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Sérgio da Costa Ramos

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Crônicas que traduzem os sentimentos do catarinense ao tratar da cultura e características de quem vive no Estado.

Sérgio da Costa Ramos

O investidor oculto

Por Sérgio da Costa Ramos

18/08/2018 - 05h00

Dizem que na bolsa-eleitoral que preside os mercados do voto o mandato de deputado federal está cotado em R$ 2 milhões, ainda que sob o olho da Lava-Jato e a criminalização do caixa 2. O que autoriza a torcida a ficar pensando: com uma cotação dessas, como é que algum  “investidor” oculto vai buscar de volta a sua aplicação? Ora, toda “média” é enganosa. Sempre haverá aquele candidato que gastou sola de sapato, saliva e a a própria honestidade para conquistar o seu lugar. Este, fez a “média” cair. Mas e os outros? Os que gastaram até mais do que isso, também para manter a média? Sejamos crédulos. Mas também realistas. A pergunta que insiste em não se calar é a seguinte: o que haverá de tão atraente numa cadeira de deputado que justifique um investimento de R$ 2 milhões? Já vão bem longe os dias em que os cabos eleitorais mantinham a fidelidade partidária. Nasciam num determinado partido e ali morriam, arrebatando “votos cativos” para a mesma grei e o mesmo candidato. Hoje, os “cabos” pulam de galho em galho, como atletas de uma prova de obstáculos, em busca da melhor oferta. Votos são negociados aos lotes e por um preço de mercado. No tempo do Funga-Funga, cabo fiel ao velho PSD no Ribeirão da Ilha, um par de sapatos remunerava um voto. Tudo no fio do bigode. Mercadoria “tratada” era mercadoria “entregue”. O eleitor recebia “um pé” antes do sufrágio e o outro pisante “depois”. Quem aparecesse de “saci”, manquitolando num pé só, era um traidor, punido pelo “cabo”. A família do infiel jamais seria contemplada com algum empreguinho. Além do custo real, há o embutido, na forma de boquinhas no serviço público, parlamentares negociando algum ministério ou estatal “de porteira fechada”. Tudo está à venda na “tendinha do voto”. Não pode ser séria uma eleição em que o vencedor terá o direito de nomear milhares de pessoas com boquinhas e regalos. *** A primeira de todas as reformas deveria ser a que exterminasse o poder da caneta para a nomeação de apaniguados. Com a severa organização das carreiras de Estado, mediante acesso apenas por concurso público. Daqui a quatro anos, em 2022, vamos celebrar os 200 anos da Independência. Quem sabe uma boa reforma política não acontece nos próximos 200 anos, em 2.222?   Leia outras publicações de Sérgio da Costa Ramos

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Procura-se Superman

Por Sérgio da Costa Ramos

17/08/2018 - 05h00

Abrem-se as cortinas do palco sucessório, e o brasileiro se vê diante de um “cardápio” assustador. Quem, em Brasília, não carrega o seu “inqueritozinho” de estimação? No momento em que estamos precisando dramaticamente de uma reserva moral, um Rui Barbosa, um Afonso Arinos, um Sobral Pinto, um Ulysses Guimarães - quem temos que possa ser considerado um “varão de Plutarco”, um ícone de todas as humanas virtudes? Temos um capitão, um cabo, um condenado, um punhado de políticos tradicionais e um feixe de desconhecidos. *** Para acreditar nessa seleção de negações, o Brasil teria que trabalhar com a ideia de escolher “o menos pior”, mas nem assim as respostas seriam claras. A nação não consegue contemplar sequer uma boa lista de candidatos e, no entanto, precisaria de um Superman. Um mágico produtor de abracadabras. Um poderoso prestidigitador, espécie da mago capaz de consertar o Brasil com o carro andando. O novo Super-Homem das telas, Brandon Routh, até que veste bem o physique-du-rôle do herói criado em 1938 pelos cartunistas Jerry Siegel e Joe Schuster para a revista “Action Comics”, mas, assim como o novo James Bond, o sucessor de Christopher Reeve carece de carisma para emprestar verossimilhança ao super-herói. O velho ídolo dos quadrinhos mais parece aquela decadente figura, concebida em debochado crayon de Ziraldo para o antigo "Pasquim": um herói flagrado no vaso sanitário, em plena operação bota-fora, o “rictus” facial deformado pelo monumental esforço, os super-poderes derrotados por uma prisão de ventre. *** Como combater todos os malandros do planeta ao mesmo tempo?  E o que esperar dos candidatos à sucessão, com os exemplos “edificantes” do tipo Lula e Bolsonaro, além das velhas efígies de sempre? Gostaria, eu mesmo, de contar com superpoderes para exorcizar essas superdecepções. E lançaria contra os Lex Luthor do Congresso - aqueles que só querem a reeleição - o irresistível poder do meu feixe de músculos: – Com eles, nocautearia a corrupção universal e a brasileira em particular. – Redistribuiria os bens do Mundo, equalizando as economias do Norte e do Sul. – Daria um supersoco na cara de todos aqueles falsos representantes, que estão na política só para fruir das vantagens pessoais, receber Petrolão, viajar de graça e fazer da cueca a sua carteira de valores.   Leia outras crônicas de Sérgio da Costa Ramos

