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Sérgio da Costa Ramos

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Sérgio da Costa Ramos

Crônicas que traduzem os sentimentos do catarinense ao tratar da cultura e características de quem vive no Estado.

Sérgio da Costa Ramos

Memorial de época

Por Sérgio da Costa Ramos

17/11/2018 - 05h00

“O que lembro, tenho” – escreveu, com imensa sabedoria, o “inventor” e re-descobridor da Língua Portuguesa, João Guimarães Rosa em “Grande Sertão, Veredas”. E o que disse sobre essas partículas de memórias o mestre de Stratford-On-Avon, Bill Shakespeare? Disse: "Louvar o que passou torna queridas e inesquecíveis até mesmo as coisas tolas da nossa infância”. Uma fieira de lembranças simples e frívolas, mas “lembranças”, sai passeando pela memória dos viventes que já acumularam “mais de 60”. Seriam essas memórias as mesmas do leitor-manezinho, nascido e nutrido em Floripa? Já pegou o “Circular-Contra”, com o motorista Lira na boleia? Já trocou gibi na frente do Cine Roxy? Já usou na mão direita o anel do Fantasma Voador? Já rodou pião? Jogou bolinha de gude, iô-iô e bilboquê? Tomou groselha, Crush e Cola-Marte? Já usou papel higiênico Tico-Tico? E Glostora, Gumex e Emplastro Sabiá? Assistiu, na TV nascente, aos seriados “Bonanza” e “O Homem de Virgínia”? Correu as casas dançando a “cabra” do boi-de-mamão da rapaziada, distribuindo pinotes e chifradas? Visitou o “Presépio Vivo” de São José? Andou no carrinho de cavalo do polonês Opuska? Brigou na “leiteria” da rua Esteves Júnior, anexa ao Colégio Catarinense, para defender a honra ultrajada (“nome de mãe”) ou simplesmente não fugir ao desafio de um “marmanjo?” Usou japona, galocha ou calçados “Melodia”? Mexeu com o Curvina, a Barca Quatro e a Lídia Traça, malucos que reagiam contra os moleques que “inticavam”? Andou de carrinho rolimã ou desceu o gramado da ladeira do Hospital de Caridade na carona “côncava” de uma casca de bananeira? Colecionou estampas do sabonete Eucalol ou os indiozinhos do vidro de “Toddy”?  Vibrou, de rosto colado, com a musa da festa, ao som de “All the Way”, “Love Me Tender”, “Unchained Melody” ou “Recuerdos de Ypacaraí”? Balançou-se ao embalo de “Rock Around the Clock”, com Bill Halley e seus cometas? Enterneceu-se ao som gingado de “Bernadine”, “Don’t Be Cruel” ou “Matilda”? °°° Parabéns, companheiro, já avançado nos seus “enta”. Hás de ter vivido a melhor Floripa de todos os tempos. Comprado balas de bengala no Empório Rosa, com seus vidros rotativos de balcão, balas rocôco e tabletes de gelatina açucarada.   Leia outras crônicas

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Feriadão

Por Sérgio da Costa Ramos

16/11/2018 - 05h00

O trabalho enobrece o homem, está certo, mas o que lhe dá sombra e refrigério é um feriadão. Se São Pedro ajudar, celebraremos com uma palmeira sobre a nossa cabeça e areia fina debaixo dos nossos pés. Os sentidos logo estarão amortecidos pela sequência de festas, espécie de maratona da comilança e da libação. Esta espinha que heroicamente ainda sustenta minha sofrida carcaça já adquiriu a forma convexa - arqueada como a coluna do corcunda de Notre Dame. Sinal de que o seu dono começa a soçobrar, afogado em brahmas e em brumas. Sinto as juntas anestesiadas, as dobradiças enferrujadas, a preguiça estalando em cada osso, em cada fibra. Feriadão é isso: fazer qualquer coisa para não fazer nada. O principal esforço é para não fazer esforço, sequer o mental, embora manter a cabeça vazia requeira uma grande concentração. Neste feriadão removi meu pensamento para alguma alva duna da Lagoa, da Mole ou da Brava. E minha inspiração – se é que algum dia a tive – escorre entre as colunas d’água que se derramam da arrebentação, até se desfazerem em debruns molhados na areia. Deitado à sombra fresca dessa minha palmeira imaginária, proponho aos prezados leitores a constituição de um “Grupo de Trabalho” destinado a estudar o melhor aproveitamento dos feriadões. Pois é. A primeira missão desse “estudo dos feriadões” será ensinar as pessoas a não serem pessimistas. Ou rabugentas, como foi aquele folclórico cronista mundano, Ibrahim Sued. Flagelado pela falta de assunto, Sued repetia o bordão: “Brasil, país dos feriados!” Ora, não há país do mundo que não cultive o seu ócio. Para parecer “trabalhador”, o Brasil escamoteava seus feriados – até inventou o “ponto facultativo” – e sentia uma certa vergonha de trocar aquela plaquinha que a gente vê nos filmes, de open (aberto) para closed (fechado). °°° Depois do filósofo Ibrahim, que criava constrangimentos para a saudável “mandriagem”, o país experimentou o encolhimento do calendário gregoriano de feriados. Até o Vaticano conspirou contra, “cassando” o feriado religioso de Santa Catarina de Alexandria e retirando o dia 25 de novembro do calendário comemorativo. °°° Na falta do que fazer – e do que pensar - aproveito este começo de feriadão para lançar a campanha pela reabilitação da nossa padroeira. Onde já se viu encolher nosso calendário de folgas, com direito ao dolce far niente?   Leia outras crônicas

