Santa Catarina paga com vidas e empregos o preço de acreditar em atalhos contra o coronavírus

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Três meses depois do fim da quarentena, UTIs estão pressionadas (Foto: Patrick Rodrigues)

Duas segundas-feiras, dia 13, servem como marcos para entender a situação de Santa Catarina na pandemia de coronavírus. Em 13 abril, o governador Carlos Moisés encerrou uma quarentena mais ou menos bem-sucedida e abandonou a melhor chance de suprimir a Covid-19 no Estado. Em 13 de julho, com as UTIs à beira da lotação, o mesmo governador eximiu-se de corrigir o erro.

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Santa Catarina passou de modelo na condução da crise a exemplo de como desperdiçar um enorme esforço coletivo. Nem Moisés, nem os que o pressionaram a errar podem dizer que no 13 de abril não havia informações suficientes para guiá-los. Desde o fim de março eram consensos na comunidade científica internacional:

1 – A pandemia é causada por um vírus desconhecido e mortal.

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2 – Sem tratamentos eficazes ou vacina, só o isolamento social pode reduzir o contágio e a mortalidade.

3 – Medidas de isolamento provocam retração econômica e desemprego, mas deixar de aplicá-las é pior para a economia, porque prolonga os efeitos da crise.

4 – Antes de relaxar o isolamento, a curva de casos deve estar em queda consistente.

5 – Governos devem investir pesado em testes do tipo RT-PCR para, depois de suprimir o vírus, identificar logo novos pacientes, isolá-los e então rastrear seus contatos.

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Em lugar desse caminho árduo e complexo, trilhado por países com quem os catarinenses têm laços umbilicais, como Alemanha, Itália e Portugal, o Estado entregou-se ao senso comum alimentado por mentiras de Whatsapp e oficializado por um presidente negacionista sem ministro da Saúde.

Santa Catarina acreditou que havia atalhos contra a Covid-19. Governador, prefeitos, lideranças empresariais e boa parte da população parecem continuar acreditando. Pagaremos com vidas e empregos o preço desse desprezo à ciência e às melhores práticas internacionais.

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Prefeitos e empresários

Moisés tem enorme parcela de responsabilidade, mas não está sozinho. Prefeitos, que durante a quarentena ajudaram a pressioná-lo e depois concluíram a reabertura desastrada, agora esquivam-se do desgaste político de retroceder (aqui é justo fazer ressalva ao prefeito de Blumenau, Mário Hildebrandt, que no domingo restabeleceu quarentena parcial).

Comportam-se assim porque são pressionados pela eleição que se aproxima e por segmentos empresariais. Aliás, não apenas quem tem cargo público exerce liderança. Fato indispensável para compreender o período que atravessamos é a nota pública assinada por quase 50 entidades empresariais catarinenses no dia 25 de março, oitavo dia de quarentena.

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O texto pregava o “isolamento vertical” de grupos de risco, ideia que já na época era descartada pela maioria dos especialistas em virologia, epidemiologia e demografia. E pedia campanhas publicitárias “de minimização do medo de sair de casa incutido na população pelo momento pandêmico atual”.

Excetuada a inexplicável proposta de convocar a população às ruas via publicidade, todos os 295 municípios seguiriam, cedo ou tarde, as linhas gerais do receituário sugerido.

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Administradores públicos permitiram que milhares de cidadãos circulassem em ambientes fechados, como ônibus, templos religiosos, academias, escritórios e shoppings centers. Transmitiram sinais contraditórios à população, que continuou indo à praia, às fazendas da Serra, recebendo amigos em casa e até frequentando baladas clandestinas. Um espetáculo macabro de irresponsabilidade.

Há segunda chance

Para ter direito a uma segunda chance contra o novo coronavírus, Santa Catarina precisa levar ideias ruins à lata do lixo. Além do isolamento vertical, merece esse destino a proposta de aguardar passivamente a imunidade de rebanho (que só seria atingida com 60% da população contaminada). É uma conta simples. Com um índice de mortalidade em 1%, seriam 43 mil catarinenses mortos.

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Quem está preocupado com a economia deveria começar a calcular quanto custará perder 43 mil vidas em um ano ou dois. Quarenta e três mil pessoas que produzem, estudam, consomem. Quanto custará atrasar ainda mais a formação de milhares de estudantes. Quanto custará condenar comércios, indústrias e prestadores de serviço a muitos meses mais de freio de mão puxado. É consenso entre economistas que enxergam além do trimestre: o caminho escolhido fará estrago muito maior do que a quarentena já fez.

Sem falar no investimento milionário em respiradores, estrutura hospitalar, diárias de UTI, medicamentos, contratação de profissionais de saúde. Com esse dinheiro, quantos testes RT-PCR poderiam ser comprados para monitorar novos surtos e agir rápido? Quantos empréstimos a juro zero poderiam ser concedidos a empresas e empreendedores em dificuldades? Quantos auxílios a cidadãos vulneráveis impedidos de trabalhar?

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O momento pede mais racionalidade, mais ciência. Italianos e espanhóis nos ensinaram que é possível corrigir o rumo. Sem atalhos, sem jeitinho. Ainda é tempo.