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Chacina no Oeste

Um mês após ataque a creche em SC, Saudades reforça segurança e tenta recomeçar

Unidade passou por reforma com transformação da sala em que ocorreu o crime; município estuda memorial

04/06/2021 - 05h00

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Jean
Por Jean Laurindo
Sala em que ocorreu o ataque foi transformada em área de circulação com objetos feitos por voluntários
Sala em que ocorreu o ataque foi transformada em área de circulação com objetos feitos por voluntários
(Foto: )

O ataque a creche que deixou cinco pessoas mortas em Saudades, no Oeste de Santa Catarina, completa um mês nesta sexta-feira (4). Nesse período, a cidade se mobilizou para oferecer um recomeço aos 74 alunos da unidade, enquanto famílias e amigos tentam superar a perda das três crianças e duas professoras.

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A escola Pró-Infância Aquarela ficou fechada por 20 dias após o crime. Ela foi reformada com a ajuda de voluntários da comunidade. Os espaços foram revitalizados e ganharam nova pintura, com a intenção de apagar as memórias do dia de terror vivido no local. A unidade foi reaberta para aulas em 24 de maio.

A sala em que ocorreu o ataque foi transformada em um espaço de circulação. No local, foram colocados enfeites produzidos pelos voluntários para tentar dar nova vida ao local.

Os momentos de dor também geraram alerta a preocupação. As cinco escolas municipais receberam sistema de porteiro eletrônico com vídeo e também passaram a contar com vigias, contratados de forma emergencial. Câmeras de monitoramento também estão em fase de compra e devem ser instaladas em frente às unidades de ensino. Na semana seguinte à tragédia, em movimento semelhante, o governo do Estado anunciou que irá contratar vigilantes para as 1.064 escolas estaduais de SC.

A escola Aquarela atende 74 alunos e praticamente todos voltaram a frequentar as aulas, segundo a secretária de Educação de Saudades, Gisela Hermann. O município oferece atendimento psicológico às crianças que necessitam, mas na próxima semana uma equipe de 25 profissionais deve reforçar esse serviço na rede municipal de ensino.

– Alguns ficam emocionados, mas de modo geral, as crianças superaram. Elas conseguem se distrair com os outros colegas, quando veem já estão brincando. Mas claro, quando a gente chega novamente à escola, vêm aquele dia na cabeça – conta a secretária.

Proposta de memorial para as vítimas

A prefeitura de Saudades também planeja a construção de um memorial em homenagem às vítimas da chacina. O assunto foi discutido esta semana em reunião com o governo de SC, mas ainda está em fase inicial. Segundo o município, a construção em alusão às pessoas mortas no ataque deve ficar no mesmo espaço de um novo centro de educação, mas ainda não há definição de como e onde ele será erguido. A administração ainda deve contratar a elaboração do projeto executivo da nova unidade de ensino, para então definir detalhes do espaço e do possível memorial.

Auxílio às famílias

As famílias das vítimas da chacina recebem apoio da área de assistência social de Saudades. O acompanhamento ocorre desde o dia do crime. Atualmente, a equipe faz visitas e atendimentos aos familiares para oferecer apoio. O município informou que as assistentes recebem auxílio de profissionais de referência em emergências e destrates, como o serviço de saúde mental do município de Suzano (SP), onde também houve um ataque com mortes em uma escola, em 2019.

“É uma coisa que vai ficar marcada”, diz amiga de vítima

Moradores deixaram homenagens às vítimas em frente à creche após o ataque
Moradores deixaram homenagens às vítimas em frente à creche após o ataque
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As medidas de reforço na segurança e de renovação na creche em que ocorreu o ataque são apenas uma parte das mudanças ocorridas no último mês. A dor das famílias que perderam filhos e amigos é outro campo que exige transformações em Saudades.

Alguns familiares tentam evitar o assunto como forma de superação. Nas redes sociais, postagens de mães das crianças deixam revelar o momento difícil de perda e assimilação.