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Asas contra o caos

Por Sérgio da Costa Ramos

15/11/2018 - 04h00

Mais um dia de caos no trânsito, por conta da retenção habitual no trecho urbano da BR-101, onde já deveria estar funcionando a Via de Contorno, “esquecida” pela concessionária e pela Agência de Transportes. O tempo vai passando e ninguém faz nada. Espera-se, talvez, que o problema se resolva por inércia. E o único “contorno” que acontece é o do prazo contratado para a obra redentora: a rodovia de contorno já deveria estar pronta em 2012. Como desgraça pouca é “non sense”, a prefeitura da Palhoça deu sua “contribuição” à via já atrasada: construiu no trajeto um conjunto habitacional que exigirá a extensão do asfalto e a construção de dois túneis. Numa área metropolitana de complicada morfologia, emparedada entre o mar e os morros, assusta saber que as autoridades de planejamento esperam que esses engarrafamentos se extingam por decurso de prazo, desafogados, talvez, por algum sopro do Todo Poderoso. Quando, afinal, os ilhéus se libertarão dessa “cadeia”? Pois saibam que o dia não está tão longe assim. O gigante cibernético de buscas, Google, e o não menos universal aplicativo de locação de carros, a Uber, investem recursos bilionários em carros voadores, que salvariam o penoso “ir e vir” dos habitantes desta Ilha de Santa Catarina. Saibam que a Uber já contratou a brasileira Embraer para trabalhar no projeto – e sabemos que talvez o maior atributo da empresa espacial brasileira é a sua universal credibilidade. A empresa de aplicativos adiantou que seu projeto será testado a partir de 2020 até 2023. Numa primeira fase do projeto, a “aeronave” terá um piloto, mas a intenção será torná-la totalmente autônoma, “quando chegarmos a um software confiável”. Já imaginaram? Pegarmos a Uber ali na Praça XV e chegarmos a Coqueiros em dois minutos? Ou a Santo Antônio de Lisboa em quatro? Jurerê, Santinho, Brava, a Mole, o sempre engarrafado Campeche, todas essas praias em menos de oito minutos? Já pensaram num amigo ligando para o outro, um em Canasvieiras, o outro na Armação, norte e sul da Ilha, respectivamente, combinando um encontro? - Chamei a Uber voadora e tô chegando aí em exatos 12 minutos! °°° O que chegará primeiro a Floripa? A Uber-voadora ou a Via de Contorno?   Leia outras crônicas

