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Sérgio da Costa Ramos

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da Costa Ramos

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Crônicas que traduzem os sentimentos do catarinense ao tratar da cultura e características de quem vive no Estado.

Sérgio da Costa Ramos

O primeiro esquecido

Por Sérgio da Costa Ramos

23/04/2018 - 06h00

É sempre o eleitor. A Terra Prometida fica sempre do outro lado do deserto. E depois do candidato eleito ter alcançado o seu objetivo, o primeiro a ser espalmado para escanteio é o cidadão que passou a procuração ao “representante”. Em vez de se materializar a promessa de “mais emprego”, “renda mais bem distribuída” - ou, vá lá, “um belo chafariz na praça” - fica-se sabendo que tudo que o deputado conseguiu foi ser apanhado com a cueca recheada de dólares. Vale quase tudo. Prometer uma torneira de Coca-Cola nas cozinhas do povão. Ou mais “emprego sem precisar trabalhar”, “água fresca” e  “estacionamento” para todos. Só não vale prometer que “não trocarei de partido”, ou que “não aceitarei petrolão” - porque, afinal, compreende-se que ninguém é feito só de virtudes. O verbo “prometer” se confunde com o “endividar-se” – e quase todos os candidatos consideram que as promessas, como as dívidas, foram feitas para “rolar”, não para pagar. Promessas de salvação nacional quase sempre resultam em desastre. Os mais velhos devem se lembrar da campanha do “Ouro para o Bem do Brasil”. A cruzada aurífera lançada para apoiar a dita “Revolução de 1964” serviu apenas para que, anos depois, proliferasse nas duas casas do Congresso aquele circo habitual, conhecido por “Comissão Parlamentar de Inquérito”. No puçá desses rigorosos “inquéritos”, não boia um único e escasso culpado pelo “sumiço” dos anéis da família brasileira. Em Brasília, reza o velho ditado do Barão de Itararé, “Não há inocentes. Só cúmplices”. Os deputados só não prometem o fim da infidelidade partidária. Afinal, ser infiel é da própria natureza da carreira. É próprio da peçonha do escorpião. *** Os candidatos nem precisariam prometer o Nirvana, o Céu na Terra, ou um Canaã de sombra, água fresca, leite farto, energia elétrica grátis e celular pré-pago para todos. Soaria falso. Bastaria que prometessem coisas bem chinfrins, ninharias, coisinhas à toa. Aquelas coisas triviais que nunca funcionam “neste país”: salário condigno, menos impostos, ônibus no horário, trânsito fluido, vagas no estacionamento, água na torneira e calçada sem cocô de cachorro.