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Baú mexido

Por Sérgio da Costa Ramos

16/08/2018 - 05h00

A Rua Bocaiúva um dia se chamou, popularmente, “Rua do Sebastião”. A Almirante Lamego era a “Rua de Sant’Ana”. A avenida Mauro Ramos atendia pelo nome trivial de “Rua das Carreiras” ou “Das Olarias”. E a Fernando Machado se registrou nesse cartório urbano como “Rua do Vigário”, certamente porque pavimentava o caminho rumo à Cúria e a Catedral. Claro que não vivi esse tempo do século 19. Mas vivi, de certa forma, a pré-história da cidade à beira da Matriz e da Praça XV - o Mercado Público como um empório de víveres; o Senadinho - encruzilhada de Felipe com Trajano - como um aquário de viventes. Vivi a infância nos anos 1950 do século 20 e pude conviver com a paisagem única de uma cidade bucólica, beijada pelo mar, ruas estreitas e tipos populares - figuras colhidas no relicário felliniano de“Amarcord”. Tipos que eram chamados “por apelido”. Os apelidos nasciam da criativa lavra do mais genuíno humor ilhéu. Um homem tido como “de dotes cavalares” carregava o epíteto de “Se tens intrigas não me digas, se tens segredos não me negues.” Alusão ao seu documento viril, que exigia especial engenho do alfaiate, para esconder os volumes. O homem circulava também sob a hilariante alcunha de “o segredinho do alfaiate”... As águas passaram preguiçosas sob a ponte Hercílio Luz, um bebê de quatro anos em 1930 – e uma adolescente de 14 anos, em 1950. Até o final desta última década, apenas quatro edifícios começavam a mudar a planície do chamado “Centro Histórico”: o Hotel La Porta – primeira modernidade pós-Revolução de 30 – o Edifício Ipase, o Querência Palace e o Banco do Comércio. Por causa dessas quatro “torres”, já não se dizia que a ponte havia sido um exagero, pois “ligava o nada a coisa alguma”. *** Das ruas já não ecoam os velhos pregões do padeiro, do peixeiro – tainhas apregoadas em carroças forradas de areias finas – e do amolador de facas e tesouras. Os tipos foram se esmaecendo, até desaparecerem como desenhos pontilhados, os gritos abafados, como os da garganta de um condenado. Apurando os ouvidos, ficaram os gritos de um tempo em que, apesar de ficar num lugar “pacífico”, a rua Victor Meirelles era mais conhecida como “a Rua da Pedreira” ou “a Rua dos Artífices Bélicos”. “Pedreira”, hoje, é reconhecer a Floripa desfigurada e nela identificar os lugares mexidos aqui neste baú.   Leia outras crônicas de Sérgio da Costa Ramos

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(Felipe Carneiro, DIário Catarinense)

