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    Entrevista com Carlos Moisés: "O governo não foi omisso"

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    Upiara
    Por Upiara Boschi
    26/06/2020 - 11h55 - Atualizada em: 26/06/2020 - 14h00
    Carlos Moisés em seu gabinete na Casa d'Agronômica
    Carlos Moisés em seu gabinete na Casa d'Agronômica

    *Por Raphael Faraco e Upiara Boschi

    O governador Carlos Moisés da Silva (PSL) teve o nome citado na investigação sobre a compra dos respiradores e o processo foi encaminhado ao Superior Tribunal de Justiça (STJ) na última semana. Ao mesmo tempo, os números de casos e de mortes no Estado atingiram as piores marcas desde que o novo coronavírus foi detectado em solo catarinense.

    Em entrevista exclusiva à NSC, Moisés falou sobre o combate à pandemia da Covid-19 e outros assuntos. Questionado sobre a compra dos respirados, ele foi enfático:

    – Se houve erro, as pessoas devem ser responsabilizadas. E o governo não foi omisso, quando soube tomou medidas adequadas para ressarcimento do erário. Esse é o papel de um governador.

    O governador ainda respondeu perguntas do apresentador Raphael Faraco, do Bom Dia SC, sobre a relação com a Assembleia Legislativa de Santa Catarina, as recentes mudanças no primeiro escalão do governo, dos pedidos de impeachment que tramitam no Parlamento e outros temas. Confira os detalhes da entrevista a seguir:

    Carlos Moisés recebeu Upiara Boschi e Raphael Faraco na Casa d'Agronômica
    Carlos Moisés recebeu Upiara Boschi e Raphael Faraco na Casa d'Agronômica
    (Foto: )

    Raphael Faraco – Durante grande parte desse período de pandemia os números de SC têm sido positivos se comparados com os de outros estados. Nos últimos dias a gente tem escutado com mais frequência que o cenário epidemiológico é preocupante. Qual é o cenário real neste momento?

    Nosso Estado, pelo fato de ter tomado a decisão no momento certo e de abrangente, mesmo em cidades que ainda não tinham casos, deu um recado muito forte à população. Na terceira semana já começamos a trabalhar a retomada de atividades e isso não interferiu na curva. Nossa taxa de transmissibilidade se manteve durante toda a pandemia. Agora, ela muda o cenário porque estamos entrando no nosso pico, naquilo que já era projetado. Junho, julho seriam os meses em que teríamos maior transmissibilidade pela presença maciça do vírus no território. Temos municípios que não registram casos, mas sabemos que é bem provável que todos já tenham casos. As pessoas não podem deixar de levar a sério as recomendações do governo. Vemos isso como a possibilidade manobrar essa situação. O que vai acontecer daqui para frente depende de todos nós. Estabelecemos essa política regionalizada, para que haja intervenções nas cidades ou regiões de forma colegiada com os prefeitos e secretários de Saúde. Essa é a realidade, não tem como viver essa pandemia seis meses dentro de casa. As pessoas precisavam produzir, a indústria nunca parou em SC, o comércio em algumas áreas sempre funcionou. A aceleração do contágio é natural da vida em sociedade, não tem como fugir disso. Vamos ter que conviver de forma responsável.

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    Upiara Boschi – Mas esse temor de aumento de contágio surge logo depois que o governo, atendendo a pressões, deu maior autonomia aos prefeitos para tomada das decisões. Tem relação?

    Penso que não, porque não houve muitas mudanças. Houve resistência de algumas regiões, por pressões sociais, de liberar situações. Todo o Estado recebeu as liberações, algumas (regiões) seguraram um pouco. Em alguns lugares o aumento de casos foi fruto da atividade industrial, era natural as pessoas se contaminaram porque estavam trabalhando em ambientes que favoreciam o contágio. A gente precisa é continuar fazendo a gestão dessa crise. Contra fatos não há argumentos, a gente olha os nossos números e eles são os mais favoráveis na comparação, especialmente aqui da região Sul.