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Metamorfose: nova versão

Por Sérgio da Costa Ramos

21/04/2018 - 07h00

É universalmente conhecida a novela com que Franz Kafka revolucionou a ficção, criando a parábola do absurdo. Numa tétrica manhã, o caixeiro-viajante Gregor Samsa acorda transformado num imenso baratão. Já imaginaram o “nojo” da própria família? A irmã de Gregor, Grete, condói-se, é a única a apiedar-se do pobre irmão-barata. Vencido o asco e a perplexidade, leva-lhe um prato de comida. Dúvida atroz: que tipo de comida levar? A dos homens ou a das baratas? Gregor gostaria de um pedaço de galinha ou de uma fruta? Ou de restos de comida, cascas e sujeiras, como uma boa barata?   ASSISTA: "Bando de ratos nojentos", diz homem em aeroporto de Dubai a Eunício e outros dois senadores   Já o pai de Gregor dedicou-lhe apenas repugnância. Quando a “barata” se movimentava, assustando-o, o pai atirava-lhe o que tivesse nas mãos. Alvejou-o até com uma maçã, projétil que se encravou em suas costas, como uma lança no peito de Cristo. O que Kafka não descreveu – e o que me atrevo a fazer agora – é uma metamorfose às avessas da de Gregor. Um bicho que amanhecesse transformado em ser humano. Foi o caso daquele roedor, um legítimoRattus Novegicus, popularmente conhecido como rato-de-esgoto. Podia ser repelente, fedorento, pernicioso à saúde humana, transmitindo leptospirose, peste bubônica e tifo. Mas era honesto. Era um rato e não escondia a sua condição de mamífero pouco amado. Escondia-se, fisicamente, apenas pra defender-se do homem, seu eterno inimigo. *** O roedor acordou, farejou o ar, espreguiçou-se e lembrou-se do pedaço de queijo que subtraíra de uma comezaina no Itamaraty. Quis deslocar-se até o roda-pé, onde havia um buraco em forma de meia-lua. Sentiu uma espécie de estranha letargia, seus pés, pequeninos, mas ágeis, pareciam “embutidos” no corpo obeso. Horror. Olhou para os seus membros superiores e notou que eles despontavam de um punho de mangas compridas, o pescoço emergindo de um colarinho branco. O “espelho” contaria a verdade. Seu rosto pareceu-lhe “familiar” – na verdade, era o rosto que sempre tivera. Mas seus cabelos estavam gomalinados, penteados para trás. E do colarinho branco projetava-se uma gravata! Acordara transformado num ser humano. Pior: um deputado. Em Brasília. O terno não desmentia: estava transformado num político brasileiro. Processado, mas de inocência presumida, pois, no Brasil, nada transita em julgado...   Leia outras crônicas de Sérgio da Costa Ramos Leia também:  Mesmo preso, João Rodrigues integra comissão que define o novo Código de Processo Penal

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O futuro perdido

Por Sérgio da Costa Ramos

20/04/2018 - 05h00

Stephen Zweig, o escritor austríaco que elegeu o Brasil como refúgio da Europa nazista, esteve duas vezes no país tropical antes de aqui se estabelecer como terra de adoção. Foi na primeira viagem, em 1940, e na segunda, em 1941, que com a ajuda da mulher e secretária, Lotte, reuniu suas anotações pessoais e finalizou o ensaio “Brasil, País do Futuro”. Escrevendo para parentes e amigos europeus, declarou-se arrebatado pela nova pátria:

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Manhãs espelhadas

Por Sérgio da Costa Ramos

18/04/2018 - 17h02

Celebro o belo dia que nasce por trás do Morro da Lagoa e sinto a genuína alegria de eleger um assunto que não seja um escândalo, desses que tomaram conta do Brasil. Pretendo falar da beleza da manhã, sem o brilho do colibri Rubem Braga, mas com a honestidade de um esforçado cronista, já exaurido de tanto comentar sobre as flores do Mal.Baixa um “friozim” amigo, não chega a ser um choque de enregelar a caveira, mas um insinuante convite a puxar o cobertor. Raiaram, finalmente, aquelas manhãs de outono que pertencem ao tesouro da natureza, a atmosfera limpa e luminosa inundando de luz cada ranhura das montanhas. Ainda não é hora de abrir as gavetas e envelopar a carcaça com pulôveres e lãs de estimação. Mas já é a hora sossegar a bermuda e usar manga comprida.A paisagem de Floripa, com o “friozim” e as duas baías espelhadas, até parece imitar a Suíça, entre os Alpes do Cambirela e os lagos de suas duas baías, mansas e envidraçadas. Se o inverno for rigoroso, não será incomum digitar esta crônica usando luvas, os teclados do computador cedendo à pressão de forma equivocada, as letrinhas mal escolhidas sob os dedos grossos e enluvados.Com todo esse primeiro “friozim”, que  azula as montanhas e espalha esculturas de gelo na relva, “vai dá até uma dori nas junta”, como profetiza o matuto “amarelo” da Lagoinha.Felizmente as compensações não são pequenas: o nascer do sol, por exemplo, vindo lá do ventre do Atlântico, é sempre um refulgente espetáculo de luz, que só terá rival no raiar da última aurora, antes do Juízo Final.***Tão olimpicamente límpidas têm sido as manhãs desta semana que mal pude surpreender o Cambirela em suas roupas de baixo, ceroulas brancas de uma geada inaugural. Senti-me um voyeur da natureza ao flagrar-lhe o umbigo, as ilhargas e tudo o mais, nervuras e vergonhas à mostra. O suficiente para emitir daqui um definitivo atestado “médico-legal”:- O Cambirela pode ser gigante, mas não é homem.Acho que o Cambirela, como a Ilha, é “mulher”. E mulher bonita. Seu sexo é “pra dentro”, pois pude notar que, por baixo das ceroulas brancas da geada, usa calcinhas!E que por baixo de suas brumas emerge um autêntico “mons-vênus”, verde e triangular, iluminado pelo ouro impressionista da manhã.

