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    Vacinação contra a Covid-19: a importância e a segurança das vacinas

    Imunização que deve começar na quarta-feira (20) promove proteção individual, mas também coletiva; confira dados sobre a segurança e a criação dos imunizantes

    18/01/2021 - 05h00

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    Por Jean Laurindo
    Vacinação contra a Covid-19 é esperada para os próximos dias no país
    Vacinação contra a Covid-19 é esperada para os próximos dias no país
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    A vacina contra a Covid-19 é a principal esperança para conter a disseminação do novo coronavírus, mas ainda desperta dúvidas em muitas pessoas. Os questionamentos envolvem pontos como a importância da imunização para evitar a doença e a segurança das doses, que devem começar a ser aplicadas quarta-feira em Santa Catarina e nos demais estados, após o início em São Paulo neste domingo (17).

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    A vacinação é importante porque promove proteção contra a Covid-19 de duas formas. O médico imunologista e professor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), André Báfica, que também atua no desenvolvimento de uma vacina contra o novo coronavírus e participa de um canal para tirar dúvidas sobre a imunização no TikTok, explica que a primeira vantagem é a proteção individual, comum a qualquer tipo de vacina. Ela nada mais é do que o benefício de ter um risco muito menor de desenvolver a doença.

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    Mas há também um nível coletivo de proteção oferecido pelas vacinas, que torna a imunização ainda mais importante. À medida que os habitantes começam a ser imunizados, há menos infecções e menos pessoas transmitindo o vírus para outras. Com isso, a tendência é de uma diminuição da circulação do agente infeccioso aos poucos.

    Além disso, no caso de outras doenças, pessoas com alergia grave, que tomam imunossupressores ou fazem tratamento contra câncer não podem tomar algumas vacinas (as com vírus atenuado, leia mais sobre os tipos de vacina abaixo). No caso da Covid-19, não há contraindicações a esses públicos, mas um grande grupo ainda não deve poder se vacinar simplesmente porque não haverá doses para todos no primeiro momento, ou mesmo porque as vacinas não foram testadas neles – caso das crianças. Nesses dois cenários, quem toma a vacina está protegendo indiretamente também quem não pode tomar, já que se torna uma pessoa a menos a poder transmitir o vírus.

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    – Além disso, do ponto de vista coletivo, como diminui a chance de doença e disseminação dos vírus, você diminui a carga nos serviços de saúde pública. Isso gera uma espécie de transferência do dinheiro que seria gasto em alguns tipos de doença, que se pode bloquear com a vacina (como passará a ser a Covid-19), para desenvolver o combate a outros tipos de doença – pontua.

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    Confiança nas vacinas

    Sobre a desconfiança que parte das pessoas ainda possa ter com as vacinas a serem aplicadas, o professor frisa que a humanidade tem mais de 100 anos de experiências com vacinas e que vários órgãos como as agências reguladoras dos países são responsáveis por analisar a segurança das vacinas.

    – Esses órgãos cobram muitos documentos e experimentos para analisar. Aqui no Brasil, na Anvisa, temos 50, 60 pessoas com formação técnica, analisando todas as documentações. Esse órgão é o que a gente deve confiar, ficando sempre antenados sobre como estão avaliando as vacinas – detalha.

    A CoronaVac, por exemplo, já foi aprovada para uso emergencial na China, na Indonésia e na Turquia, enquanto a vacina de Oxford já foi aprovada no Reino Unido. No Brasil, ambas tiveram a autorização para uso emergencial neste domingo (17) por parte da Anvisa.

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    Segurança das vacinas

    Um estudo com 50.027 voluntários feito na China e concluído em setembro mostrou que 94,7% dos participantes dos testes da vacina CoronaVac, desenvolvida pelo laboratório chinês Sinovac em parceria com o Instituto Butantan, de São Paulo, não tiveram nenhuma reação adversa. Outros 5,36% sentiram efeitos adversos considerados de grau baixo, como dor no local da aplicação, febre moderada e perda de apetite. Na época, o governo de São Paulo, a quem está vinculado o Instituto Butantan, avaliou os dados desse estudo como "um excelente perfil de segurança" para a vacina.

