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    Crise se agrava

    Quando Santa Catarina vai superar o pico de mortes e contágios por coronavírus

    Estado enfrenta escalada de novas mortes e infectados, tem 3ª maior taxa de contágio no país e leitos de UTIs estão sobrecarregados. Especialistas criticam a falta de ações coordenadas entre Estado e municípios

    11/07/2020 - 07h56 - Atualizada em: 11/07/2020 - 13h48

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    Cristian Edel
    Por Cristian Edel Weiss
    Pedestres usam máscara no centro movimentado de Florianópolis
    Pedestres usam máscara no centro movimentado de Florianópolis
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    Desde o início de junho, Santa Catarina iniciou uma escalada sem precedentes na pandemia do coronavírus. De uma média inferior a 100 casos novos diários em maio passou para mais de 1,4 mil nesta semana. Apenas entre 14 de junho e 4 de julho ocorreram pelo menos 196 mortes, quase metade de todos os óbitos até então. Só até sexta-feira desta semana, a média diária de mortes em julho era de 10. Simultaneamente, o Estado começou a registrar recordes consecutivos na ocupação de leitos de terapia intensiva (UTIs). Além disso, tem os mais baixos índices de isolamento desde março e apresenta a terceira maior taxa de contágio do vírus no país. Na opinião de especialistas, faltam ações coordenadas entre municípios e Estado para conter o avanço dessa curva.

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    Diante desse quadro, não é possível determinar quando Santa Catarina chegará ao pico e começará o declínio dessa curva (no gráfico abaixo, veja como a média diária de novos casos divulgados está em franca ascensão). O consenso entre especialistas é que pelo menos até agosto a situação tende a se agravar com o ritmo atual, e o Estado precisa imediatamente tomar medidas restritivas para voltar a ter o controle da pandemia, como fez no início do surto, em março.

    A curva de Santa Catarina está em plena ascensão, sem sinal de estabilização Julio Henrique Croda, pesquisador da Fundação Osvaldo Cruz (Fiocruz)

    – Santa Catarina entrou numa fase exponencial em 16 de junho. A curva de Santa Catarina está em plena ascensão, sem sinal de estabilização. Geralmente, após duas semanas do aumento no número de casos, vêm os óbitos – destaca Julio Henrique Croda, ex-diretor do Departamento de Imunizações e Doenças Transmissíveis do Ministério da Saúde (2019-2020), professor da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul e pesquisador da Fundação Osvaldo Cruz (Fiocruz).

    A taxa de contágio do novo coronavírus, também conhecida por RT entre especialistas, é a terceira maior do país, atrás apenas do Paraná e Mato Grosso. Com um RT de 1,29 até a última quinta-feira, 10 infectados com o novo coronavírus contaminam outras 13 pessoas em SC. A média brasileira era de 0,87 na quinta – é necessário que essa taxa fique abaixo de 1 para que a contaminação exponencial da população comece a cessar.

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    O resultado disso já pressiona o sistema de saúde. Florianópolis, Balneário Camboriú, Joinville são só algumas das cidades que registraram mais de 90% de ocupação nos leitos de terapia intensiva. Segundo o governo do Estado, três regiões são consideradas de alto risco por contágio acelerado e demanda por leitos: Itajaí, Laguna e Xanxerê.

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    Em 5 de junho, a taxa de ocupação de leitos de UTIs do SUS era de 59% em todo o Estado. Um mês depois atingiu o patamar mais alto na pandemia: 69,2%. Ultrapassaria 70% em 6 de julho, o que não ocorreu porque o Estado ampliou de 1.316 para 1.376 o total de vagas. Mas nesta sexta-feira voltou a alcançar o índice mais alto até aqui: 69,5%.

    Essa pressão pelo sistema de saúde também cresceu gradativamente porque pacientes com doenças típicas desta época do ano procuraram os serviços de saúde. Em junho, julho e agosto aumenta a circulação de outros vírus respiratórios no Sul, que costumam levar a internações grupos considerados vulneráveis. Diferente do Norte do país, onde o pico dos demais vírus é entre março e abril.

    Isso é o que coloca hoje as regiões Centro-Oeste e Sul com os cenários mais críticos para as próximas semanas. Segundo Julio Croda, como Santa Catarina, Paraná e Rio Grande do Sul tiveram controle na fase inicial da pandemia, não houve a chamada “imunização de rebanho”, quando o vírus se espalha e a população produz anticorpos naturalmente. Agora que vivenciam a flexibilização do isolamento, os três Estados do Sul registram uma onda mais forte do que a primeira.

    Essa imunização coletiva forçada pode explicar por que hoje Amazonas, Amapá, Ceará, Pará e Rio de Janeiro – onde se via imagens de caos em abril e maio – registram uma onda menor de casos e óbitos agora com taxas de contágio abaixo de 1. Mas expor irresponsavelmente a população ao vírus não é a solução.

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    – É importante entender que quem já teve bastante casos e óbitos no passado, quando flexibiliza, tem menor chance de que ocorra uma segunda onda maior. A gente vai aprender com esses estados que nunca fizeram um distanciamento social efetivo, se essa imunidade contra a covid-19 naturalmente adquirida é protetora e por quanto tempo. Se não ocorrer uma segunda onda, mostra que essa imunidade de rebanho é protetora. Por enquanto, ainda não temos essa resposta científica – destaca Croda.

    Mas essa estratégia teve um custo severo. A doença fugiu do controle nessas regiões. Com muita gente infectada, os prontos-socorros superlotaram, pessoas morreram na fila de espera por leitos de UTI e ainda há um contingente de óbitos subnotificados. A pressão sobre as UTIs provocou mortes de doentes afetados também por outras enfermidades.

