Florianópolis

Sérgio

da Costa Ramos

Sérgio da Costa Ramos

Crônicas que traduzem os sentimentos do catarinense ao tratar da cultura e características de quem vive no Estado.

Sérgio da Costa Ramos

O bolsa-partido

Por Sérgio da Costa Ramos

20/01/2018 - 13h43

O que pretendem os partidos políticos,ao abocanharem R$ 1,6 bilhão do novo fundo de campanhas e se negarem a votar reformas estruturantes, como a da Previdência? Um parlamentar até já resumiu a sua única preocupação, diante do rebaixamento de crédito das agências que medem o risco-país: - O único risco que tememos é o risco eleitoral. Investigados pela Lava-Jato, alguns partidos, como PT, PP, PMDB e PSDB, começam a ser intimados a devolver fortunas subtraídas às empresas estatais de cujas diretorias participaram. Se os partidos políticos filtrassem com o mínimo zelo a lista de candidatos a candidato, nem precisaríamos de lei para excluir fichas-sujas, o processo de depuração aconteceria ao natural. Ocorre que os atuais 35 partidos só pensam em expandir o "Bolsa-Partido", constituído pelo atual Fundo Partidário e por uma criminosa conta criada sob a delirante rubrica de “financiar a democracia”. Nenhum deles abdica de nada. Ninguém quer dar ao Brasil ao menos uma chance de sair do esgoto em que estamos chafurdados há mais de quatro anos, com a economia ainda respirando por aparelhos. Houve um momento, muito parecido, na história da Argentina. O país faliu em 2001, sob o presidente recém-eleito Fernando de la Rúa. Em quatro semanas a Argentina se transformou num tango caricato em que ocuparam a presidência nada menos do que quatro interinos: Ramón Puerta, Adolfo Rodrigues Saá, Ednardo Camaño e Eduardo Duhalde. Coube a este último o interinato que presidiria novas eleições, abrindo caminho – infelizmente – para uma tragédia ainda maior: o messianismo dos Kirchner, Néstor ,"El Pinguino", e Cristina. *** Em meio ao mais puro desencanto, houve um momento em que os argentinos se revelaram enojados com tantos “contaminados” sentados no trono presidencial – e bradaram: — Que se vayan a todos! É constrangedor constatar que não temos lideranças confiáveis para uma Constituinte destinada a mudar todo o arcabouço político, decretando o fim dos atuais 35 “acampamentos” -  e estimulando uma nova e rigorosa lei, com cláusulas de barreira para a refundação do quadro partidário. Leia outras crônicas de Sérgio da Costa Ramos Leia também: O destino e Churchill Não haverá santinho​ ​Fake news   

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O destino e Churchill

Por Sérgio da Costa Ramos

19/01/2018 - 09h58

"Infeliz a nação cujo povo precisa de heróis”, escreveu em Galileu, Galilei o dramaturgo Bertold Brecht. É provável que a Inglaterra da Segunda Guerra não concorde com o teatrólogo. A Grã-Bretanha foi salva por um herói que todas as nações invejariam. Nenhum inglês é mais cultivado do que Sir Winston Spencer Churchill, o múltiplo talento de político, orador, escritor consagrado pelo Nobel e “profeta” que, com três grandes discursos, salvou o Reino Unido do cruel destino de se transformar em nação escrava do nazi-fascismo. O mais importante talvez tenha sido o que dirigiu ao seu Gabinete de Governo, no qual advertiu: "As nações que caem lutando, renascem e são respeitadas pela história. As que se rendem, sucumbem e se perdem na poeira dos tempos. E se a longa história desta nossa Ilha tiver que terminar, que seja com cada um de nós deitado no chão, sufocado pelo próprio sangue". O segundo aconteceu logo ao assumir o posto de premier, em 10 de maio de 1940: "Nada tenho a vos oferecer, senão sangue, trabalho, suor e lágrimas". O terceiro ocorreu após o milagre de Dunquerque, em 28 de maio. O discurso entrou para a história no exato momento em que saiu da boca de Churchill. Ele citou “as praias, os campos de pouso, as ruas, as montanhas, os mares e o ar”, como os locais em que os britânicos combateriam o bárbaro inimigo: "Nunca nos renderemos". Se você, caro leitor, estiver perdendo muito tempo nos muitos engarrafamentos da Ilha, renda-se ao magnífico “O Destino de uma Nação - Churchill”, do diretor Joe Wright, com um perfeito Gary Oldman no papel-título. Ao dar vida ao beberrão, comilão e irascível líder, emoldurado por seu indefectível charuto, seu humor refinado e seus brilhantes discursos, Oldman ganhou o Globo de Ouro de melhor ator e prepara-se para ganhar o Oscar. Churchill renasce, sem retoques. Tomando uísque já de manhãzinha, trabalhando na cama de camisolão, em casa, com a mulher, Clemmie – impecável caracterização da atriz Kristin Scott-Thomas – duelando com os pacifistas sem caráter e até numa improvável “consulta” ao ânimo popular, quando teria tomado o metrô para Westminster querendo medir o moral do povo para entrar com tudo na guerra. Leia outras crônicas de Sérgio da Costa Ramos Leia também: Não haverá santinho ​Fake news  ​Não anule seu voto​

