desculpa, Ângela.

A resposta que encaminhei para ela foi um meio verso de Cartola:

– “Mas que bobagem...”.

Familiares e amigos relembram personagens do Carnaval vítimas da Covid-19 em vídeo:

Leia também:

> MP vai à Justiça para proibir Carnaval com trio elétrico em Balneário Camboriú

> Veja a lista de lives para curtir o Carnaval em casa

Colunistas