    Um mês depois, foram divulgados dados de segurança dos estudos feitos no Brasil, com 9 mil voluntários, em que apenas 35% tiveram reações adversas leves após a aplicação, como dor no local ou dor de cabeça. Não houve efeito colateral grave.

    Já a vacina da Astrazeneca/Oxford, segundo artigo publicado no início de dezembro, se mostrou segura para todas as faixas etárias, inclusive para idosos, e gerou menos reações adversas nos voluntários mais velhos. Foram relatados eventos adversos graves, entre eles três casos de mielite transversa – um deles chegou a interromper o estudo, retomado após os pesquisadores concluírem que não havia relação com o imunizante. No entanto, segundo estudo, não houve um padrão que pudesse fornecer um alerta de segurança. Pontos como a segurança dos imunizantes também são avaliados pelas agências reguladoras antes das autorizações de uso.

    No campo de perguntas e respostas sobre a vacina de seu site, a Fiocruz, parceira do desenvolvimento da vacina da Astrazeneca, afirma que não há qualquer risco de desenvolver Covid-19 ao tomar o imunizante. Isso porque a vacina é baseada em vetor viral não replicante e possui apenas a informação genética de uma pequena parte do vírus, a proteína spike (S) do Sars CoV-2, utilizada pelo vírus para penetrar na célula. A proteína S é necessária para despertar a imunidade, mas incapaz de provocar uma infecção.

    Na última sexta-feira (15) a Comissão Técnica Nacional em Biossegurança (CTNBio), ligada ao Ministério da Ciência e Tecnologia, aprovou parecer considerando a vacina segura. O aval era necessário por incluir organismos geneticamente modificados, mas ainda era uma etapa anterior à autorização do uso emergencial por parte da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), obtido neste domingo.

    O imunologista e professor da UFSC, André Báfica, afirma que a segurança das vacinas é igual à dos outros imunizantes que já são usados no dia a dia da saúde pública do Brasil.

    – São os mesmos cientistas que estão falando que as vacinas são seguras, os mesmos que cuidam de várias outras coisas, como produzir respirador, máscara, oxigênio, medicamentos, que as pessoas usam no dia a dia e confiam – pontua.

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    Efeitos colaterais

    O protocolo de estudos da vacina CoronaVac, divulgado no repositório do site do Instituto Butantan, lista como possíveis efeitos do imunizante reações como dor, hematoma, inchaço, rigidez e vermelhidão no local da aplicação, de dois a três dias após receber a dose. Outros efeitos como dor, dor de cabeça e febre também podem ocorrer, mas o risco apontado é menor. Esses efeitos também são comuns a outros tipos de vacinas e medicamentos injetáveis.

    Já a vacina do laboratório Astrazeneca em parceria com a Universidade de Oxford traz no protocolo de pesquisa como efeitos mais comuns os de dor e sensibilidade no local da vacinação. São citados também calafrios, febre, fadiga, dor de cabeça, dor nas articulações, muscular e mal-estar, mas a maioria desses eventos é apontada como casos leves ou moderados e resolvidos de um a sete dias.

    Outras reações alérgicas também são citadas como "risco potencial", mas o documento diz que essas reações podem acontecer com qualquer vacina e "devem ser extremamente raras".

    O imunologista e professor da UFSC, André Báfica, diz que os efeitos colaterais demonstrados nos estudos não são diferentes das reações provocadas por outras vacinas já utilizadas.

    – Os efeitos colaterais que existem são associados à injeção, como a mialgia (dor muscular). Quando você injeta um vírus, vai induzir uma inflamação. A inflamação pode dar febre e dor de cabeça. Mas há pesquisadores que advogam a ideia de que a indução dessa informação é boa, mostra que sistema imunológico está desenvolvendo o que eles chamam de memória imunológica. O fato é que as duas vacinas se mostraram eficazes em níveis ótimos, seguras, e as duas foram testadas aqui – afirma.