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Santinho

Não haverá santinho

Por Sérgio da Costa Ramos

18/01/2018 - 09h06

Não haverá, imagino, campanha mais morna e deserta de atmosfera do esta de 2018. Nos quarteirões da Felipe Schmidt não se perceberá um único "santinho". Por paradoxal que possa parecer, será um avanço. O eleitor parecerá mais amadurecido e insuscetível de se deixar influenciar pelos mantras dos candidatos. Anos atrás, recebi santinhos repletos de rimas pobres e idéias idem. "Idoso, pra melhorar seu auxílio, vote no Abílio". Ou: "Pra aumentar seu benefício, vote no Fabrício". De minha parte, gostaria de ver tremulando entre os candidatos uma faixa depuradora, ainda que de sinceridade duvidosa: “Vote num candidato justiceiro, aquele que não meterá a mão no baleiro!” Pois é disso que se trata. Aliviar o Tesouro do assédio permanente a que se vê subjugado, com equipes de assalto requerendo suas reeleições no reino das estatais. Nunca se viu apego maior às cadeiras de espaldar alto do poder. Não há campanhas feias, em que vale tudo. Feio é perder. “A reeleição fez mal ao Brasil”, admitem os políticos sérios – sim, eles existem. Mas a constatação teria melhor validade pronunciada por outras bocas, posto que o instituto da reeleição foi introduzido na vida brasileira exatamente pelos tucanos, que se pretendiam “sérios”. Dito assim, com esse pecado original, o diagnóstico soa como mais uma manifestação de horror à alternância no poder: reeleição só é boa se é o “nosso” partido que a usufrui. Uma eleição morna é sinal de evolução. Menos jograis e modinhas, mais avaliação e reflexão. Em países de democracia avançada, o dia da eleição transcorre em absoluta calmaria e, se em dia útil, nem feriado é. *** Vivi um 3 de novembro em Nova York, dia de eleição presidencial, uma terça-feira. Afora um camelô vendendo bottons numa esquina, nada indicaria ser aquele o dia em que os americanos optariam entre Bill Clinton e o velho Bush, num país em que o voto é facultativo. O presidente da República deveria ser apenas o funcionário público mais graduado, e não um Messias nos quais partidos cevados na “boquinha” arriscam todas as suas esperanças de perpetuação no poder. Quando este dia chegar, o Brasil estará salvo. Confira todas as crônicas de Sérgio da Costa Ramos Leia também: Fake news  ​Não anule seu voto​ ​Cala a boca, não espalha​

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Fake news

Por Sérgio da Costa Ramos

17/01/2018 - 13h55

O Brasil vive imerso em trevas profundas: não há um só parlamentar que não saiba da imperiosa necessidade de reformar a Previdência. Já imaginaram o dia em que o Tesouro Nacional não conseguirá mais cobrir o galopante rombo previdenciário – e, assim, não conseguirá mais honrar sequer o pagamento de aposentadorias de salário mínimo? Esses pensionistas, no entanto, estão iludidos pelas fake news, plantadas pelos marajás. São aqueles privilegiados com pensões milionárias, egressas do serviço público dos lordes, que tiveram o poder de legislar em causa própria e engordar os próprios salários - hoje transformados em pesadas pensões. Fake News. No Brasil, esses “pais da mentira” agem leves, livres e soltos. E esperam ter mais uma atuação decisiva nesta crucial eleição presidencial de outubro. O TSE organiza um “grupo de trabalho”, formado por magistrados e pelo núcleo de “informações” do governo (Abin), com a missão de bloquear as fake news. Pergunta-se: que independência e isenção terá essa equipe para exercer sua delicada função, sem o risco de instituir nefasta censura sobre as redes sociais? Desde o primeiro dia de 2018 vigora na Alemanha legislação obrigando redes sociais com mais de 2 milhões de membros a removerem em 24 horas conteúdos apontados como impróprios, aí incluídos os discursos de incitação ao ódio e notícias “não baseadas em fatos”. A empresa que não atender à exigência poderá ser multada em 50 milhões de euros. Os principais afetados serão Facebook, Twitter e YouTube. *** Assim caminha a humanidade. A mentira, transformada em arma de repetição, torna-se um poderoso cabo eleitoral de candidaturas patrocinadas pela fraude das notícias falsas. Reproduzidas por robôs eletrônicos, elas escamoteiam a falsidade, tornando-a verdadeira. Se já está difícil ao eleitor brasileiro encontrar um candidato limpo e moralmente asseado, mais difícil ainda será monitorar o seu nome e descobrir se “o que dele dizem as redes”, é verdade, ou fake. Eis a nova desdita do brasileiro: além dos políticos mais desacreditados do planeta, ele terá de lidar com a mentira das redes, essa “entidade”, a peta, que é “a mãe de todos os vícios humanos”. No universo degradado pela mentira generalizada, o perigo será desacreditar do trigo no meio do joio. Seria a vitória da mentira. Leia todas as crônicas de Sérgio da Costa Ramos Leia também: Não anule seu voto ​Cala a boca, não espalha​ ​Apocalipse das águas​  

