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Entrevista

"É uma violência que visa o terror, onde o escudo humano é recorrente", diz pesquisadora sobre novo Cangaço

Doutora em antropologia, Jânia Perla D. de Aquino pesquisa sobre assaltos a bancos, como o ocorrido em Criciúma na última terça-feira, dia 1º

05/12/2020 - 06h08 - Atualizada em: 05/12/2020 - 10h58

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Por Ângela Bastos
fita de isolamento no local do crime
"É uma violência que visa o terror, onde o escudo humano é recorrente", diz pesquisadora sobre novo Cangaço
(Foto: )

“Violência e performance no chamado ‘novo cangaço’: Cidades sitiadas, uso de explosivos e ataque a polícias em assaltos contra bancos no Brasil” é o objeto de pesquisa da doutora em Antropologia Jânia Perla Diógenes de Aquino, professora e pesquisadora do Laboratório de Estudos da Violência da Universidade Federal do Ceará. 

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Ela estudou assaltos contra agência bancárias, como o ocorrido em Criciúma, os quais são caracterizados por abordagens truculentas, impactantes e com performances agressivas para desencorajar reações aos assaltantes em ação. Além disso, ela se preocupou em discutiu questões relacionadas ao uso do termo “novo Cangaço”

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A pesquisa aponta que os coletivos criminais, quase sempre formados por assaltantes nascidos e atuantes em diferentes estados do país, mobilizam logísticas modernas e continuamente incorporam técnicas de atuação do crime urbano, inclusive das maiores facções criminais do país.

Jânia conta que procurou se concentrar no que chama socialidade das quadrilhas, destacando que desde os anos 1990 passaram a predominar no universo dos assaltos contra instituições financeiras, onde os participantes investem, além de saberes e técnicas, quantias consideráveis no planejamento e na infraestrutura de ações criminais, cujas somas obtidas são divididas.

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Confira mais na entrevista a seguir: 

O que levou você a se interessar por esse tema do “novo Cangaço”?

A partir dos anos 1990, aumentaram muito as ocorrências de assaltos em instituições bancárias, financeiras, seguradoras. Foi meu tema de dissertação na graduação, pois eu percebi que tinha um aspecto social muito importante, a partir dos reflexos para as comunidades onde ocorriam. Por mais que seja associada ao fenômeno do cangaço, uma prática do século passado em parte de Minas Gerais e em regiões do Nordeste, o que vejo em comum é a postura de afronta às forças de segurança pública.

Quanto a outras características pode-se dizer que é bastante limitado, pois esta modalidade de crime é altamente planejada, com logística sofisticada, há uso de muito dinheiro, conta com a divisão de tarefas e com pessoas com muita experiência no planejamento.

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Além dos valores roubados e dos danos ao patrimônio, quais outros prejuízos esta prática criminosa acarreta?

A ocorrência, principalmente, se faz em cidades de pequeno e médio porte. Isso gera impacto psicológico nas populações, pois destroem fisicamente os prédios e também os imóveis próximos, como pontos comerciais. Temos casos em todo o Brasil em que agências bancárias fecharam, e isso é muito ruim para os moradores que ficam limitados no uso dos serviços.

Há, também, forte impacto nas economias das cidades. Além dos danos psicológicos pelo medo, o rastro de destruição material que este tipo de crime gera é muito grande. 

mulher de cabelos longos de vestido sentada de frente para a camera
Jânia é pesquisadora do Laboratório de Estudos da Violência da Universidade Federal do Ceará
(Foto: )

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O fato de se chamar “novo Cangaço” pode aumentar o preconceito com os nordestinos?

Estamos diante de uma modalidade de crime muito bem elaborada, com atuação em todo país e formada por quadrilhas de vários estados, uns naturais e outros de fora dos estados. Não são pessoas só do Nordeste, mas do Nordeste com Sudeste, e do Centro-Oeste, a quadrilha tem uma formação variada.

O termo pode levar a um entendimento que seja uma violência mais instintiva, mas não é, é tudo muito bem planejado. É uma violência que visa o terror, onde o escudo humano é recorrente, e com isso atrasam o trabalho da polícia. Deve ser encarado como um crime bem elaborado.

As polícias de SC admitem terem sido surpreendidas e não desconfiar de nenhuma presença estranha durante o planejamento. Isso é comum?

Estamos diante de quadrilhas interestaduais. A forma como os assaltos são organizados tem característica do crime urbano e participação de facções criminais, como o PCC, crime altamente organizado. Esta que atacou Criciúma, deve ter pessoas do Estado que forneceram dados sobre a cidade, sobre as rotinas de funcionamento, mas também de outros lugares.

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Você enxerga alguma forma desse crime ser combatido?

Para o sistema financeiro nacional é importante investir em infraestrutura, mas também sobre a circulação de dinheiro. Acredito que o sistema Pix (nova maneira de fazer transferência e pagamentos anunciado recentemente pelo Banco Central) vá reduzir os assaltos por causa que diminuição da quantidade de cédulas em circulação e que ainda é bastante elevada. Muito dinheiro num mesmo lugar, como ocorreu em Criciúma já que era tesouraria e em datas importantes de pagamentos, é atrativo. É importante reduzir a circulação de dinheiro em espécie no país.

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