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    Faraco - Mas neste momento qual é o papel do Estado? O Estado transferiu responsabilidade?

    O Estado tem o papel de dar informação para que a tomada de decisão seja regionalizada. Para que não tenhamos a penalização de uma região ter que ficar em casa sem casos de contágio ou uma taxa de transmissão muito alta. Essa região temos que flexibilizar. Legalmente a gente entende que o Estado não pode decretar o fechamento para município a, b ou c. O decreto é para o Estado de SC. O governo pode interferir em um CNPJ em determinadas cidades, junto com a Vigilância Sanitária, órgãos de fiscalização, mas não no município. O formato que temos hoje não é abrir mão de responsabilidade, é dar instrumentos legais adequados para que a autoridade sanitária legal do município seja exercida. Por isso não há questionamento quando a autoridade municipal é exercida em desfavor de decisões estaduais e federais.

    Faraco – É possível garantir que o Estado não vai ter problemas futuros no que diz respeito à estrutura de saúde?

    Essa é a nossa esperança. Esse esforço todo de achatamento da curva de contágio, essa busca por equipar os hospitais, que conseguimos com a solução genuinamente catarinense, que foi a WEG, a empresa (de Jaraguá do Sul) que trouxe essa solução (respiradores) aqui para o Estado. Estamos recebendo no tempo aprazado, estamos equipando os hospitais. Temos um lastro ainda para receber de equipamento que podemos direcionar para determinada cidade que esteja esgotando a capacidade de leitos de UTI, fazendo uma manobra que seja de acordo com a demanda. Obviamente isso não pode dar ao município a tranquilidade de que o governo vai trazer com os respiradores. Para montar um leito de UTI, o ideal é que ele seja habilitado para que seja remunerado (pelo SUS), se não o hospital sozinho não tem condições de bancar, e também há uma demanda por outros equipamentos, medicamentos e, o mais importante, recursos humanos. Não é uma manobra simples abrir um leito de UTI. As pessoas têm que continuar firmes no propósito (de evitar o contágio).

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    Upiara - A gente viu no fim de semana passado aquelas cenas de lugares cheios, praias, parques. Em Florianópolis isso levou à reação do prefeito Gean Loureiro (DEM), que ampliou as restrições. Como o senhor viu essas cenas?

    Eu mesmo fui vítima de cenas anguladas que não mostravam a realidade (cita a repercussão sobre a presença em uma festa junina em um hotel de Gaspar em que estava hospedado). Não posso pegar a foto de um ângulo e dizer que está ruim. Depois me mostraram outras informações, fotos aéreas, que em algumas circunstâncias que foram apontadas aí em que havia o distanciamento (fala das imagens do público no Parque Beto Carrero). Não cheguei a analisar, medir, os órgãos responsáveis têm a liberdade de fiscalizar. Imagens nem sempre representam aquilo que efetivamente a gente vê. Fora isso, aí é o momento de a gente exercer a competência. Penso que uma comunidade inteira não pode ser prejudicada neste momento em que agora temos regras. Trabalhamos diuturnamente para estabelecer regras para cada atividade, procedimentos de segurança. Quem aderiu, entendo que deve continuar funcionando. Quem infringir a regra, seja lá por qualquer razão, deve ser notificado.

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    Upiara – Podemos entender que o senhor considera que o prefeito Gean Loureiro foi rígido demais nesta decisão?

    Não quero julgar o ato do prefeito, tive tantos atos meus julgados. Agi de uma forma e entendo que o momento agora é de intervenções pontuais e do uso da fiscalização. Claro que se uma região apresentar casos muito extremos de taxa de transmissibilidade aumentada, número de óbitos, a intervenção regionalizada para parar a atividade por sete dias, 15 dias, nos dá o achatamento da curva e nos faz a manobra de liberação de leitos de UTI. Temos que trabalhar com números, com dados, com a ciência. É o que fizemos desde o começo. Achar, ter opinião, achar que a decisão é correta, tenho que sentar e ver o caso em concreto para poder me posicionar.