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    As etapas de criação de uma vacina

    Fase 1 – Busca por soluções

    O desenvolvimento de vacinas tem basicamente três etapas. A primeira é a busca por antígenos, substâncias que possam ajudar o organismo a desenvolver uma defesa contra o agente do qual se pretende proteger - nesse caso, o vírus Sars CoV-2, chamado de novo coronavírus, que provoca a Covid-19. Com base nesses antígenos, os desenvolvedores decidem qual técnica pretendem utilizar na fabricação dos imunizantes (leia mais abaixo).

    Fase 2 – Ensaios pré-clínicos

    Definida a técnica da vacinação, ela parte para a segunda etapa, chamada de ensaios pré-clínicos, que são os testes em laboratório, in vitro (em células humanas ou de animais) e in vivo (em animais). Se a etapa 2 for bem sucedida, os estudos avançam para a fase 3, que é determinante para comprovar a segurança e a eficácia.

    Fase 3 – Estudos clínicos

    A terceira etapa é conhecida como a de estudos clínicos. Ela também se divide em três fases. A primeira com um grupo pequeno de pessoas para apontar a segurança da vacina, a dosagem e possíveis reações. A fase 2 é semelhante à primeira, mas destinada a um grupo maior. Por fim, a fase 3 tem testes em milhares de pessoas em diferentes regiões e perfis de idade, etnia e sexo, com o objetivo de medir a eficácia do imunizante. É a partir dos resultados desta terceira fase que as farmacêuticas podem pedir o registro da vacina para utilização em pacientes.

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    As técnicas das vacinas

    Vírus inativado (CoronaVac)

    As vacinas de vírus inativado utilizam o vírus inteiro, mas "morto", após inativação por processo químico. Esse é um dos processos mais reconhecidos e seguros na produção de vacinas. É a tecnologia da vacina CoronaVac, da Sinovac em parceria com o Instituto Butantan, e também de outras vacinas já consagradas no calendário vacinal brasileiro, como a da gripe e da poliomielite. Outros imunizantes em testes contra a Covid-19 que usam esta técnica são a vacina do laboratório indiano Bahrat Biotech e dois imunizantes da chinesa Sinopharm.

    Vírus atenuado

    As vacinas de vírus atenuado possuem o vírus "enfraquecido", mas vivo - no caso das vacinas contra o coronavírus, nenhum dos imunizantes nas fases mais avançadas tem esta técnica.

    Vacinas de vetor viral (Astrazeneca)

    Há ainda outros métodos, como as de vetor viral, que podem ser replicantes ou não replicantes. Nesses casos, em vez do vírus inteiro, atenuado ou inativado, é utilizada apenas uma parte do Sars CoV-2, a proteína spike (S) utilizada pelo Sars CoV-2 para invadir a célula. Ela é inserida em outro vírus, inofensivo para humanos, que vai servir de "vetor" e transportar o fragmento do coronavírus até o corpo humano. O objetivo é com isso estimular o sistema imunológico a reconhecer a proteína por meio da qual o coronavírus entra na célula e desenvolver anticorpos, para que em caso de infecção, o corpo combata rapidamente o invasor. Essa é a técnica da vacina de Oxford/Astrazeneca, que também deve ser usada no Brasil a partir desta semana.

    Além disso, é a técnica também de vacinas como a Sputnik V, do Instituto Gamaleya, da Rússia, e do imunizante da Janssen, braço farmacêutico da empresa Johnson e Johnson.

    RNA mensageiro

    Uma técnica mais recente são as vacinas de RNA mensageiro. Em vez de transportar o vírus ou parte dele, elas transmitem um código genético capaz de fazer o próprio organismo produzir a proteína spike (S), e dessa forma estimular o organismo a produzir anticorpos. Essa é a técnica usada pelas vacinas da Pfizer/BioNTech e Moderna, que já estão em uso nos Estados Unidos e em países europeus.

    Outras técnicas

    Além dessas cinco técnicas, há ainda entre as vacinas em teste na lista da Organização Mundial da Saúde (OMS) os métodos de subunidade proteica, DNA, VLP (partícula semelhante ao vírus, em inglês) e dois métodos que combinam o vetor viral com substâncias chamadas de células de apresentação de antígenos.

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