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    Cartão postal da Ilha de SC

    "Marca no coração", diz frequentador do Mercado Público de Florianópolis ao lembrar incêndio há 15 anos

    Comerciantes e frequentadores recordam do fogo que destruiu parte do prédio, um dos cartões postais da Ilha de Santa Catarina

    19/08/2020 - 05h00 - Atualizada em: 19/08/2020 - 14h12

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    Por Ângela Bastos
    Mercado Público de Florianópolis
    Mercado Público de Florianópolis
    (Foto: )

    A nuvem de fumaça escura era avistada de diferentes pontos de Florianópolis. Naquela manhã de 19 de agosto de 2005, uma fritadeira superaquecida provocou um incêndio que assustou a cidade. Quinze anos depois, o epicentro do fogo, o Mercado Público de Florianópolis, mudou o visual. As paredes amarelo-ouro e as portas verde-oliva continuam a preservar o espaço de trocas de saberes. Assim como o experimento de sabores. O prédio de 120 anos esteve meses fechados, passou por obras nas duas alas e se modernizou.

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    A ala sul foi totalmente revitalizada e os 54 boxes padronizados. Um sistema preventivo de incêndios pretende fazer do fogo apenas lembranças. Como do iniciado numa lanchonete da ala sul e que destruiu 50% da edificação. A perícia concluiu que as chamas foram jogadas para dentro do exaustor do prédio, que por não passar por limpeza tinha gordura acumulada. Foi um estopim. O teto desabou. Além disso, as mangueiras do sistema hidráulico estavam furadas e sem condições de uso. Dos três incêndios sofridos, o de 2005 foi o maior da história do mercado.

    Marcos Aurino dos Santos, o Marquinhos, lembra bem daquela manhã. Seguia pela Via Expressa do continente em direção ao Centro, pouco antes das 7h, quando ouviu a notícia no rádio do carro. Entendeu que a nuvem de fumaça escura saía do lugar onde a família mantém, há 70 anos, o Açougue do Aurino. Telefonou para casa e pediu que a mãe não deixasse o pai sair. Mas era tarde: seu Aurino já estava no mercado.

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    O pai, lembra Marquinhos, acompanhou em silêncio toda ação dos bombeiros e a retirada das mercadorias dos boxes.

    – Pessoas como o pai, que tinham passado a vida trabalhando no mercado, ficaram muito assustadas. Ele permaneceu atônito.

    Marquinhos conta que as mercadorias foram transferidas para caminhões frigoríficos. Três dias depois os estabelecimentos voltaram a atender.

    – Demorou menos tempo que no Apagão da Hercílio Luz, em outubro de 2003, quando o blecaute atingiu a parte insular de Florianópolis – compara.

    Com quase 40 anos de atividades, o comerciante Renato dos Santos, do Bar Trapiche, nem gosta de lembrar daquele dia de correria. Para ele, havia muito material inflamável nas lojas, como calçados, papel e até fogos de artifício. Tudo isso, acrescido das décadas de falta de prevenção, fez uma mistura fatal. Instalado desde 1987, o Bar do Trapiche, o comerciante investiu alto. Por causa do espaço, reduziu o número de mesas. Mas tem no chope, petiscos e iguarias da Ilha um dos pontos altos.

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    "Uma peça da nossa casa"

    Funcionário aposentado da antiga Telesc, Paulo Rodrigues, 76 anos, também recorda daquilo que para ele foi considerado “uma marca no coração do manezinho”.

    – Estava com visita em casa e combinei com minha esposa (já falecida) que iria comprar uns peixes. Nem cheguei na Alfândega. O fogo e fumaça provocaram uma marca no coração da gente, pois o mercado era como uma peça da nossa casa – recorda.

    Rodrigues continuou frequentador do mercado. Sempre que possível convidava a namorada para um chopinho. Mas a chegada do coronavírus “cortou o barato”, como diz. Por fazer parte do grupo de risco, o casal só visita o lugar para comprar pescado. Sem demoras.

    – Acho que o mercado é um dos lugares mais alegres de uma cidade, pois ali tem o povo. Mas com pouca gente fica meio sem graça.

    Rodrigues tem razão. Nos últimos meses, o movimento caiu. Reflexo do isolamento social. Nem mesmo a safra da tainha conseguiu repetir o movimento dos anos anteriores. Ao final de julho, a Vigilância Epidemiológica informou que 12 funcionários das bancas testaram positivo para a Covid-19. Os trabalhadores foram submetidos ao isolamento social e as lojas passaram por processo de sanitização.

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    Mercado Público de Florianópolis
    (Foto: )

    Picolé de bacalhau

    São 20 dias de uma nova experiência. Marcos Aurino dos Santos, o Marquinhos, se associou ao Balcão Mané, na esquina conhecida como Bar do Alvim, e agora divide-se entre o Açougue do Aurino, deixado pelo pai, e o Balcão Mané, com os dois sócios que estavam à frente do ponto.

    Sugeriu algumas mudanças e uma delas com total concordância dos consumidores, a diminuição dos preços. Assim como uma mexida no cardápio, o qual surpreende nos nomes, com adaptações de bolinhos e empanados.

    – Temos Picolé de Bacalhau, uma inovação do chef Fausto Júnior, assim como Empada na Ostra da Casca – conta o comerciante, que defende a necessidade de fazer com a que a cultura local esteja representada nos pratos. Apesar do pouco tempo, Marquinhos conta que a resposta tem sido positiva. Especialmente pela parte da clientela antiga, e que fez do lugar um dos pontos mais frequentados do Mercado Público.