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Procura-se super-herói

Por Sérgio da Costa Ramos

18/04/2018 - 03h00

Quem, em Brasília, não carrega o seu “inqueritozinho” de estimação? No momento em que estamos precisando dramaticamente de uma reserva moral, um Rui Barbosa, um Afonso Arinos, um Sobral Pinto, um Ulysses Guimarães, quem temos? Michel Temer - cognominado pela verrina do falecido ACM de “mordomo de filme de terror” -  não se parece nem um pouco com um “super-homem”. Para limpar a casa, seria preciso uma grande força moral, infensa à “kriptonyta” da corrupção. O melhor que o presidente consegue é ser um político “sub-judice”, sempre na vizinhança de algum escândalo e com prazo de validade a vencer: em 1º de janeiro de 2019 todos os seus processos perdem a couraça da presidência e seguirão o seu curso.  O novo Superman das telas, Brandon Routh, até que veste bem o physique-du-rôle do herói criado em 1938 pelos cartunistas Jerry Siegel e Joe Schuster  para a revista “Action Comics”, mas, assim como o novo James Bond, o sucessor de Christopher Reeve carece de “carisma” para emprestar verossimilhança ao super-herói. O velho ídolo dos quadrinhos mais parece aquela decadente figura, concebida em debochado “crayon” de Ziraldo para o antigo “Pasquim”: um herói flagrado no vaso sanitário, em plena operação bota-fora, o “rictus” facial deformado pelo monumental esforço, os superpoderes derrotados por uma prisão de ventre. É assim que o Brasil vê Temer: um débil presidente sub-avaliado, sentado no vaso, e que ainda insiste em ser candidato... *** Como combater todos os malandros do planeta ao mesmo tempo? E o que esperar dos candidatos à sucessão, com exemplos “edificantes” do tipo Lula e Bolsonaro, além das velhas efígies de sempre? Gostaria, eu mesmo, de contar com superpoderes para exorcizar esses supermalandros. E lançaria contra os Lex Luthor do Congresso o irresistível poder do meu feixe de músculos: — Com eles, nocautearia a corrupção universal e a brasileira em particular. — Redistribuiria os bens do Mundo, equalizando as economias do Norte e do Sul. — Daria um supersoco na cara de todos aqueles falsos representantes, que estão na política só para fruir de vantagens pessoais, receber petrolão e viajar de graça.   Leia outras crônicas de Sérgio da Costa Ramos Veja também: Missão quase impossível Beco dos Delatores Corda no pescoço  