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Não anule seu voto

Por Sérgio da Costa Ramos

16/01/2018 - 09h43

Não são apenas os institutos de pesquisa que falham. Nessa aventura de prever o futuro, qualquer um pode dizer besteira – e tem gente, as cartomantes, os Ibopes e os políticos que ainda ganham com isso, dinheiro, prestígio e eleições. Prever o futuro sempre foi uma diversão – e um meio de vida dos profetas, falsos ou verdadeiros. Antecipar o porvir, o l’avenir a que se refere o adivinho francês Nostradamus, é fácil. Basta prever acontecimentos já vividos. As previsões, no fundo, são fantasias baseadas no mais profundo dos sentimentos humanos, o déjà-vu. Querer saber o que virá é também um talismã dos supersticiosos, que somos todos nós. Prever o óbvio é fácil. Antecipar o evidente, o axiomático, o incontestável, o que salta à vista, é uma barbada. Difícil mesmo será dizer, com 10 meses de antecedência, quem ganhará a eleição presidencial de outubro. Claro que não vale perguntar aos marqueteiros dos candidatos. Cada um teria a resposta na ponta da língua: - Vai ser a Bolsonaro, óbvio. Ele terá apoio dos anti-Lula no segundo turno. - Vai ser o Eymael, é claro. Ey, ey, eymael! Aquele da musiquinha, não tem? O mundo anda cheio de Nostradamus às avessas. Como aquela elegante senhora inglesa, embarcada em formidável cidade flutuante de 60 mil toneladas, numa manhã festiva de 10 de abril de 1912 no porto de Southampton. Ela ouviu do próprio comandante daquele palácio, a garantia: - Este é insubmergível, minha senhora. Ela acreditou. Quatro dias depois, em 14 de abril de 1912, o Titanic afundou com a senhora e todas as suas jóias, mais os 2.227 passageiros, 1.517 dos quais morreram nas águas geladas do Atlântico Norte. *** Se prevalecer o desencanto das ruas, temo arriscar o desfecho de tudo. Quem ganharia, ante o pessimismo geral, as cruciais eleições de outubro? O voto em branco somado ao nulo. As eleições terminariam empatadas entre os dois: 49.784.247.011 pra cada um. Cem milhões de desencantados com a política que impera hoje no Brasil. E é aí é que mora o perigo. Quando a Alemanha desistiu da democracia da República de Weymar, a tragédia chamada Adolf Hitler se instalou... ​Leia todas as publicações de Sérgio da Costa Ramos​ Leia também: Cala a boca, não espalha ​Apocalipse das águas​ ​Chuva, mar de rebojo​  