    Como essas regiões passaram de maneira forçada pelo caos e boa parte da população apresenta anticorpos, o risco de começar a flexibilização agora é menor, defende Croda. Mas na Região Sul o cenário é oposto.

    Distribuição de ivermectina em Itajaí
    Distribuição de ivermectina em Itajaí
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    Descompasso entre prefeitos e governo atrapalha combate ao vírus

    Não bastassem os indicadores, especialistas apontam para um descompasso de estratégias entre governo do Estado e municípios. Prefeituras como de Itajaí, Balneário Camboriú e Criciúma começaram a distribuir medicamentos sem eficácia comprovada para prevenir e combater o coronavírus. Além da hidroxicloroquina e da azitromicina, agora o vermífugo ivermectina é o foco. Embora nem sequer haja recomendação do Ministério da Saúde – o que pelo menos existe para a hidroxicloroquina –, um grupo de médicos se mobilizou para sugerir ao governador um protocolo para uso do medicamento.

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    Em conjunto com diversas entidades, o chefe do Departamento de Saúde Pública da Universidade Federal de Santa Catarina, Fabrício Augusto Menegon, assinou uma carta aberta que repudia as medidas. Ele também critica a falta de articulação entre Estado e municípios para fazer um plano regionalizado de enfrentamento.

    – Não vejo por parte do governo do Estado um alinhamento estratégico. Existe uma desarticulação política, aqui na região da Grande Florianópolis os prefeitos não se conversam, porque não se tem estratégias regionalizadas. Existe um regramento geral do Estado e aí os municípios precisam adotar as próprias regras. Santa Catarina fez um bom trabalho no começo, quando parou tudo e sensibilizou a população sobre a necessidade. Mas depois parou, deixou a cargo das prefeituras. Mas elas não se conversam – enfatiza Menegon.

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    O que é preciso para voltar a ter controle da pandemia

    Professor do Departamento de Saúde Pública da UFSC, Lúcio José Botelho afirma que são necessários planos regionalizados para o enfrentamento da covid-19 não apenas porque a pandemia apresentar estágios distintos de gravidade nas diferentes regiões. Mas também porque é como funciona o fluxo de pessoas, que levam o vírus de uma cidade a outra.

    – A visão não pode ser isolada município por município. A gente tem que integrar regiões que tenham interfluxo muito grande de pessoas. É uma das coisas que as pessoas menos discutiram. Se antigamente se levava sete horas para ir de Florianópolis a Joinville hoje leva para ir de um continente a outro. O potencial de transmissão hoje vai muito além disso – compara Botelho.

    Essas ações descoordenadas, como caso dos medicamentos oferecidos pelas prefeituras, atrapalham na comunicação à população, na opinião de Julio Croda:

    – Qual a medida mais adequada quando se atinge 80% de ocupação de UTIs? Reforçar a ideia do distanciamento social, da manutenção da distância e das medidas de prevenção. Quando você fala que existe um tratamento profilático, como gestor público estou distribuindo esse tratamento, a mensagem que passa é: você pode sair, existe uma medicação que previne o adoecimento.

    Até que haja vacina ou medicamento comprovado para tratamento aos efeitos do novo coronavírus, intensificar o isolamento social e as medidas individuais de prevenção são a única forma de se proteger e manter o controle da pandemia em Santa Catarina.

    – Não temos efetivamente uma vacina, nenhum tipo de magia ou medicação que evite a transmissão do vírus. Não há tratamento preventivo que não seja a manutenção de distanciamento social. Se a gente planifica a saúde com base na ocupação de leito de UTI, porque ele representa a internação dos graves e o medo da morte, a gente não tem usado a mesma diligência com o isolamento social – enfatiza Botelho.

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    Segundo o In Loco, que usa dados de GPS gerados por celulares, em apenas seis dias úties desde 11 de maio Santa Catarina manteve uma taxa de isolamento acima de 40% (veja na linha cinza abaixo o índice diário de isolamento; nas colunas em verde, o total de novos casos por dia, segundo a data de surgimento dos sintomas). 

    Para conter essa grande onda de contágio que começou na segunda quinzena de junho, Julio Croda afirma ser necessário adotar novas medidas de isolamento social rígidas, especialmente nas regiões onde a situação é mais severa:

    – Vai ter que fechar comércio, interromper transporte público. Toda parte de flexibilização vai ter que dar um passo para trás. Nesse momento que aumenta o número de casos, é preciso a retornar o que foi feito lá no início da pandemia.

    Fabricio Menegon destaca ainda como essencial implantar mecanismos e tecnologia para traçar os indivíduos que tiveram contato com a pessoa contaminada, a fim de isolar os casos suspeitos e confirmados de forma efetiva. Além disso, recomenda ampliar a testagem nos municípios e munir os profissionais da saúde de equipamentos e insumos, que começam a faltar em alguns locais. 

    Na avaliação de Menegon, falta ainda uma campanha massiva que informe e eduque a população sobre a necessidade do distanciamento social. O especialista também afirma ser urgente pensar em soluções para atender as populações mais vulneráveis, porque agora o vírus começa a se espalhar pelas periferias e municípios mais carentes.

    Questionada pela reportagem, a Secretaria de Estado da Saúde limitou-se a responder, em nota, que o secretário André Motta Ribeiro tem visitado hospitais do Estado e se reunido com gestores municipais para apresentar propostas de ampliação de leitos. 

    Sobre as críticas de especialistas em relação à falta de ações coordenadas com os municípios, afirmou apenas que no último dia 3 publicou uma portaria que institui o Programa de Descentralização e Regionalização das Ações de Combate à Covid-19, "com ferramentas de análise de dados e diretrizes para amparar a tomada de decisão dos gestores locais, no sentido de flexibilizar ou restringir as atividades sociais e econômicas, de forma gradual, progressiva e regionalizada".

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