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Missão quase impossível

Por Sérgio da Costa Ramos

17/04/2018 - 04h00

Não se dirá que é fácil escolher um bom nome para deputado, para governador, para presidente. Os nomes do cardápio são desoladores. Ou são sempre “os mesmos” ou são novatos que só aparecem para alugar a legenda de algum “nanico” aos mais poderosos. Ainda assim, o eleitor tem que pesquisar, comparar, acender a sua lanterna em busca de um honesto. Malhar as eleições - “são muito caras!” - é um velho cacoete brasileiro. Tem político que não se cansa de pedir “prorrogação de mandatos”, com a justificativa de que “eleição custa caro”. Ora, muito mais caro é o mandato longo. O dos senadores, por exemplo. Oito anos. Uma excrescência. Quanto mais eleição, melhor. Um dia, aprenderemos a exercer esse direito tão fundamental à democracia, que é o voto livre, secreto e universal. É preciso valorizar o voto para baratear as campanhas. Houve época em que o “material humano e moral” era animador. Viciados eram os métodos eleitorais, como as eleições de bico-de-pena da República Velha. Como testemunhou Gilberto Amado: — Antigamente as eleições eram falsas, mas a representação era verdadeira. As eleições não prestavam, mas os deputados e senadores eram da melhor qualidade. As eleições continuam sendo, contudo, um grande aprendizado democrático, em que a primeira lição é a do princípio universal da alternância no poder. Numa genuína democracia há altos e baixos, é da essência da vida e da natureza do mais justo dos regimes políticos, como afiançava o velho Winston Churchill. Só a repetição ad nauseam das eleições aperfeiçoará usos e costumes políticos e – um dia – voltará a magnetizar todos os homens de bem da República. *** A qualidade dos representantes deve refletir a competência de uma boa escolha. Caberá ao eleitor brasileiro a última palavra para melhorar a atual representação nos parlamentos. Se no supermercado o eleitor pesquisa naturalmente os preços e a qualidade dos produtos à venda, uma vigília ainda mais atenta será requerida na hora de escolher aquele que o representará nas casas da democracia. Leia outras crônicas de Sérgio da Costa Ramos Veja também: Beco dos Delatores Corda no pescoço Seis a cinco

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Foto: Felipe Nyland/Agencia RBS

Beco dos Delatores

Por Sérgio da Costa Ramos

16/04/2018 - 04h10

Acordei outro dia com a nostalgia de uma primeira página limpa de malfeitos e malfeitores, tempos em que o pior assunto do dia era apenas a falta d’água, ou de luz, mas não a falta de caráter. Lembro-me de um ano, em meio aos 1950 e 1960, em que houve apenas um – isso, mesmo, um – assassinato na cidade. Um açougueiro usou suas habilidades de corte em um desafeto, que ficou em decúbito no chão do estabelecimento. De manhã, havia uma fila, não para comprar a costumeira alcatra, mas para admirar o defunto.  O panorama de telhados limosos, de casario baixo, vizinho da Praça XV, teve o dom de me remeter à velha Lisboa, com seus becos e ruelas de nomes pitorescos e sonantes, como Rua do Salitre, Rua da Alegria, Travessa do Quebra-Pentes, Beco do Arco Escuro, Rua dos Arameiros, Alameda do Amor Perfeito – e outras raridades tão bem “achadas”. Para designar ruas e associá-las aos sentimentos, ou ao exercício das profissões, neste Brasil de hoje, estaríamos obrigados a batizar a maioria das vias públicas com nomes infamantes, como “Rua dos Trampolineiros”, “Rua dos Mensaleiros”, “Alameda dos Petroleiros”, “Avenida dos Corruptos”, “Superquadra dos Corruptores”, “Largo dos Delatores” - ou, para um maior índice de “realismo” -  “Calçada dos Doleiros”, sem falarmos no “Congresso dos mais de 300 Picaretas”, como o reeducando Lula um dia batizou aquelas casas. *** Em Brasília, onde não há inocentes, só cúmplices, o país corre o sério risco de se transformar numa “República da Delação Premiada”. Como o Brasil costuma desmoralizar todos os novos códigos da boa ética, esse instrumento legal - tão eficaz na Itália da “Operação Mãos Limpas” -  logo acabaria degradado. A última novidade entre os advogados de corruptos é requerer ao juiz do caso um pedido de “dispensa” da tornozeleira eletrônica instalada nas canelas do cliente. Que “diferença” faz, não é mesmo? Se o cidadão está de pijama de calça comprida, como recomenda a “friagem”, o artefato não fica mesmo escondido? Acabaremos todos no melhor dos mundos, como sonham os eternos fichas sujas: no vale-tudo da impunidade. Veja também: Corda no pescoço Seis a cinco O que interessa Lei reabilitada Leia outras crônicas de Sérgio da Costa Ramos