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Vestibular pra ministro

Por Sérgio da Costa Ramos

12/01/2018 - 18h43

– O senhor tem conta na Suíça? – Deus me livre! – Esteve envolvido no Petrolão? – Nunquinha. – Já recebeu propina? – O que é isso? Vivo só do meu salário. Ou do meu trabalho como profissional liberal. Está tudo no meu imposto de renda. Pago porque sou pobre. – Quer dizer que o senhor nunca sonegou imposto? – Pago todos. Federais, estaduais e municipais. – A evolução do seu patrimônio é compatível com o seu ganho? – Meus bens são, na verdade, meus dois únicos males: ausência de ambição e falta de fundos. – O senhor já recebeu dinheiro da Odebrecht? – Já. Mas foi uma doação legal, devidamente registrada na Justiça Eleitoral. – Já pediu empréstimo ao ricaço Joesley? – Nunca. Não me chamo Aécio Neves. – Já fez delação premiada? – Como, se nunca fui acusado de nada nem jamais estive preso? – Como administrador o senhor nunca “dirigiu” licitações públicas, fraudando a lei? – Estou invicto nos Tribunais de Contas! – O senhor é sócio de alguma empresa de lobby? – Bem, durante a minha infância cheguei a ser “lobinho”. Mas nunca fui escoteiro do lucro dos outros. Nem tenho vocação. – Já combinou preço de obras com empreiteiras? – Nunca. Minha honestidade é integral. Não faço acordos com escroques nacionais ou internacionais. O senhor já nomeou parentes? – Sou totalmente contra o nepotismo. Mulher e filhos só mesmo da porta de casa pra dentro! – O senhor já foi diretor-geral do Detran com 120 pontos na carteira? – Não dirijo. Tenho motorista. – E o senhor já assinou a carteira de trabalho do seu motorista? – Já. Faço tudo conforme a lei. – O senhor é ladrão ou já foi acusado de “desvios de recursos públicos”? – Deus me poupe! Não sou ladrão, nem trambiqueiro, nem estou sendo processado neste momento. *** – Pois então, lamento muito. O senhor não serve pra ser o nosso novo ministro de Estado. Estamos procurando um ministro do Trabalho condenado em ação trabalhista e um ministro das Cidades que tenha tido sua carteira cassada no Detran local, ou alguém com o mérito de estar sendo processado pela Lava-Jato. Obrigado! Leia todas as publicações de Sérgio da Costa Ramos Leia também: Apocalipse das águas Chuva, mar de rebojo​ ​Chuva e Cruz​

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Lagoa

Apocalipse das águas

Por Sérgio da Costa Ramos

12/01/2018 - 12h10

Há um ponto em algum lugar do Caribe conhecido como Triângulo das Bermudas - um buraco negro por onde desaparecem, misteriosamente, aviões e veleiros. Seria um “ponto de atração magnética”, sorvedouro de natureza inexplicável, cuja fama boia sobre o mar azul e sobrevive como “história de pescador”. O mesmo e inexplicável triângulo parece demarcar o Norte, o Sul e o Leste de Santa Catarina, as bases entre Araranguá e Floripa, o vértice sobre Joinville e o Alto Vale do Itajaí. Neste “Triângulo das Águas”, Santa Catarina se afoga a cada cinco ou dez anos. Parece que todos os “facínoras da natureza” se encontram sobre o mapa de Santa Catarina, para o qual convergem as frentes frias e as quentes, as frentes úmidas estacionárias, os ciclones tropicais e até os furacões. E há, ainda, para consumar esse Apocalipse das Águas, uma morfologia geográfica propícia para a formação de nuvens. Montanhas íngremes e grandes vales – configurando formidável berço para abrigar e embalar as tempestades. A prosa vertiginosa do ex-governador Jorge Lacerda descreveu, certa vez, com sábia maestria, essa “convulsão telúrica” que, apesar de extremamente bela, favorece e estimula a inclemência do clima. Em Floripa - onde desabou a chuva de um mês em um dia – e nos vales de Santa Catarina, onde a chuva é velha algoz, esse mesmo e heróico povo há de repetir 1983 e relançar a economia do Estado, fazendo da catástrofe um incentivo e um fermento. *** Nossa Floripa tão bela amanheceu afogada como uma Iemanjá, desamparada dos seus poderes. Ruas alagadas, rodovias destruídas, pontes arrasadas, bairros e edifícios invadidos pelas águas. A Ilha deixa de ser terra cercada de água por todos os lados para se transformar num mar cruel e inclemente, fabricante de pequenas e grandes tragédias. Resta-nos o apelo à fé. Rogar ao Todo Poderoso para acabar com a insânia desta má distribuição de água e sofrimento. Precisa soprar com força e espantar as nuvens para o Oceano - salvando Catarina do “Triângulo das Águas”. Leia todas as crônicas de Sérgio da Costa Ramos Leia também: Chuva, mar de rebojo ​Chuva e Cruz​ ​Partidos são hotéis​