Os votos e os votados

Por Sérgio da Costa Ramos

15/08/2018 - 05h00

Quarta maior democracia do mundo em número de eleitores, o Brasil conhece o resultado de suas eleições majoritárias em mais ou menos três horas. Na segunda do mundo em “presença” nas urnas, os EUA - onde o voto não é obrigatório e as abstenções beiram os 50% -, a eleição não é eletrônica. Em nome da segurança e do temor pelo desafio dos hackers. A primeira democracia em massa eleitoral - com sede na demograficamente bilionária Índia - costuma demorar mais de um mês na apuração de suas eleições gerais, nas quais utiliza o papel e a caneta – e um método jurássico de aferição do voto: a contagem é feita no “dedo” e no “ábaco”, o instrumento artesanal utilizado para as quatro operações, desde a Idade Antiga. A Índia é, hoje, uma das primeiras potências da informática mundial, mas não chega a ser páreo para a "Infoeleição” brasileira. Dividida por um verdadeiro labirinto étnico, cultural e religioso, a Índia islâmica e budista vive sua paquidérmica democracia, valendo-se de uma contabilidade contemporânea do primeiro milênio da humanidade. No Brasil, o show tecnológico das eleições leva a dois regozijos e a um lamento: o povo e o método de expressão eleitoral funcionam como uma orquestra afinada. Ou seja, a manifestação de vontade e o meio desse manifesto, a urna eletrônica, são marcos mundiais de eficiência: 130 milhões de votos apurados em 3 horas e meia. Falta inventar a “Eleição-Instantânea”. O que precisa melhorar, substancialmente, são os políticos e os partidos. *** Sonho de uma noite de Inverno? Talvez. Há 50 anos, a apuração brasileira seguia o método indiano. O “escrutínio” levava semanas. Era quase uma nova campanha, com impugnações e levantes. A contagem de votos era novela que durava pelo menos uma semana, ao embalo dos “dobrados” programados pela sonoplastia das emissoras de rádio de cada partido. As apurações tinham algo de marcial: o fundo musical. Hinos, rufar de tambores e marchinhas de Carnaval – isso, se a vitória fosse do partido do dono da rádio. Caso contrário seguia “a programação normal”, esperando os boletins oficiais da Justiça Eleitoral, na expectativa do veredicto amargo. Hoje o “método” está aprovado, é “moderno”. O que carece de modernidade são os políticos. Pode-se até aceitar a exigência de que a máquina precisa registrar o voto eletrônico, imprimindo-o. Mas no Brasil de hoje o problema não são os votos, são os votados.   Leia também as publicações de Moacir Pereira e de Upiara Boschi

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Somos todos Messias

Por Sérgio da Costa Ramos

14/08/2018 - 05h00

“Infeliz a nação que precisa de heróis”, disse Bertold Brecht, antevendo o futuro da Alemanha pós-República de Weimar, às vésperas da tragédia nacional sob Adolf Hitler. Verdade. Não existem novos Messias, nem mágicos capazes de reerguer uma nação atirada ao fundo de um caos político, econômico e ético. O que fazer quando aquela que deveria ser uma “inteligência” restauradora, dínamo de uma plena redenção moral, proclama, no auge da crise, que a primeira providência a ser adotada é o aumento dos próprios salários a um percentual quatro vezes acima da inflação corrente? Já está na hora de a nação motivar cada cidadão a ser o próprio herói, começando pela missão de renovar os plenários dos “law-makers”, os parlamentares que votam as leis. O cenário está todo construído para que os “mesmos” se perpetuem, e se reelejam, com o auxílio bilionário da “bolsa da viúva”. É o momento dos eleitores “trabalharem” para qualificar o voto. Investiguem nos aplicativos que apontam os fichas sujas – e escolham, a dedo, aquele que não tenha aderido a esse pacto de usurpação do erário e de grave ofensa ao instituto da representação popular. Não reelejam, não reconduzam “profissionais” da política, salvem o Brasil das saúvas que o estão matando. Não precisamos de um único “salvador da pátria”, mas de milhões. Necessitamos de uma sociedade inteira, com a força transformadora dos ultrajados, capazes de combater aqueles que nos envergonham, furtam e submetem. De preferência, um candidato ao Legislativo deve ser alguém da região do eleitor, e, portanto, seu conhecido, cuja vida esteja aberta a um escrutínio de conduta. Procure-se, com uma lanterna, quem seja um homem (mulher) de bem, que não queira fazer da política uma profissão. Ou, se nela já está, possa exibir um currículo e não um prontuário. Ou seja: gente com “ficha policial” não terá o seu voto. A pátria só será salva pelo levante dos que não acreditam em Messias, mas sabem em quem “não votar”. A salvação não virá numa única legislatura. Será um processo longo, de gerações, mas se tem que começar um dia, que seja no próximo 7 de outubro. *** O brasileiro precisa começar já a sua faxina por meio do voto. Não se votará em partidos. Mas em pessoas. O primeiro requisito será encontrar entre os candidatos os potenciais representantes da boa cidadania. E por exclusão devemos eleger os que, sob o mais rigoroso critério possível, “não sejam ladrões”. Daqui para a frente os eleitores só votarão movidos por um único apelo: – Meu reino por um honesto!   Leia outras crônicas de Sérgio da Costa Ramos Veja também as colunas de Moacir Pereira e Upiara Boschi