    Penso que uma comunidade inteira não pode ser prejudicada neste momento em que agora temos regras. Trabalhamos diuturnamente para estabelecer regras para cada atividade, procedimentos de segurança. Quem aderiu, entendo que deve continuar funcionando. O momento agora é de intervenções pontuais e do uso da fiscalização

    Faraco – Acredita que situações como a da compra dos respiradores, a repercussão da imagem no hotel em Gaspar, essa aparente sede que vem da Alesc em relação ao trabalho do Executivo tem desviado o foco do governo na estratégia de combate à Covid-19?

    Penso que nosso trabalho na estratégia de combate à Covid-19 tem brilho natural, porque os número se apresentam muito bem para SC e organismos externos têm feito essa avaliação colocando o Estado em primeiro lugar na gestão dessa crise. Não tira o brilho, temos muito mais notícias boas para falar do governo do que eventualmente algum erro pontual em determinado procedimento. SC vai bem nesse quesito. Quando você fala de outros agentes como Alesc, poderes, enfim, esta semana ainda nos reunimos aqui porque todos eles têm interesse na economia, no retorno das atividades econômicas, para fazer um grande gesto. A ideia é criar um fundo garantidor que nos alavanque quiçá R$ 1 bilhão para injetar no mercado catarinense, com juros justos, para as pessoas se reinventarem. Penso que tudo que acontece hoje em relação aos outros poderes, sempre respeitei todos os chefes e membros dos outros poderes e vou manter esse comportamento. Sobre as imagens de Gaspar, foi um caso em que não houve um ângulo adequado. Eu estava com um copo na mão e a máscara no outro. Não era uma festa.

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    Faraco – O senhor concorda que repercutiu bastante…

    Repercutiu, claro. Pedi desculpas aos catarinense, mas penso: é isso que escolhem para expor? O governo tem notícias muito boas, acho que isso é pequeno, respeitei as normas colocadas para aquele ambiente, estava de máscara e retirei para beber algo. Obviamente que a cena não foi das melhores e por isso me retratei, independente de entrar nesse detalhe desse assunto, que é irrelevante, se me sinto injustiçado ou não. Quem está nesse lugar em que estou, é o tempo todo uma imagem, uma frase fora de contexto. Não é um lugar fácil de estar.

    Upiara – Uma coisa que se percebe no governo é a partir que ele rompe o elo com o bolsonarismo, que tem alguns representantes na Alesc que são do mesmo partido que o senhor, mas lhe fazem oposição, é que a administração não tem torcida, um grupo engajado e disposto a defender as ações. Como fazer para conquistar, mais do que apoio, a torcida?

    Essa torcida naturalmente já começa a acontecer. A gente integra vários grupos que trabalharam conosco em várias campanhas e estão de acordo com várias ações do governo. Eles começam a surgir agora. Essa ideia de falar que há uma ala bolsonarista que se afasta do governador, veja, nunca nos afastamos do presidente Jair Bolsonaro. Fora do contexto sai alguma frase que parece estar sendo contra, mas o que o presidente tem feito lá nós também estamos fazendo. O primeiro escalão técnico, competente, nós também colocamos aqui. A maioria do primeiro escalão é de carreira. Infraestrutura, Administração, Fazenda, sistema prisional. As principais pastas do governo, aquelas gigantes, têm servidores de carreira à frente. O presidente também tem feito isso, colocando técnicos nos ministérios. A gente vê governos muito parecidos nesse sentido, de austeridade, boa utilização do dinheiro público. Nossos objetivos são os mesmos. Não há um afastamento. Vejo que alguma ala pode ter feito algum ruído por interpretar equivocadamente algumas ações. Não somos iguais, temos nossas diferenças pontuais, mas os ideais continuam os mesmos.

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    Upiara – Vai buscar uma reaproximação com o presidente Bolsonaro?

    Particularmente nunca estive longe do presidente, sempre o respeitei muito.