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Chuva

Chuva, mar de rebojo

Por Sérgio da Costa Ramos

11/01/2018 - 16h47

"Quando começava a chover... não parava mais. O clima aqui é ruim...", diagnosticou o capitão Louis-Antoine de Bougainville, em dezembro de 1763, ancorado na Baía Norte com a corveta Le Sphinx. A lestada não deu trégua. Foram sete dias debaixo de chuva, como uma praga bíblica. "Há uma pesada formação de nuvens e um ar abafado, produzindo constante condensação", anotou o navegador em seu diário. O naturalista Antoine Joseph Pernetty fez os registros da "resenha social": – Fomos jantar na casa do governador Francisco Cardoso de Meneses e Souza, debaixo de uma chuva insistente – que ia e vinha. A Ilha está mergulhada em brumas – e, acrescentaria um nativo manezinho, "vivendo uma lestada com mar de rebojo". Sim, o velho ditado deve ter nascido naqueles tempos em que a Ilha ainda não era uma selva de pedra:"mar de rebojo, três dias de chuva e nojo". Já em pleno século 20, a chuvarada ficou associada à presença de algum circo na cidade: "Circo na cidade, temporal é novidade." Tempos de Bougainville, século 18. Vila de casebres cobertos por folhas de bananeiras, as “residências” não tinham chaminés. Na única boa casa da Ilha, a sede do governo, altos da Praça da Matriz, o governador esperava os franceses para o jantar.  “Couvert” pronto e mesa servida, a delegação francesa foi apresentada aos dignitários locais: o chefe de Justiça, o major da Praça de Armas, dois outros oficiais e um padre franciscano, “que sequer sabia Latim”. O governador e a intelligentzia local fizeram as honras da casa para monsieur Bougainville e comitiva. Os pratos foram preparados à moda da região, mas desencantaram os comensais, acostumados à gastronomia européia, como deixou claro o visitante Pernetty: –  O pão, sobretudo, nos pareceu muito ruim, com a superfície dura, tendo ficado pouco tempo no forno. A refeição era composta de pratos de caça – coelhos e aves – todos preparados com açúcar, que “eles colocavam em todos os molhos, assim como o açafrão”. *** O observador Pernetty arrematou: -  O ar é insalubre e os homens estão, talvez por causa da chuva permanente, num singular estado de inércia e letargia. ​Leia todas as crônicas de Sérgio da Costa Ramos​ Leia também: Chuva e Cruz ​Partidos são hotéis​ ​Um computador para presidente​

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Chuva

Chuva e Cruz

Por Sérgio da Costa Ramos

10/01/2018 - 16h35

Dizem que, agora, não é mais o tal do El Niño, agora é sua mulher, a La Niña – e que a chuva vai atravessar o verão, só pra chatear. Meu Deus! Será que já não podemos viver sem um vilão ou uma vilã do clima? – é sempre um extremo ou uma tragédia? Mais uma vez chove sobre a alma catarina, como se os viventes deste Estado e desta Ilha padecessem de alguma maldição, algum anátema. É como se a natureza estivesse gravemente enferma e os tais  Niños fossem uma espécie de vírus aterrorizadores, muito mais letais do que a mão leve dos políticos. Na esquina da Trajano com a Conselheiro Mafra - debaixo de uma chuva ora rala, ora copiosa - encontro o sublime poeta das aliterações e dos jogos vocálicos, o ilhéu que, mais do que qualquer outro, conheceu o sofrimento na sua forma mais aguda. Dobrei-me, reverente, diante do príncipe do Simbolismo, e saudei o negro divino com uma das suas aliterações mais preciosas: - Que vozes veladas, veludadas vozes te saúdem, ó sinfônico poeta! Ofereci abrigo em meu guarda-chuva, sob cujas varetas o poeta encaixou a carapinha molhada. Aceitou a carona no meu “aribu”, mas notei que havia algo de inquietante na sua expressão de angústia e de pesar: - Você viu a última previsão do tempo? Será que não vai parar de chover sobre o meu povo pobre? Escaldado de outras enchentes, Cruz está aureolado pela luz dos seres evoluídos, já não sente a dor da tuberculose e do preconceito. O sofrimento da vida foi recompensado pela elevação do espírito. O poeta sofre com qualquer chuva que possa trazer as desgraças, aquelas que experimentou em vida. Não enxerga a mínima justiça na distribuição das tragédias do Mundo: - Por que há inundações em países paupérrimos como Bangladesh? E por que os desarranjos desses tais Niños se desatam sempre sobre Santa Catarina e sua população mais pobre? O poeta se transfigura, o bigode pingando, o olhar vasculhando os céus em busca de um rasgão nas nuvens. Talvez esteja pressentindo novas desgraças quando chora e declama o seu Litania dos Pobres: "Imagens dos deletérios/ Imponderáveis mistérios/ Bandeiras rotas, sem nome/ Das barricadas da fome". Choro junto, enquanto nasce ali no Cambirela uma “olhada” de sol.   Leia todas as crônicas de Sérgio da Costa Ramos   Leia também: Partidos são hotéis Um computador para presidente

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