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O português brasileiro

Por Sérgio da Costa Ramos

13/08/2018 - 05h00

Sendo a língua "brasileira" derivada da tardia flor do Lácio, um patrimônio cultural a ser protegido, como as baleias e os mico-leões dourados, não chega a ser simplório um bizarro projeto de lei daquele ex-deputado Aldo Rebelo, disposto a resguardar o Português dos "estrangeirismos", especialmente do invasivo inglês. O que não quer dizer que o tal projeto seja útil. O certo seria, isto sim, socorrer a língua com bom ensino, melhores salários e bons professores. O último Enem voltou a ser um desastre na prova de redação. (Frase lapidar de um desses vestibulares: “A devassa da Inconfidência Mineira foi Marília de Dirceu, a amante de Tiradentes”...). E o que dizer da ameaça do "Internetês", do “Twittertês” e de outras plataformas do meio eletrônico, que criam no dia a dia uma língua cheia de siglas, abreviaturas e formas cifradas? Língua é assim mesmo, uma caótica Babel. Não há língua preservada, a não ser língua morta. Projetos semelhantes levaram a França ao ridículo de ignorar o Inglês como o segundo idioma da humanidade - quer se queira, quer não. De nada adianta os franceses chamarem "gol" de "bût", o "u" soando como "i", com direito a biquinho, ou, no tênis, considerarem o "match-point" como "la balle du jeu". E não há glória alguma em não ser compreendido. Ao contrário do que imaginava Baudelaire, a respeito dos rebeldes e dos incompreendidos: "Il y a une certaine gloire a n'ête pas compris". Em nome do entendimento, qualquer contribuição é bem-vinda, em qualquer língua. Nosso Português começou recebendo a fértil contribuição do tupi, tão logo a armada de Cabral desembarcou em Porto Seguro. Na fauna, por exemplo, quase tudo o que se mexe foi batizado em tupi-guarani: araponga, arara, capivara, curió, gambá, jacaré, lambari, saracura, sucuri, tamanduá, tatu. E há topônimos lindos ou curiosos, como Itaguaçu, Jurerê, Guanabara, Paquetá, Tietê, Catanduva, Botucatu...                                 ***Que os franceses não se entristeçam, adotando a rebeldia de Baudelaire. Em nome do entendimento e da mobilidade das línguas, são incontáveis os galicismos no Português brasileiro: de “abajur” a “tricô” - e daí, ao infinito.Se quisermos ser bem radicais, e cometermos aqui um sacrilégio,. os portugueses da Metrópole terão contribuído apenas com aquele arcaico e heróico poema, aqui chegado da "ocidental praia lusitana".Assinado por aquele poeta do olho vazado por uma flecha e de coração transpassado de amor pela aventura da Lusofonia.Um certo Luis Vaz de  Camões. Leia outras crônicas de Sérgio da Costa Ramos

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Fake news ou pós-verdade

Por Sérgio da Costa Ramos

11/08/2018 - 05h00

Numa guerra, a primeira baixa é a verdade. Foi o velho Churchill quem admitiu, publicamente, o assassínio da verdade em benefício dos segredos que ao Estado interessa preservar. – Em tempo de guerra, a verdade é tão preciosa que deve ser protegida por uma salvaguarda de mentiras. Proteger a mentira. Nós, simples cidadãos, sabemos perfeitamente que há no mundo certos governos que não se preocupam com outra coisa. E que adotam a mentira como uma espécie de verdade oficial. Na ficção – mas também na realidade da Casa Branca de Trump– já houve funcionários públicos encarregados de dar um novo “vestido” à mentira. Na Literatura, foi o caso de Winston Smith, o anti-herói de “1984”, o romance de George Orwell - ao mesmo tempo um libelo e um alerta universal contra os regimes liberticidas. A tarefa de Winston no seu emprego público era a de “reescrever a História”, adaptando-a à necessidade do “Grande Irmão”. No romance de Orwell, o funcionário Winston vive reescrevendo os números. O Ministério da Fartura, por exemplo, trouxera a público a promessa de que não haveria corte na ração de chocolate. Na verdade, como sabia Winston, a ração de chocolate deveria ser reduzida de 30 a 25 gramas naquela semana. Em seu também admirável “A Caça ao Elefante”, Orwell assim definiu os códigos do politiquês (e do economês de Estado), com seus enigmas e seus cifrados: – A linguagem política é destinada a fazer com que as mentiras pareçam verdades, o assassínio ganhe respeitabilidade e o mero vento receba uma aparência de solidez. Celebra-se, em Santa Catarina, a estatística que aponta uma queda nos números absolutos de homicídios. Na verdade, não há muito o que celebrar. O sistema penal do Estado está contaminado pela sinistra realidade do crime operando dentro dos presídios. A “Central” da bandidagem trabalha a plena carga, com um sistema de comunicação que funciona à perfeição. *** Comemorar a inoperância é como abrir uma taça de champanhe para festejar: “Entre os piores, estamos menos mal”. Há Winstons, funcionários de “confiança”, reescrevendo as más notícias. Assim como há Winstons no supermercado, na feira, no Ministério da Fazenda ou no anúncio da renda per capita – e onde quer que haja um número a ser cotejado. A democracia existe exatamente para isso: evitar que a mentira se torne uma política de Estado. A mentira ganhou nos dias de hoje um novo nome e sobrenome. Agora é conhecida como “a pós-verdade”.   Leia outras crônicas de Sérgio da Costa Ramos Confira a página do Prova Real, iniciativa de checagem de fatos da NSC