Jamile Müller era amiga de Mirla Renner, agente educadora da escola Aquarela e uma das cinco vítimas do ataque. As duas foram colegas de trabalho em outra escola de Saudades dois anos antes e, desde então, se aproximaram.

No último dia 4 de maio, soube por mensagens de Whatsapp da chacina na escola em que a amiga atuava e, minutos depois, que ela estava entre as vítimas.

– Ela era meiga, quietinha, delicada, pró-ativa, topava o que chamávamos para fazer, e colocava os estudos sempre em primeiro lugar. Foi horrível. Fiquei sem dormir vários dias, sonhei muito com faca. Hoje procuro não tocar muito no assunto, não pensar tanto – conta.

Nas últimas semanas a amiga se colocou à disposição da família de Mirla, mas evitou fazer contato para evitar “tocar na ferida”. Apesar do esforço coletivo para esquecer ainda que por um período o terror vivido pela cidade, Jamile pondera que a lembrança deverá persistir na cidade.

– As pessoas ainda comentam, vai ser uma coisa que vai ficar marcada, não adianta. As aulas retornaram, foi feita a reforma, os clubes de serviço participaram, mas não adianta. Quem esteve presente no momento vai ter que aprender a superar, conviver com a situação, e quem perdeu os familiares, da mesma forma – aponta.

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Uma professora que atua na unidade e prefere não divulgar o nome diz que nessas duas primeiras semanas de recomeço, a memória do dia 4 de maio ainda aparece ao sinal de algum barulho ou pessoa estranha na creche. As crianças, que ficaram três semanas em casa antes de voltarem às aulas, experimentam uma rotina com mudanças, que têm conseguido afastar as lembranças do ataque.

– Medo a gente sempre sente, mas eu fico grata pelo apoio principalmente das famílias, que voltaram com as crianças. Porque o medo é de todos, mas a coragem de vir, a confiança que eles continuam depositando, é gratificante – conta.

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Autor do ataque segue preso e se tornou réu

O autor do ataque à creche de Saudades permanece detido no Presídio Regional de Chapecó desde o dia 12 de maio, devido a um mandado de prisão preventiva. Antes disso, ele estava sob custódia da polícia no Hospital Regional do Oeste, para onde foi levado após o crime. O autor sofreu ferimentos e ficou oito dias internado por ter tentado suicídio, de acordo com a polícia.

No último dia 24, a Justiça aceitou a denúncia apresentada contra ele por cinco homicídios triplamente qualificados e 14 tentativas de homicídio. Na acusação, o Ministério Público de Santa Catarina argumentou que o jovem “tinha idolatria por assassinos em série e crimes de extremo ódio” e que planejou o crime por cerca de 10 meses. O promotor de justiça Douglas Dellazari definiu a motivação do crime como “repugnante e imoral”. Segundo especialistas, em caso de condenação a pena pode ser superior a 100 anos.

O juiz da Vara Única de Pinhalzinho, Caio Lemgruber Taborda, determinou também que o processo corra em segredo de Justiça. A fase atual é a de prazos para manifestações da defesa do réu e do Ministério Público. Na semana passada, a defesa do autor teve dois pedidos de sanidade mental do jovem negados pela Justiça. A reportagem tentou contato com o advogado do acusado nesta quinta-feira (3), mas não obteve retorno até a publicação.

Caso acelera criação de unidade sobre crimes pela internet em SC

A investigação do crime se baseou em grande parte em pesquisas feitas na internet pelo autor do ataque. Na última semana, o Ministério Público de Santa Catarina (MP-SC) divulgou uma parceria com o MP de São Paulo para a criação no Estado de uma unidade especializada em investigações de crimes cibernéticos – chamada de Cyber Gaeco. O órgão confirmou que o massacre na creche de Saudades e a forma como ele foi planejado acelerou o acordo para trazer a iniciativa a SC.

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