    Upiara – Mas ele lhe criticou fortemente lá no cercadinho do Alvorada…

    Talvez as informações que cheguem ao presidente tenham chegado distorcidas. Ele falava do fechamento do Estado, quando já estávamos abrindo. Penso que uma boa conversa com o presidente, inclusive trazendo-o aqui, pode mostrar a ele que o Estado fez a lição de casa. Acredito que isso em breve pode acontecer.

    Faraco – O senhor está disposto a isso?

    Sim, não tenho dúvida. O presidente da República, não só pela liturgia do cargo, mas pelo que ele tem feito. Tenho recebido os ministros aqui. Esta semana, se der certo, talvez receba a ministra Damares (Alves, ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos), recebi o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles. Converso com vários ministros diariamente, eles me atendem, quando vou a Brasília sempre sou bem recebido. Respeito muito a agenda do presidente, porque comparo com a minha, que é de governo, pesada também, e só imagino como deve ser a vida de um presidente da República. Então, tem toda minha reverência de não querer ir lá só tirar foto. Quando tenho uma demanda, falo com o presidente.

    Faraco – Recentemente?

    Este ano também. O presidente não é uma pessoa fechada para SC. Começa a se criar uma imagem de antagonismo de pessoas que nunca foram antagônicas. Isso aconteceu até em relação ao próprio Estado. São questões políticas. As pessoas plantam ideias, plantam comentários e quando você vê isso está incendiado. Cabe a nós usar a inteligência e falar a verdade. Se a expressão é reaproximação, vamos fazê-la, sim.

    A gente vê governos muito parecidos nesse sentido, de austeridade, boa utilização do dinheiro público. Nossos objetivos são os mesmos. Penso que uma boa conversa com o presidente, inclusive trazendo-o aqui, pode mostrar a ele que o Estado fez a lição de casa

    Faraco – E em relação à Assembleia, o senhor avalia que em 2019 se fechou muito nesse diálogo? Se pudesse voltar atrás teria aberto mais essa relação com os deputados?

    Acho que 2019 foi muito bem. Talvez eu não tenha a visão do que seria o perfeito nesse relacionamento com a Alesc. Para mim, 2019 foi bom. Tínhamos uma base, não era uma base grande, mas era suficiente para aprovar nossos projetos. Fazíamos entregas juntos. Depois veio a pandemia e ela nos afastou a todos, inclusive nós e os deputados. Não conseguíamos mais nos reunir, virou uma condição de muito esforço, pressão, tensão. Acho que hoje estamos realinhando, conversando com os deputados. Eles também conhecem o governador, sabem da minha índole. Isso está sensível hoje, mas acho possível realinhar.

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    Upiara – Antes da pandemia há um momento que para mim é emblemático sobre essa relação e gostaria de saber como o senhor avalia. É o momento em que o então secretário da Casa Civil, Douglas Borba, assume também a secretaria-geral do PSL, em janeiro. Os interesses passaram a se confundir e isso teve efeito na base do governo na Alesc. O senhor entende que foi um erro?

    É possível que sim. É possível que não fosse ideal um secretário que se relaciona com os deputados, mesmo que não havendo pretensão política, pode se começar a imaginar que tenha, por estar relacionado ao partido. A Casa Civil sempre foi uma pasta que se relacionou com os agentes políticos, onde normalmente se coloca um político. Hoje, não, o Amandio (João da Silva, atual secretário) é um empresário. Vai ter que se relacionar com os políticos, mas não tem interesse político-partidário, provavelmente não se filia a partido algum. Admitir erros? Pode ter sido um erro (Borba) estar muito próximo ao partido, pode ter causado estranheza a alguns parlamentares. Mas não acredito que isso tenha afastado a Casa Civil dos parlamentares, porque eles sempre foram muito bem atendidos.

    Upiara – Existe a possibilidade de vermos um deputado no secretariado do governo Moisés?

    A possibilidade nunca pode ser rechaçada. Não há planos e não há deputados cotados, pelo menos pelo governo, para exercerem secretarias. Mas havendo a ligação entre capacidade técnica e o parlamentar, não podemos demonizar o político.