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(Guto Kuerten, Diário Catarinense)

Garapuvu, ilha loura

Por Sérgio da Costa Ramos

10/08/2018 - 05h00

O Brasil que floresce nas encostas está mais belo do que nunca, nem se parece com o país dominado pelas flores do mal. As cabeleiras louras que se derramam das copas dos garapuvus redimem a beleza do país e da Ilha de Santa Catarina, de cujas terras santas são a árvore símbolo. É o garapuvu, ou a canoa de um tronco só,  “pau de vintém”, monumento de 30 metros de altura com sua inconfundível cabeleira florida, em cachos patriotas – unindo o verde da Mata Atlântica ao amarelo ouro dos seus galhos em forma de taça. Cálice onde se processa a consagração da beleza da mata nativa, sob o pomposo nome científico de Schizolobium parahyba. Por causa do tronco espesso, com galhos que se abrem somente na copa, o garapuvu era utilizado na fabricação de canoas de um pau só, entalhadas pela mão do pescador. Deslizavam, deitadas, pelas águas espelhadas das baías. ***  O florescer da árvore-símbolo está em pleno curso, começou nesta gelada pré-primavera e vai até dezembro, oferecendo aos viventes uma inesquecível visão do Paraíso ilhéu. Mas não a única. Há mais belezas balançando ao vento. Cumprimento dois ipês, sentinelas de minha porta, que trocaram de roupa, topete e tapete. O primeiro, rosa, de um delicado matiz, fornece à minha calçada um inefável tapete, como aqueles só merecidos pelos cardeais da procissão de Corpus Christi. O segundo, de um amarelo inebriante, embriagaria o próprio Van Gogh, obrigando-o, quem sabe, a cortar sua segunda orelha e a  “carregar” nos amarelos solares dos seus girassóis – de sorte a desafiar o próprio Sol. *** Um amigo telefona, alheio à mudança de roupa nas árvores, e desfolha a sua última indignação:  - Escuta, não vais criticar esses ministros do STF que acabam de se outorgar um aumento salarial de mais de 16%, quatro vezes a inflação oficial?  Não. Hoje não deitarei sobre este canto de página um único pingo de tinta que remotamente se relacione com os malfeitos de um Brasil insensível. Estou usando o meu tesourão de jardim para decapitar o noticiário da má política amarelo-esverdeada. De amarelo, hoje, só os garapuvus da Ilha e o ipê do meu jardim.   Leia outras crônicas de Sérgio da Costa Ramos

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Meu nome é...

