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    Santa Catarina paga com vidas e empregos o preço de acreditar em atalhos contra o coronavírus

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    Evandro
    Por Evandro de Assis
    14/07/2020 - 10h20 - Atualizada em: 14/07/2020 - 10h32
    Três meses depois do fim da quarentena, UTIs estão pressionadas
    Três meses depois do fim da quarentena, UTIs estão pressionadas (Foto: Patrick Rodrigues)

    Duas segundas-feiras, dia 13, servem como marcos para entender a situação de Santa Catarina na pandemia de coronavírus. Em 13 abril, o governador Carlos Moisés encerrou uma quarentena mais ou menos bem-sucedida e abandonou a melhor chance de suprimir a Covid-19 no Estado. Em 13 de julho, com as UTIs à beira da lotação, o mesmo governador eximiu-se de corrigir o erro.

    Santa Catarina passou de modelo na condução da crise a exemplo de como desperdiçar um enorme esforço coletivo. Nem Moisés, nem os que o pressionaram a errar podem dizer que no 13 de abril não havia informações suficientes para guiá-los. Desde o fim de março eram consensos na comunidade científica internacional:

    1 - A pandemia é causada por um vírus desconhecido e mortal.

    2 - Sem tratamentos eficazes ou vacina, só o isolamento social pode reduzir o contágio e a mortalidade.

    3 - Medidas de isolamento provocam retração econômica e desemprego, mas deixar de aplicá-las é pior para a economia, porque prolonga os efeitos da crise.

    4 - Antes de relaxar o isolamento, a curva de casos deve estar em queda consistente.

    5 - Governos devem investir pesado em testes do tipo RT-PCR para, depois de suprimir o vírus, identificar logo novos pacientes, isolá-los e então rastrear seus contatos.

    Em lugar desse caminho árduo e complexo, trilhado por países com quem os catarinenses têm laços umbilicais, como Alemanha, Itália e Portugal, o Estado entregou-se ao senso comum alimentado por mentiras de Whatsapp e oficializado por um presidente negacionista sem ministro da Saúde.

    Santa Catarina acreditou que havia atalhos contra a Covid-19. Governador, prefeitos, lideranças empresariais e boa parte da população parecem continuar acreditando. Pagaremos com vidas e empregos o preço desse desprezo à ciência e às melhores práticas internacionais.

    Prefeitos e empresários

    Moisés tem enorme parcela de responsabilidade, mas não está sozinho. Prefeitos, que durante a quarentena ajudaram a pressioná-lo e depois concluíram a reabertura desastrada, agora esquivam-se do desgaste político de retroceder (aqui é justo fazer ressalva ao prefeito de Blumenau, Mário Hildebrandt, que no domingo restabeleceu quarentena parcial).

    Comportam-se assim porque são pressionados pela eleição que se aproxima e por segmentos empresariais. Aliás, não apenas quem tem cargo público exerce liderança. Fato indispensável para compreender o período que atravessamos é a nota pública assinada por quase 50 entidades empresariais catarinenses no dia 25 de março, oitavo dia de quarentena.

    O texto pregava o "isolamento vertical" de grupos de risco, ideia que já na época era descartada pela maioria dos especialistas em virologia, epidemiologia e demografia. E pedia campanhas publicitárias "de minimização do medo de sair de casa incutido na população pelo momento pandêmico atual".

    Excetuada a inexplicável proposta de convocar a população às ruas via publicidade, todos os 295 municípios seguiriam, cedo ou tarde, as linhas gerais do receituário sugerido.

    Administradores públicos permitiram que milhares de cidadãos circulassem em ambientes fechados, como ônibus, templos religiosos, academias, escritórios e shoppings centers. Transmitiram sinais contraditórios à população, que continuou indo à praia, às fazendas da Serra, recebendo amigos em casa e até frequentando baladas clandestinas. Um espetáculo macabro de irresponsabilidade.

    Há segunda chance

    Para ter direito a uma segunda chance contra o novo coronavírus, Santa Catarina precisa levar ideias ruins à lata do lixo. Além do isolamento vertical, merece esse destino a proposta de aguardar passivamente a imunidade de rebanho (que só seria atingida com 60% da população contaminada). É uma conta simples. Com um índice de mortalidade em 1%, seriam 43 mil catarinenses mortos.

    Quem está preocupado com a economia deveria começar a calcular quanto custará perder 43 mil vidas em um ano ou dois. Quarenta e três mil pessoas que produzem, estudam, consomem. Quanto custará atrasar ainda mais a formação de milhares de estudantes. Quanto custará condenar comércios, indústrias e prestadores de serviço a muitos meses mais de freio de mão puxado. É consenso entre economistas que enxergam além do trimestre: o caminho escolhido fará estrago muito maior do que a quarentena já fez.

    Sem falar no investimento milionário em respiradores, estrutura hospitalar, diárias de UTI, medicamentos, contratação de profissionais de saúde. Com esse dinheiro, quantos testes RT-PCR poderiam ser comprados para monitorar novos surtos e agir rápido? Quantos empréstimos a juro zero poderiam ser concedidos a empresas e empreendedores em dificuldades? Quantos auxílios a cidadãos vulneráveis impedidos de trabalhar?

    O momento pede mais racionalidade, mais ciência. Italianos e espanhóis nos ensinaram que é possível corrigir o rumo. Sem atalhos, sem jeitinho. Ainda é tempo.

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