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Corda no pescoço

Por Sérgio da Costa Ramos

14/04/2018 - 03h05

Apesar da vertiginosa queda dos juros oficiais, expressos pela Selic, os bancos não cedem: estão cada vez mais gordos e egoístas. Anunciam, sem corar, lucros francamente obscenos, algo como 30% do seu patrimônio líquido. É como se, a cada ano, ganhassem o equivalente a 1/3 de tudo o que já possuem. O lucro líquido anual em países do hemisfério norte nunca excede os 5% ou 6%. “Crime e Castigo” é a obra mais célebre de Fiodor Dostoievski e o romance-símbolo da literatura russa. No livro, Raskolnikof, um jovem estudante, pobre e desesperado, perambula pelas ruas de São Petersburgo até cometer o crime que tentará justificar por uma delirante teoria: o homem que “pensa” e que tem a percepção da miséria de sua condição, é titular do direito de matar os parasitas sociais que o fazem sofrer. Como a velha agiota Alena Ivanovna – uma exploradora de desesperados, como ele. Imagino o estudante de Dostoievski aplicando sua teoria no Brasil dos juros altos, povoado de Alenas Ivanovnas, todas saqueando a sociedade com as presas afiadas do juro insensato, drenando, de “canudinho”, o pobre salário do trabalhador que paga 400% de juro (ao ano) na prestação de um fogão, uma geladeira, uma televisão. Só cai o juro oficial e, com ele, a inflação. Sim, já podemos desfrutar de uma inflação “europeia”, inacreditavelmente medida em um ano: 2,68%. Mas o que se poderá dizer dos juros bancários, inflexíveis, nos seus inenarráveis três dígitos? Os banqueiros admitem que, “tecnicamente”, nada justifica a elevação dos juros nos níveis cobrados dos brasileiros. Falando em “off”, isto é, à sua própria “inconsciência”, os vendedores de dinheiro admitem que a causa dessa espoliação está na “falta de concorrência entre os bancos”. *** Será que o machado de Raskolnikof teria fio suficiente para cortar o pescoço de alguns desses sugadores, praticantes da pior espécie de assalto financeiro, posto que supostamente “legalizado”. Tudo se explica com uma única palavra: ganância. A mesma necessidade “biológica” que animava o fígado da velha agiota de Dostoievski. Sugar, extorquir, drenar o bolso dos desesperados...   Leia outras crônicas de Sérgio da Costa Ramos Veja também: Seis a cinco O que interessa Lei reabilitada