    – Ouvi de um amigo e antigo frequentador a frase: a gente não tinha balcão nem tinha mané. Claro que queremos contar com os turistas, mas também resgatar os nativos que desde a reabertura do mercado não vinham mais – diz o comerciante.

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    Hasteamento da bandeira do Berbigão do Boca

    Para se ter uma ideia da boa expectativa, Leonardo Garofallis, o Nado, da diretoria do Berbigão do Boca, promete hastear a bandeira do BeBo no Balcão Mané. Nos antigos carnavais, o Bar do Alvim era o ponto de encontro do pessoal. Mas o BeBo cresceu e foi preciso buscar mais espaço para a concentração dos milhares de foliões. 

    Há consenso que a higienização e o visual do Mercado Público de Florianópolis mudaram para melhor. Assim como a segurança, já que a prefeitura passou a exigir alvarás e também dos bombeiros.

    As duas alas têm alarmes, extintores, dutos de água, mangueiras. Como se trata de um prédio tombado, o projeto original não deve ser alterado. Mas na reformulação algo se perdeu:

    – A licitação atraiu investidores, mas nem todos do ramo. A gente vê como agem alguns funcionários, quase agarrando o cliente pelo braço. O lugar exige outra forma de trabalhar – diz Marquinhos.

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    Reconhecimento para a concorrência

    Hoje mudou devido à chegada de gente nova, mas a história dos antigos comerciantes do mercado é marcada por casos de amizade. O falecido pai de Marquinhos, o Aurino, que morreu em dezembro de 2019, era compadre de Alvim Spinoza, falecido em fevereiro de 2019.

    No final dos anos 1960 os dois ganharam juntos na Loteria. Foi com este dinheiro a mais que Aurino foi incentivado a ampliar o açougue. Marquinhos também não segura elogios para Beto Barreiros, o vizinho do Box 32.

    – Nós costumamos dizer que existe um mercado antes do Box 32 e com o Box 32. O Beto nos ajudou a melhorar muito, dando sugestões sobre o que oferecer ao público e incluindo novidades no cardápio – conclui o comerciante.

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    Sobre a areia

    Visitar mercado público é sempre uma boa dica para conhecer a história e a cultura de uma cidade. Em Florianópolis também. No começo, os produtos vindos da região continental e das freguesias eram expostos na praia, sobre a areia. Mas a questão da higienização sempre foi motivo de debate entre os moradores. Posteriormente, foram erguidas bancas ao ar livre para a exposição das mercadorias.

    Construção em duas etapas

    O atual Mercado Público foi construído em duas etapas: a primeira, entre 1896 e 1899, contava apenas com uma ala. Posteriormente, em 1912, a obra foi complementada com rampas, galpões e uma cobertura que unia toda a extensão da face que ficava voltada para o mar. Somente, entre 1928 e 1931, é que foi construída a segunda ala, as torres, as pontes que as interligam e o vão central.

    Longe do mar

    Em 1974, o espaço perde parte do encanto, o contato com o mar: com a construção do aterro da Baía Sul, as embarcações são substituídas pelos caminhões e cargas. Em 1984, surge o famoso Box 32, um lugar que atraiu a clientela mais seleta e os turistas. O balcão do Box já recebeu políticos, artistas, atletas. Naquele mesmo ano, o prédio foi tombado pelo patrimônio histórico municipal.

    Tragédia anunciada

    Em 6 de junho de 1998, durante uma reforma, um vazamento de gás deu início a chamas que assustaram os moradores. O fogo foi rapidamente controlado e o incêndio não comprometeu a estrutura da edificação.

    O grande incêndio

    O mês de agosto de 2005 marcou o cotidiano do Mercado Público. No dia 19, por volta das 8h20min, um novo incêndio destruiu a ala norte, voltada para a Rua Conselheiro Mafra. As chamas iniciaram na cozinha, localizada no mezanino do Box 15, em uma fritadeira elétrica. O incêndio, fruto da negligência e falta de cuidado com um dos principais cartões postais de Santa Catarina, destruiu completamente a área interna. Ninguém morreu.

    Mudança do mix

    Em 2010, uma comissão de licitação apresentou à prefeitura a proposta de mudança do mix. É aberto o processo de licitação para empresas e boxes disponíveis. Dois anos depois, a prefeitura fecha boxes de comerciantes que não cumpriram o prazo para negociar o pagamento dos débitos. Opções para padaria, alimentos orgânicos, floricultura são ofertadas.

    Novo incêndio

    Em 3 de janeiro de 2013, outro incêndio atingiu o Mercado Público de Florianópolis na ala norte. O fogo começou por volta da 0h15min e ficou restrito ao box 44, de venda de calçados, e em poucos minutos foi controlado. Por ter acontecido na madrugada, enquanto o lugar estava fechado, ninguém ficou ferido.

    Festa na reinauguração

    Setembro de 2014 chegou com uma boa nova: projeto de cobertura do vão central. Um ano depois, a ala sul reabre. Em 5 de agosto de 2015, uma grande festa marca a reabertura do Mercado Público. Apresentações artísticas e culturais marcam o dia em que a cidade se reencontra com o seu mercado.

    Cobertura automatizada

    Em julho de 2016, o vão central recebe cobertura de estrutura metálica automatizada, revestida com uma membrana feita de tecido de fios de poliéster, recoberto por uma massa de polímeros com PVC e protegida por verniz acrílico nas duas faces, que se prometeu abrir e fechar sobre o vão central Luiz Henrique Rosa.

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