    Não há planos e não há deputados cotados, pelo menos pelo governo, para exercerem secretarias

    Faraco – Mas há um pré-requisito, político e técnico…

    Sim, tem que ter essa condição de ser um bom gestor na área em que ele vai atuar. Mas não se cogita hoje, não há nenhum planejamento nesse sentido, a gente não conversa sobre esse assunto no governo. Tanto que a gente anunciou recentemente mais duas pastas importantes, titular e adjunto, a Jucesc foi substituída também. São pessoas que precisam ter passado pelo setor. É preciso ter alguém talhado para isso.

    Faraco – Teremos outras trocas no primeiro escalão?

    É possível, não temos nada mapeado de imediato. Estamos ainda enfrentando essa pandemia, a troca de secretariado não é objetivo número um. Se há inadequação, a gente no caminho vai avaliando.

    Faraco - Mas têm acontecido trocas…

    É natural que o governo faça ajustes.

    Upiara – O governo perdeu dois ícones que vinham da campanha eleitoral. Lucas Esmeraldino era o candidato a senador, deixou o Desenvolvimento Econômico para ir para a Secretaria de Articulação Nacional, e Douglas Borba que era assessor e virou secretário da Casa Civil. O governo está se reinventando sem eles?

    O Amandio vai muito bem na Casa Civil mesmo sem ter sido político. O Lucas, sim, é um político. Essa secretaria em Brasília tem esse viés de facilitar a vida das prefeituras, receber as pessoas que às vezes não sabem onde ficam as coisas. É um papel que se adequou mais ao secretário Lucas, penso que ele está no lugar certo na hora certa.

    Faraco – Sobre a compra dos respiradores. Esta semana o processo subiu para o Superior Tribunal de Justiça (STJ) por citações ao nome do senhor nas conversas. O senhor entende que é um rito normal ou que há exagero?

    Não posso fazer juízo de valor até porque o processo subiu justamente pela prerrogativa de foro do governador. A gente se manifesta no processo. Também entendo que é rito. Quem fez esse juízo de valor foi o juiz local e o grupo de investigação e a gente tem que aguardar ele ser reiterado ou não.

    Upiara – Essa compra mergulhou o governo em uma crise política paralela à crise da pandemia. Um processo que gerou prejuízo ao Estado, uma CPI e a saída de dois secretários importantes do governo. O senhor como governador do Estado, olhando para esse processo todo, consegue enxergar o que deu errado?

    O que aconteceu é objeto de investigação também, inclusive determinada por nós. Assim que tive conhecimento, primeiro com a entrega e depois com o pagamento antecipado. O primeiro problema, com a entrega, nos trazia incerteza de poder equipar nossos hospitais. Aí envolve vidas, o que nos deixou muito preocupados só pelo simples fato de não chegar o equipamento. Depois, o risco da lesão ao erário público. Quando se soube disso depois de duas sindicâncias internas, uma específica para esse fato, entendi que era caso de polícia. Chamei o delegado-geral Paulo Koerich, acionamos Interpol para seguir esse dinheiro. Na sequência, chamamos a Procuradoria-Geral do Estado que fez o bloqueio de bens através do processo judicial. Temos R$ 13 milhões já garantidos para o erário e temos a expectativa de repatriar o dinheiro que foi mandado para a China. Penso que nesse caso dos respiradores é isso aí. Se houve erro, as pessoas devem ser responsabilizadas. E o governo não foi omisso, quando soube tomou medidas adequadas para ressarcimento do erário. Esse é o papel de um governador.

    Upaira – Os subordinados do senhor não levaram muito tempo para levar esse caso ao conhecimento do governador?

    Não avalio assim, porque vários demoraram a saber os detalhes desse processo na cadeia de compra.

    Faraco – O senhor ficou sabendo quando?

    Dia 20, se não me falha a memória, dia 21 de abril era feriado. Depois dia 22 conversei sobre a questão do pagamento adiantado, chamei a polícia no dia 23. E assim foi, as decisões rigorosas foram sendo tomadas. Infelizmente aconteceu, tenho esperança de que vamos recuperar a totalidade desses valores, ou pelo menos a maior parte.