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A leal Oposição

Por Sérgio da Costa Ramos

14/11/2018 - 04h00

Será que, numa guerra contra poderoso inimigo externo, o Brasil conseguiria se reconciliar contra uma “potência invasora”? Haveria “clima” para um governo de conciliação nacional, acima de todos os azedumes e picuinhas entre governo e oposição, esquerda e direita? Seria factível, no Brasil, o exemplo de união e heroísmo na resistência ao nazifascismo, protagonizado por Churchill ao comando de um plural Gabinete de Guerra, reunindo inimigos tão empedernidos quanto  Conservadores e Trabalhistas? Não é à toa que a Constituição não escrita da Inglaterra reserva às oposições um papel nobre na vida institucional do país. Não só como garantia de higidez democrática, mas a ela se referindo como “a leal oposição ao governo de Sua Majestade”. Vimos no recente  “O Destino de uma Nação”, de Joe Wright - “Oscar” para Gary Oldman no papel do grande estadista inglês – divergências entre os que queriam a “pax” do nazismo e a têmpera patriótica de Churchill, que dizia “nunca nos renderemos”. Nos Comuns, prevaleceu a união dos Conservatives com o Labour, ou seja, a “leal oposição à Sua Majestade”. °°° O Brasil é um país tão diferente que aqui as palavras adquirem inusitados significados em relação à semântica universal. A palavra “oposição”, por exemplo. No mundo inteiro ela designa aquela parte do estrato político que se opõe ao governo. No Brasil, a oposição é tão fluida e mutante – está aí o MDB para provar - que tanto pode estar no “apostolado” como no “lado oposto”. Há, nestes trópicos caricaturais, uma instituição chamada “base aliada”. Nada mais desafinada do que essa tal base, precariamente unida em torno de uma “carniça”: cargos oferecidos pelo governo, em troca de apoio legislativo. O resultado é bizarro. A cada votação, os descontentes apresentam uma nova “conta”, e deixam os “aliados” na mão. Falta aos parlamentares um senso de pátria e de decência, atributos com os quais certamente rejeitariam o recente e imoral aumento do STF, quatro vezes maior que a inflação do corrente ano. Se fosse fundar de novo a República, com base neste movediço alicerce de “aliados”, o marechal Deodoro usaria o talão de cheques - nunca uma espada.   Leia outras crônicas

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Lestada, a imprevisível

Por Sérgio da Costa Ramos

13/11/2018 - 05h00

Nada mais imprevisível do que a previsão do tempo. É verdade que na era dos satélites meteorológicos o “retrato” do tempo futuro ganhou uma precisão quase científica. Mas nada que não seja “bagunçado” por uma boa lestada: - Mar de rebojo, três dias de chuva e nojo. O tempo. Nada mais bizarro, nada mais inglês do que a previsão do dito. Produzido na tevê inglesa como se fosse (e é) o primeiro programa em audiência: todo mundo querendo confirmar o que qualquer inglês já sabe. Vai chover. Elevado à categoria de ciência, o time- forecasting ganha um espaço mais do que exclusivo no noticiário da TV. Nada de ficar restrito a uma frase isolada da Maju do tempo: -  O tempo será instável no Sul, nublado no Norte, Nordeste e no Planalto Central. Já o Sudeste terá uma terça-feira de sol, boa notícia para os que ainda estão em férias. Isso, lido na velha Britânia, seria uma blasfêmia. O tempo, lá, requer todo um ritual para ser apresentado. Como se fosse o próprio Zeus no Olimpo do tempo, o apresentador vai distribuindo nuvenzinhas brancas e negras, misturadas a pingos de chuva. Cada inglês fica sabendo, então, que tipo de guarda-chuva usar no dia seguinte. Com a atenção que devotaria apenas à cotação das suas ações na Bolsa de Londres, o telespectador aguarda o veredicto que caberá à sua região. Então, o “mago” do tempo retira da sua cartola uma imensa coleção de alternativas: se em determinada área estão previstas wintry showers (chuvas de inverno), para o quarteirão seguinte podem estar reservadas “some showers with sunny intervals” – isto é, chuva, sim, mas com o refresco de algumas espiadelas de sol. Num determinado momento o oráculo anuncia uma caprichada incoerência: “Dry... with some showers”. Ou, tempo predominantemente seco, mas com chuvas intermitentes. Ou seja: lá como cá, lestadas há.] °°° Tenho um amigo inglês que jura chover mais aqui do que na ilha da Rainha. Mas, apesar dessa heresia, ligou para me cumprimentar pelo fim de semana de sol. E me desejou uma semana de “brighty and sunny days”. O que se traduz, leitor, por um forte prenúncio de chuva, ainda que debaixo de um sol grego.   Leia outras crônicas

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 Ricardo Chaves/Agencia RBS

Bizarro Brasil

Por Sérgio da Costa Ramos

12/11/2018 - 03h00

Extravagante, esquisito, bizarro país o Brasil. Um senador da República condenado a quatro anos e meio de prisão sai de sua casa – a Penitenciária da Papuda, em Brasília – para o trabalho no... Senado Federal.

