Em entrevista a uma rádio de Criciúma nesta semana, após ser eleito deputado estadual, o ex-delegado-geral da Polícia Civil Ulisses Gabriel (PL) assumiu erros na investigação do caso cão Orelha, morto na Praia Brava, em Florianópolis. Ulisses recebeu 48.130 votos e ocupará uma cadeira na Assembleia Legislativa do Estado de Santa Catarina (Alesc).
“Ocorreram algumas conduções incorretas da nossa parte em relação à divulgação dos fatos. Fizemos uma coletiva de imprensa que não deveríamos ter feito, deveríamos ter esperado mais. Fomos um pouco imaturos na forma de divulgação. Há erros da minha parte, mas em nenhum momento querendo se promover com o caso ou se omitindo”, disse o delegado durante a entrevista.
O nome de Ulisses ganhou notoriedade nacional em meio às investigações. Ele não era responsável direto pelas investigações, mas realizou 40 publicações nas redes sociais sobre a caso, enquanto os perfis oficiais da Polícia Civil registraram apenas sete. A apuração do Ministério Público indica que isso teria contribuído para ele ganhar 75 mil seguidores no Instagram.
O indicativo é pela improcedência [da ação], pela ausência de provas, pela ausência de promoção pessoal no caso. Eu sempre falo que foi um caso de despromoção. Eu só apanhei pelo caso”, afirmou Ulisses sobre a ação movida pelo Ministério Público.
Veja fotos do caso Orelha
O delegado reiterou que não participou da investigação, mas exerceu a função de porta-voz da Polícia Civil.
“A figura do delegado-geral, como a figura de um prefeito, governador, acaba sendo quem apresenta o que aconteceu. A minha vinculação ficou extrema com o caso, achavam que eu investigava. Tinha vários delegados e eu não investigava o caso”.
Sobre o resultado da investigação, que indiciou um adolescente suspeito pelo ato infracional, Ulisses afirmou que não julga a investigação dos delegados de polícia.
“Eu não julgo nenhum. Cada um faz uma percepção com base nas provas existentes. Muitos disseram que eu me omiti e que a Polícia Civil não agiu. Outros disseram que exagerei”, destacou.
Ulisses Gabriel cita Banco Master e “movimento orquestrado” para fomentar caso Orelha
Ao comentar as proporções que a investigação tomou, com comoção nacional após a morte do cachorro Orelha, Ulisses afirmou que há provas de um movimento para fomentar a divulgação das informações sobre o caso.
“Foi no mesmo momento em que começava a aparecer o caso Banco Master e as fraudes do INSS. Nós identificamos que vários canais que estavam falando muito sobre o caso Orelha haviam recebido dinheiro do próprio Daniel Vorcaro. Poderia haver um movimento orquestrado para fomentar esse caso, em detrimento dos casos que estavam surgindo de corrupção extremo, para desviar foco”, apontou.
40 postagens sobre o caso Orelha
Desde que o caso Cão Orelha veio à tona, em 16 de janeiro, o delegado-geral da Polícia Civil de Santa Catarina passou a usar com frequência as redes sociais para falar direta ou indiretamente sobre o episódio. Um evantamento da reportagem mostra que, das 94 postagens feitas por Ulisses Gabriel no feed do Instagram desde o início do caso, 40 mencionam o tema — ou seja, 42,5%.
As publicações incluem atualizações sobre a investigação, mas também colaborações com uma página local, trechos de entrevistas à TV e uma foto com a influenciadora da causa animal Luisa Mell. Além disso, Ulisses fez postagens defendendo a redução da maioridade penal e mostrando a adoção do cão Caramelo, companheiro de Orelha na Praia Brava.
Linha do tempo de Ulisses Gabriel nas redes
16 de janeiro: o caso ganha repercussão após publicação de uma página local. No mesmo dia, o delegado faz a primeira postagem: um vídeo em colaboração com outra página local, afirmando que providências estavam sendo tomadas.
19 de janeiro: publica post informando quais delegacias seriam responsáveis pela investigação e utiliza a frase recorrente em suas redes: “em SC o bambu ronca. Aqui é linha dura”.
21 e 22 de janeiro: posta foto do cão Caramelo, afirmando que ele estava vivo após tentativa de afogamento, e anuncia, em colaboração com página local, que iria adotar o animal. No dia seguinte, publica foto e vídeo com o cachorro, dizendo que a justiça seria feita.