    Faraco – Isso o pós. A gente recebe muitos questionamentos dos catarinenses sobre o processo em si de compra. O nome “governador” foi citado por duas pessoas, uma delas está presa. O governador participa do processo de compra, em algum momento conversou com empresários? Qual a participação do governador?

    Nenhuma. Absolutamente nenhuma. Governador dá o conceito. Estávamos olhando o mundo sobre como se fazia com a pandemia. Ficamos avaliando, olhando os casos no Brasil e no mundo. Quando se dá o primeiro caso (de contágio) comunitário, faz o lockdown. Quando chegou no dia 15 de março, identificamos o primeiro caso comunitário no Sul do Estado. Emitimos o decreto. Tomada essa decisão, o Estado apresentou a contenção dos casos. O que se faz agora? Compra de equipamentos, novos leitos de UTI e leitos de retaguarda. Várias hipóteses, muitas ideias, até que a gente chegou à conclusão de que era muito melhor investirmos nos hospitais próprios e filantrópicos, eventualmente nos privados alugando leitos, do que construir novos hospitais, alugar equipamentos. Tudo que a gente compra, fica para o Estado. Aí fomos à busca. Primeiro movimento, fechar o Estado. Segundo, equipar a rede pública hospitalar. E a gente conseguiu, graças a Deus, nosso trabalho foi exitoso. Não podemos ficar abraçados a um erro pontual. A gestão da Covid-19 em SC foi muito boa. No começo ninguém sabia o que fazer, era uma grande interrogação, não existia uma receita de bolo, um caminho “faça isso que vai dar certo”.

    Faraco – Mas em relação à compra dos respiradores, alguma participação?

    Absolutamente não. A participação do governador foi essa: a tomada de decisão, “nós precisamos fazer isso, vamos comprar respiradores”. Utilizamos empresas privadas que também não conseguiram trazer os respiradores, empresas que se dispuseram gentilmente a fazer a compra.

    Upiara – Esse é o “momento de desespero” a que o senhor se referiu na live do Lide?

    Não houve desespero, estávamos fazendo gestão da crise. Penso que algumas pessoas, talvez com o senso de responsabilidade que pesava sobre elas, devem ter ficado realmente em pânico dizendo “se nós fechamos o Estado para ter tempo de equipar e não conseguimos equipar, fica muito ruim”. Todos correram para buscar a mesma coisa, todos os estados. Os preços subiram, muitas incertezas na entrega, modelos. Com o tempo fomos descobrindo que alguns respiradores não serviam para a Covid-19. Eram fatos novos. Todos se transformaram em especialistas, porque hoje a imprensa fala muito de respiradores. Eram coisas que não estavam no cotidiano.

    Primeiro movimento, fechar o Estado. Segundo, equipar a rede pública hospitalar. E a gente conseguiu, graças a Deus, nosso trabalho foi exitoso. Não podemos ficar abraçados a um erro pontual. A gestão da Covid-19 em SC foi muito boa

    Upiara – Tem acompanhado a CPI dos Respiradores na Alesc? Faz alguma avaliação dela?

    Não tenho tempo, a rotina do governador é muito intensa. Não ouço, não acompanho a CPI. Estamos resgatando projetos, estou indo às cidades. O governo não para, não podemos ficar abraçados à questão dos respiradores, com a questão Covid-19. A gente acredita que devemos resguardar as vidas e fazer com que a nossa economia retome a atividade.

    Não ouço, não acompanho a CPI

    Upiara – O ex-secretário da Casa Civil, Douglas Borba, era quase um primeiro-ministro do governo de tantas atribuições que tinha. Não vou pedir para o senhor avaliar se é justo ou não ele estar preso neste momento, mas quero saber se o grau de confiança em Douglas Borba hoje é o mesmo que o senhor tinha seis meses atrás.