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Floripa estacionada

Por Sérgio da Costa Ramos

10/11/2018 - 05h00

Sem a recuperação do Ipuf como dínamo pensador da prospecção do seu futuro, Floripa seguirá sendo vítima de administrações comprometidas com a mediocridade, com as portas fechadas ao bom planejamento. Em duas gerações, de 1960 a 1990, a cidade cresceu a um ritmo de quase 5% ao ano. Em 1960, a cidade contava com uma população de dois dígitos de milhar: 98.590 habitantes. Hoje, só na Ilha temos meio milhão. Se contarmos a Grande Floripa, quase um milhão. Todo mundo se conhecia naquela Floripa da primeira metade do século 20 . Todas as casas tinham quintais, mesmo no centro da cidade. As crianças conheciam um peru, uma galinha, bichos que hoje só conhecem prensados e congelados nas gôndolas dos supermercados. Há 50 anos a “aldeia” ainda podia dormir de janela aberta. Hoje, a segurança pública se transformou em filme de terror e já não somos uma cidade que desfrute de sossego. Vive-se “sobre rodas e sustos”, num labirinto sem mobilidade. Apesar de tudo, morar em Floripa virou um sonho de consumo. Não conheço brasileiro de bom gosto que não ame Floripa, que não persiga a Ilha nos seus verões abrasivos ou na amenidade do seu outono, querendo testemunhar os mais belos “ocasos” do planeta – e, por tabela, ouvir os “casos raros” da ilha formosa. Seria o caso de se parodiar o samba famoso e versejar: – Quem não ama Floripa/ Bom sujeito não é/ Ou é ruim da cabeça, ou doente do pé... °°° Aquela, contudo, era uma época que se dava ao luxo provinciano de ignorar a administração pública como ciência. Ser prefeito era pagar a folha, recolher o lixo e comparecer, de smoking, ao Baile Municipal. Hoje, com uma região metropolitana densamente povoada, de complexidade geográfica única, espremida entre o mar e a montanha, Floripa já não concebe administrações amadoras. Toda vontade política e competência técnica, consolidadas num Ipuf em processo de reconstrução, serão necessárias para uma cidade vítima de esclerose múltipla, obstruída por armadilhas e labirintos. Faltam recursos até para pequenas obras de reparo, como a regeneração dos abrigos de ônibus danificados. Para devolver esse guarda-chuva ao munícipe, a prefeitura aguarda a liberação de uma verbinha do Ministério da Integração Nacional. Se os usuários dos coletivos estão “sem teto”, a culpa é de Brasília.   Leia outras crônicas

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Piadas e marolas

Por Sérgio da Costa Ramos

09/11/2018 - 05h00

O sempre anunciado e jamais cumprido transporte marítimo sentiu uma certa comichão esta semana. Uma “otoridade” lá do Serviço do Patrimônio da União (SPU) resolveu autorizar a cessão do entorno daquele improvisado trapiche da Baía Sul, permitindo a instalação da estação de embarque e desembarque, mediante o pagamento de uma taxa de R$ 275 mil por ano. Pronto. Estão abertos os mares de Floripa, mas faltam ainda todos os outros buquês da “burrocracia”. Ainda faltam a Licença Ambiental de Instalação (LAI ), a Licença Ambiental de Operação (LAO), a Licença da Marinha e uma nova “certidão”, a anuência da Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq). Não é só. Ainda não está definido se o órgão fiscalizador  será o Departamento de Terminais de Santa Catarina (Deter) ou a Superintendência de Desenvolvimento da Região Metropolitana da Grande Florianópolis (Suderf) - ou se haverá necessidade de consulta ambiental, além do IMA, ao Instituto Chico Mendes. UFA! Em meio a esse mar de dúvidas – o serviço será operado por dois frágeis catamarãs – o empresário da concessão vem à boca de cena informar o seguinte: - No momento, o grande problema, a dois meses do prazo concedido, está nos dois barcos. Vendi os que eu tinha e encomendei dois novos. Mas não sei se ficarão prontos a tempo. Um eu garanto, mas o outro... Quer dizer: é tanta a incerteza e a bizarria que não seria improvável um dono de companhia aérea afirmar ter um único problema para decolar o seu negócio: a falta de aviões. °°° A tarifa da travessia está estimada entre R$ 9 e R$ 10, mas só remunera o trecho de mar entre São José e Floripa. A conexão entre os trapiches e o sistema viário, na Ilha e no continente, ainda não tem uma precificação. O custo, somado, poderá ficar em R$ 24. Vencida toda a tentacular onda da burocracia, restará a matemática inviabilização do negócio, pois sem um forte subsídio das prefeituras quase falidas, nada feito, com esse preço irreal e nada competitivo. Eis uma “travessia”, mais uma, que não chegará a margem alguma, até que aprendam com o passado - quando não havia pontes, mas o serviço de barcos atendia a humanos e quadrúpedes.   Leia outras crônicas