24 e 25 de janeiro: faz postagem defendendo a redução da maioridade penal e compartilha publicação do governador Jorginho Mello (PL) sobre o andamento do caso.
27 de janeiro: preside coletiva de imprensa sobre a conclusão do inquérito de coação e publica foto ao lado da influenciadora Luisa Mell, com agradecimento pelo apoio à causa animal.
28 e 29 de janeiro: publica cortes da coletiva de imprensa sobre o caso e atualização sobre operação no aeroporto contra adolescentes suspeitos.
30 de janeiro: divulga vídeos sobre sua participação em um programa de TV de entrevistas e publica esclarecimentos, afirmando que não preside as investigações e que ele e a família estavam sendo alvo de ataques.
1º, 2, 4 e 6 de fevereiro: repercute informações da Polícia Civil sobre o andamento e a conclusão do inquérito e reforça, em diferentes postagens, que não preside a investigação, mencionando ameaças a familiares.
9 de fevereiro: publica vídeo e foto mostrando momentos com o cão Caramelo e com a família.
O que motivou o arquivamento do caso
Entre os motivos que levaram o MPSC a não responsabilizar nenhum investigado estão a análise de quase 2 mil arquivos digitais, entre vídeos, dados de celulares apreendidos e fotografias, e os depoimentos de adolescentes e testemunhas mencionados no decorrer da investigação feita pela Polícia Civil.
O MPSC também citou contradições nos depoimentos de testemunhas que indicaram a suposta agressão como causa dos ferimentos ao cão.
Para além das fortes contradições e, principalmente, à luz dos laudos periciais elaborados, em especial o da exumação do corpo do cão “Orelha”, não há como se afirmar nada, de forma segura, sobre a origem e natureza da lesão havida no cão “Orelha”.
Em outro trecho do relatório, o MPSC cita que a hipótese de morte em função da doença seria “muito mais plausível” do que a tese de suposta agressão. Um laudo apresentado pelo MPSC após exumação do corpo do cão Orelha indicou que o cachorro tinha uma doença óssea grave que poderia explicar as lesões na parte da cabeça.
“Não se pode descartar, portanto, a hipótese de o cão nem sequer ter sido machucado por ação física externa, ou seja, por algo (instrumento contundente) ou alguém (soco, chute, tapa), mas sim ter sido vitimado por seu próprio estado de saúde, que era grave e antigo, infelizmente”, informam os promotores, em um trecho do relatório que pediu o arquivamento e foi aceito pela Justiça.
A investigação também analisou câmeras de vigilância e não identificou provas de que os jovens investigados teriam estado no mesmo lugar do cão Orelha nos horários indicados das possíveis agressões.
Foi identificada também uma divergência de 30 minutos nos horários registrados por duas câmeras analisadas na fase de investigação. A diferença teria sido identificada com base em condições de luminosidade solar, conforme a análise do MP.
A Polícia Científica já havia confirmado esse descompasso temporal na análise inicial que sustentou as investigações. Também não havia nenhum registro que mostrasse o animal na orla da Praia Brava, como teriam dito testemunhas ouvidas nos depoimentos.
Com base nas imagens, o MP concluiu que no momento em que um dos adolescentes estaria no deck de madeira que leva até a praia, o cão Orelha estaria a cerca de 600 metros de distância, o que negaria a tese policial de que os dois estariam no mesmo local por cerca de 40 minutos.
Investigação contra Ulisses Gabriel
O Ministério Público afirma que o ex-delegado-geral da Polícia Civil de Santa Catarina teria extrapolado o dever de comunicação institucional no caso do cão Orelha e utilizado a autoridade e a visibilidade do cargo para construir uma imagem pessoal e política.
A promotoria pede R$ 200 mil como indenização por dano moral coletivo e multa equivalente a até 24 vezes o salário recebido pelo delegado à época do caso do Cão Orelha.
O que diz a defesa do ex-delegado-geral de SC
“A defesa de Ulisses Gabriel, representada pelo escritório Mathaus Agacci Advogados, informa que demonstrou, no curso do processo, a inexistência de qualquer ato de improbidade administrativa.
Ulisses sempre pautou sua atuação pela legalidade, transparência e respeito às atribuições institucionais, inexistindo desvio de finalidade ou qualquer conduta dolosa capaz de caracterizar improbidade.
A defesa aguarda, com serenidade, o julgamento da ação, confiante no reconhecimento da regularidade da atuação de Ulisses Gabriel e na consequente improcedência dos pedidos formulados”.