    Não posso avaliar enquanto não há conclusões. Não posso fazer juízo de valor. Todos os que trabalham comigo gozam da minha confiança. Não me cabe neste momento, com processo em andamento, fazer juízo de valor.

    Faraco – Essa foi a pior notícia que o senhor recebeu no mandato? Criando aqui um cenário que o senhor pode detalhar, alguém chegou e disse “governador, houve uma compra totalmente errada e há indícios de que o braço-direito esteja envolvido”. Como o senhor recebeu essa notícia?

    Essa notícia não chegou dessa forma. Trabalhamos arduamente para recuperar os valores e esclarecer os fatos. Ao final, as teses foram sendo corroboradas pela Justiça. Ou atendidas, pelo menos as teses. E, repito, não cabe ao governador fazer juízo de valor. É um momento triste. Como recebi? Recebi com extrema tristeza, desde o momento da compra e dos atos que se seguiram nessas situações de investigação.

    Upiara – Há pedidos de impeachment contra o senhor na Alesc, em análise na procuradoria da instituição. Eles lhe tiram o sono?

    Não, a única coisa no governo que tirou meu sono foi quando tivemos que fechar o Estado. Sempre dormi muito bem. Até 17 de março, dormi muito bem enquanto governador. Tirar as pessoas das atividades, os setores de operarem. Depois ter que rapidamente criar regras para que a vida fosse preservada em primeiro lugar, mas também a atividade econômica, os empregos, a renda das pessoas. Isso tudo me tirou o sono porque demandou um esforço muito grande tanto para preparar nosso Estado para essa demanda por leitos por UTI, quanto conciliar a preservação da vida e da economia. Não tenho tempo para me preocupar com as coisas que já tem gente trabalhando para isso. Temos órgãos de controle, os órgãos que fiscalizam, que processam. O governador não deve se envolver. Tenho que cuidar dos catarinenses, foi o que fiz a vida inteira, cuidar de gente, cuidar das pessoas. Essa é a minha história. A minha história na corporação, além de passar a vida inteira de forma íntegra, me fez saber o compromisso que tinha com o serviço público. Prestei relevantes serviços ao Corpo de Bombeiros e hoje continuo cuidando de pessoas. Eu me sinto em um lugar muito confortável, apesar de estar muito cansado e ter tido muito trabalho nos últimos meses.

    Faraco – Que mensagem o senhor manda ao povo de SC? O senhor acredita que a confiança desse povo segue a mesma do começo do ano passado?

    Tenho certeza de que o governo goza da confiança dos catarinenses. Eu era um desconhecido. Fomos eleitos, como se costuma dizer, na onda Bolsonaro, não tenho a menor dúvida que influenciou essa eleição. Defendemos o presidente durante a eleição em todos os tempos, nos debates, e juntos tivemos uma eleição vitoriosa. O presidente com 54% dos votos no Brasil e nós aqui com 71%. Esses 71% dos catarinenses confiam no governador, mas vou dizer: 100% dos catarinenses hoje confiam no governador. Esses 71% votaram muito sem conhecer, talvez em Tubarão, aqui em Florianópolis, mas muita gente no Estado não me conhecia, fez uma escolha e tem o resultado hoje da nossa gestão. O meu compromisso com o povo catarinense de fazer uma gestão técnica, que foi o que o presidente Jair Bolsonaro prometeu e fez. E isso também aconteceu aqui no Estado, com uma gestão técnica, sem indicações políticas. No primeiro ano organizamos o Estado, tiramos de um déficit de R$ 1,5 bilhão para um superávit de R$ 166 milhões. Os catarinenses não vão acreditar no que ouvem, mas no que efetivamente acontece. Eles estão sentindo a diferença, onde vou em Santa Catarina as pessoas dizem “isso nunca aconteceu e está acontecendo”. 

    Apesar de tudo que tenho sofrido, todas as dificuldades, todos os ataques deliberados, o catarinense me vê firme no propósito. Não negociei, não entreguei o governo. Não tenho a mínima dúvida de que o catarinense confia e continuará confiando que nós faremos o melhor governo na história desse Estado.

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