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Cinema da memória

Por Sérgio da Costa Ramos

08/11/2018 - 04h00

Uma breve incisão no tempo e a Floripa do passado ressurge em meu “cinema” mental. As lembranças saltam na memória como lambaris num aquário. Por essas horas, num domingo à tarde de eras chamadas priscas, a gurizada, “manecraticamente” reconhecida como “rapaz pequeno”, já estava “a postos”, diante do Cine Roxy, trocando gibi diante da vitrine do seriado de “Nioka, a Mulher das Selvas” ou do “Cavaleiro Negro”. Na própria palavra saudade está contida a lembrança de cada vivente e a reencarnação dos seus momentos “eternos”, cujos efeitos se recusam a passar, como uma espécie de giz mágico, que não se submete a nenhum apagador. Quadro negro, giz, apagador – logo esses “equipamentos” serão também longínquas lembranças, quando vivermos tempos de inteligência artificial num mundo só digital. Esse ânimo saudoso insiste em circular pela memória, como uma barata, o inseto mais resistente e inexpugnável do mundo. Não existem Neocids ou Memoricidas confiáveis. Todos sucumbem ao “revival”. Este meu coração, tão piegas, bate também por coisas comuns e prosaicas, bobagenzinhas como as antigas garrafas do Crush e da Coca-Cola, aquelas “gordinhas”, nada de enlatados. E mais: doces folheados da confeitaria A Soberana, a tão pranteada bala Rococó, o pastel do Bar Rosa, a empada do Chiquinho, a canja americana das carrocinhas de pipoca, enquanto rolava o “comércio” de gibis à porta do Roxy. De tardinha, na praia de Fora, brotinhos - coisa mais antiga chamar-se meninas de “brotinhos” – se encontravam na Sorveteria da Cocota para um Grapete ou um Chic-Chic - o “Esquibom” da casa. Os rapazes exibiam com orgulho o primeiro fio de barba, celebrado com Cuba Libre no Doze, Hi-Fi no Lira, Jamelão no Carnaval e Celly Campelo com seus gritinhos em Rocks traduzidos. Melhor ainda era dançar de rosto colado nos “grandes bailes” de orquestras (Valdir Calmon e Cassino de Sevilha), assistir no Cine São José aos memoráveis musicais da Metro. Viver, enfim, sob as letras imorredouras dos  poemas de Vinicius de Moraes, as crônicas do velho Braga e os versos do poeta Carlos Drummond de Andrade. O Brasil era feliz e sabia.   Leia outras crônicas

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Emendas ao Livrinho

Por Sérgio da Costa Ramos

07/11/2018 - 04h00

Quantas emendas cabe numa Constituição? Se esta Carta for a brasileira, balzaqueana de 30 anos, cabem quantas  sua excelências desejarem. Nossa democracia tropical nasceu remendando constituições. Até mesmo os “Dez Mandamentos” enfrentariam enormes dificuldades para “passar” nas comissões e no plenário do Congresso, se os nossos “Moisés” se dispusessem a emendar o velho decálogo. Diz o artigo primeiro: “Não terás nenhum outro Deus além de Mim. Não farás para ti nenhum ídolo de barro ou de ouro, nem te prostrarás diante de imagens, nem as adorarás”. Os sistematizadores do nosso decálogo achariam o artigo muito longo e resolveriam sintetizá-lo, sem acolher outras emendas. Ficaria assim: - Amar a Deus sobre todas as coisas. Simples e direto. O segundo artigo, “Não tomarás o seu santo nome em vão”, seria aprovado com o plenário quase vazio, sem que nenhum Moisés pedisse verificação de quorum. O artigo terceiro não era polêmico. Todo mundo gosta de uma folguinha, de um feriadão. Passaria a posteridade com o seguinte texto: - Guardarás os dias santificados e enforcarás aqueles que os precederem ou sucederem e Deus será bem louvado. Resumidos acabaram também os artigos quinto e sexto, “Não matarás” e “Não pecarás contra a castidade”. Já o sétimo, por ser muito polêmico e contrariar os cânones daquela cleptocracia, foi submetido à obstrução das bancadas. Acabou aprovado na calada da noite, já de madrugada, com o voto decisivo dos trânsfugas mediante a adição de um parêntese, que de certa forma emprestava à norma um jeitão “facultativo”. Tanto podia valer, como não, dependia de cada circunstância: - (Não) roubarás! O décimo artigo continha uma grave contradição com o sétimo. Se roubar era “facultativo”, como obedecer a uma lei que mandava “Não cobiçar as coisas alheias”? Tudo bem. Aprovaram o artigo sem emendas, mas imediatamente começaram a cobiçar o cargo do outro, a mordomia, o cartão de crédito, o automóvel zero quilômetro, enfim, todos esses fátuos bezerros dourados que um homem inveja do outro. °°° Trinta anos depois, o Livrinho está sendo homenageado, apesar das suas imperfeições. É hora de reverenciá-lo, rezando para que nunca seja mal interpretado.   Leia outras crônicas

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