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Seis a cinco

Por Sérgio da Costa Ramos

13/04/2018 - 02h00

O chamado “pretório excelso”, como era conhecido o Superior Tribunal Federal em dias melhores, hoje se revela cada vez menos “pretório” (tribunal) e cada vez menos “excelso” (alto, elevado, sublime). Reveste-se, nos sinistros dias que correm, de uma impenetrável opacidade, uma capa quase tão negra quanto suas togas. Seis a cinco (6 a 5) parece ser o cabalístico número de sua insegurança. Cinco dos seus “sábios” querem porque querem fazer prevalecer a infâmia da impunidade, interpretando o artigo 5 da Carta Magna como uma autorização para perdoar foras da lei. O “até trânsito em julgado” prevenia a pressa e a ligeireza com que os regimes totalitários da época (1964-1985) mandavam “prender e arrebentar”, na literal expressão de um general-presidente, aquele sinistro João Figueiredo. Hoje os cinco obscuros dos 6 a 5 parecem querer decretar a vitória da impunidade. Prisão para corruptos só em terceira ou quarta instância. Quer dizer: nunca. É remeter o Código Penal às “calendas gregas”. Tudo o que o Brasil precisa nos dias de hoje é de segurança jurídica e férrea vontade para erradicar os ratos já identificados em quase todos os partidos. O negócio é não eleger ou reeleger ratos. Na hora de escolher um candidato, em meio a esse varal de fraldas sujas exposto aos olhos do eleitor, a primeira virtude a se exigir do futuro “representante” é não transgredir o sétimo mandamento, aquele que, na tábua de Moisés, mandava: “Não roubarás!” Roubar. Verbo de significado mais abrangente, conjugado na República da Impunidade, em cuja atmosfera deletéria nada choca, nada surpreende. Ao contrário. “Roubar” é enamorar-se do alheio, ter as manhas da raposa para subtrair; ter sérias dificuldades para distinguir o meu, o teu, o seu, o nosso; “passar a mochila”; “pegar-se alguma coisa das mão de alguém”. Ou, como bem define o manezês: – Ter cola nos dedos, tirá alpiste de passarinho; botá a mão no baleiro. Enfim, surrupiar – verbo que o Aurélio consagra como “furtar com destreza, sem deixar vestígios”... *** Chegamos a uma rara encruzilhada nesta não menos oportuna esquina da história: a cristalina chance de mudar o Brasil nas eleições de outubro. Renovar é o verbo, apesar da cruel aritmética dos fundos partidários, que privilegiam os candidatos à reeleição. Faça como um bom mané: desempregue um político. Não o reeleja. Leia outras crônicas de Sérgio da Costa Ramos Veja também: O que interessa Lei reabilitada Réquiem pelo Brasil

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O que interessa

Por Sérgio da Costa Ramos

12/04/2018 - 05h00

Chegam as campanhas e as promessas. De quantos candidatos ao governo você já ouviu falar sobre segurança pública em seu Estado? Qual deles já ofereceu um plano coerente e plausível, para combater o "Estado Paralelo” do tráfico de drogas que, aos poucos, vai minando e deteriorando a vida das famílias brasileiras? Segurança é o tema número um no Brasil de hoje. E matéria de interesse municipal. Não raro, contudo, prefeitos e vereadores acham que o assunto pertence apenas às secretarias de Segurança dos Estados ou à Secretaria Nacional da Presidência da República – instituições que não têm nada a ver com a cidade. Há uma “intervenção federal” do tipo “meia sola” na capital do Rio de Janeiro, que já não é só um Estado falido. É o próprio crime em versão paralela. Para ser séria, a intervenção teria que remover todo o governo e sua corja de “roedores”. Santa Catarina é um dos Estados brasileiros que mais sofreram com o crime operante de dentro das penitenciárias. Fracassou redondamente em evitar a comunicação entre as ruas e o banditismo encarcerado. No Rio de Janeiro (et pour cause...), meia centena de candidatos estarão registrados, apesar de responderem a processos criminais e civis. Só falta o goleiro Bruno se candidatar a deputado – e requerer o direito de ser votado na cadeia. O que espanta, mesmo, não é a facilidade com que facínoras se candidatam. Afinal, o Brasil criou uma jurisprudência de impunidade inédita no planeta. O tal “trânsito em julgado” - que ameaça voltar - , empurra qualquer punição para as calendas neste paraíso de recursos, embargos e despachos interlocutórios. O que espanta é o novelo legal que favorece a impunidade. As sentenças nunca chegam aos “finalmente” e ao “irrecorrível”. Um bandido pode recorrer a vida inteira – e, assim, candidatar-se até à Presidência da República. *** A Ficha Limpa é uma esperança, mas já começa a ser desconstruída pelo juridiquês insensato, que acaba zelando pela prevalência do recurso infinito sobre o ideal de justiça. Se o amigo leitor persegue o candidato “ideal”, arrisco um conselho: — Vote só em quem você conhece desde criancinha. Em eleições locais não aceite votar em desconhecidos. Gente que não tem a menor ideia da cidade em que vive ou da missão-cidadã da qual deve se investir um verdadeiro candidato. Leia outras crônicas de Sérgio da Costa Ramos Veja também: Lei reabilitada Réquiem pelo Brasil

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