Por Sérgio da Costa Ramos

09/08/2018 - 05h00

Nada é mais bizarro do que os (des)critérios para a distribuição do horário dito “gratuito” na propaganda eleitoral. O tempo de TV será distribuído a cada candidato segundo o tamanho de suas voláteis bancadas na Câmara Federal. É aqui que entra o comércio de segundos, com os nanicos oferecendo o seu tempo às principais legendas. Ou seja: nada mais caricato. Nesse mercado influem as coligações, as “alianças” para aumentar o tempo de exposição, mediante a prévia divisão da futura “administração”. Há os candidatos sem voto, mas com horário na TV. E há os com voto – e os segundos suficientes para dizer apenas “Alô, mamãe!”. Sete candidatos desfrutarão de um tempo menor do que o do Enéas, aquele folclórico candidato do nanico Prona, na eleição de 1989. Careca e barbudo, magérrimo, o candidato não tinha tempo para pedir votos. Apenas repetia o seu monocórdico bordão, aos gritos: "Meu nome é Enéaaass!" Esse circo recomeçará no dia 31 deste mês e, ao cabo de três dias, ninguém aguentará mais esse álbum de figurinhas da TV. Não há nada parecido no planeta. O Estado deixa de recolher impostos e oferece sua renúncia fiscal aos partidos políticos – aos existentes e aos fictícios – para que eles invadam a sala de visitas do contribuinte, prometendo o céu e a terra. Com as campanhas nos vídeos e na redes digitais, os candidatos treinam “aperto de mão” e de “teclado”,  distribuindo “promessas de emprego”, “calúnias” e “fake news”– essas coisas tão prosaicas nas campanhas do tipo “vale tudo”. Fosse o voto distrital, os candidatos precisariam gastar sola de sapato para visitar fisicamente o eleitor, pedir-lhe humildemente o voto, bater à sua porta e ter com ele uma conversa de cidadania. Com a geografia sem limites do voto proporcional, todos preferem o facilitário da TV “requisitada” pelo Estado. O candidato interrompe o principal telejornal da noite e surge no seu vídeo, como um “fantasma-intruso”, falando de um partido “inexistente” e de suas capacidades “virtuais”.                              ***       Nem mesmo em Macondo, o mundo fictício de Garcia Márquez em “Cem Anos de Solidão”,  um partido formado na “esquina” ganharia o direito de intrometer-se, via televisão, na vida doméstica de cada família. Trata-se de uma jabuticaba que nem mesmo a ficção de George Orwell no clássico “1984” ousou imaginar: o Estado impondo aos canais privados um horário cativo e simultâneo para que partidos reais ou fictícios encham o “air-bag” do contribuinte.   Leia outras publicações de Sérgio da Costa Ramos

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Foto: Felipe Carneiro

Prazer, Santa e Bela

Por Sérgio da Costa Ramos

08/08/2018 - 02h55

Friozinho civilizado, céu claro de sóis plenos e plenilúnios, Santa Catarina se apresenta ao mundo com a sua melhor roupa – e seduz a todos os seus visitantes. Quem escala o Rio do Rastro, colar de lagartixas subindo os contrafortes da Serra Geral, chega pertinho de Deus – com aquela sensação de que, abaixando os braços, pode tocar as águas da “banheira” Atlântica de Laguna, lavando o colo e enxaguando o peito. É a bela “Santa” a razão de tantos brasileiros, de São Paulo pra baixo, mudarem drasticamente o quadro das migrações internas. Sim, os paulistas estão chegando - como os bandeirantes de outrora, para ficar. O olho do satélite fotografa Santa Catarina como um triângulo  - o vértice no rio Peperiguaçu, fronteira com a Argentina, onde se desenvolveu nossa “Califórnia” agroindustrial; a base na costa do Atlântico - onde se hospeda obra assinada pessoalmente pelo Grande Arquiteto: areias brancas e finas, 530 quilômetros de pequenos e grandes prodígios, na forma de dunas, promontórios, enseadas, restingas e lagoas. Com um encanto único: montanhas em tobogã, convivendo com o mar.     Onde temos outro espetáculo como este no mundo? As falésias da Irlanda? Os rochedos brancos de Dover? As baías e as marés surpreendentes de Chebourg? Os Alpes e Portofino, na riviera italiana? O Rio do Rastro e a nossa Laguna? Sou mais o nosso conjunto. Do mar heroico de Laguna, até São Joaquim, “resort” alpina, a serpente coleia serra acima, jóia entalhada no pescoço da montanha. Vertiginosos 12 quilômetros de ascensão, escalando os 1450 metros do Morro da Igreja – que faz as vezes de nosso Mont Blanc. De lá, com a mão longa do Criador e os olhos postos no horizonte, pode-se tocar as praias e as dunas do Rincão e de Laguna. É como se os Alpes deslizassem de esqui até a costa Amalfitana.     A essas maravilhas se agregou um magnífico caleidoscópio humano, de diversificada etnia. Nosso poeta genial nasceu negro - o universal simbolista Cruz e Sousa – e o nosso maior herói histórico nasceu mulher, só para marcar a diferença: Ana de Jesus Ribeiro, a “Anita”, revolucionária não apenas de um, mas de dois mundos. Eis a nossa foto e o nosso perfil, nossa certidão de nascimento e nossa carteira de identidade. Prazer, mundo. Somos a Bela e Santa República Catarina.   Leia outras crônicas de Sérgio da Costa Ramos

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