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Sérgio da Costa Ramos

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Crônicas que traduzem os sentimentos do catarinense ao tratar da cultura e características de quem vive no Estado.

Sérgio da Costa Ramos

Procurando um futuro

Por Sérgio da Costa Ramos

21/06/2018 - 05h00

Os desafios se repetem, dia após dia. Quando se pensa que as mazelas instaladas no horizonte vão clarear, o tempo fecha de novo e o país acorda com a sensação de que o escritor austríaco Stephen Zweig – um refugiado do nazismo em 1940 – nunca teve razão, ao considerar, por um momento, que o Brasil era “o país do futuro”. Quase 80 anos depois, nunca se viu um precipício igual. É desolador olhar e julgar a sinistra lista de candidatos à presidência desse Brasil tão desamparado, tão órfão de estadistas. Assusta até a senhora Democracia, que está sob pesado ataque, apesar de ser a menos feia desse bordel em que se transformou o sistema dito “representativo”, com os “representantes” mais  interessados em forrar os próprios bolsos. O mundo cresceu e multiplicou-se, biblicamente, depois que a Polis de Aristóteles se organizou em “Ágoras” na Atenas de três séculos antes de Cristo. Uma Cidade-Estado em que todos se conheciam. A cidade e sua democracia “cabiam” no imaginário porta-retrato que cada cidadão trazia na carteira. Foi o Iluminismo pós-Idade Média que trouxe certa “rationale” aos sistemas de poder, com Montesquieu e sua trindade de poderes, “harmônicos e independentes”, enunciados no “O Espírito das Leis”, em 1747. Aquela antiga democracia de esquina, como a do nosso “Senadinho”, evoluiu através dos séculos até encontrar as suas corruptelas menos virtuosas – a “Demagogia” e a “Tirania”. Surtos dessas doenças atacaram a civilização do moderno século XX, com os “Facios” na Itália de Mussolini e os “Nazis” na Alemanha de Hitler. O Mundo que daí resultou era bipolar, dividindo a Terra em capitalismo e socialismo. *** A representação popular, instituto cultivado na Inglaterra pós Magna Carta, foi se deteriorando ao longo dos séculos – posto que o homem, seu cultor, é este ser “mais-do-que-imperfeito”. Vivemos hoje o mundo louco da guerra desumana do terrorismo, das rebeliões irracionais do “Estado Islâmico”, e dessa doença típica das democracias imperfeitas – a corrupção. E a história foi se repetindo como farsa até o Brasil inaugurar essa insensata democracia de 35 partidos, na qual todo mundo berra e ninguém tem razão.   Leia outras crônicas de Sérgio da Costa Ramos Veja também as publicações de Cacau Menezes

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Nem gratuito, nem obrigatório

Por Sérgio da Costa Ramos

20/06/2018 - 05h00

Meia hora todos os dias ao longo de 45 dias, em horário nobre. Sem falar nos horários vespertinos e matutinos. Um exagero. Ainda bem que até 15 de julho é Copa do Mundo. Mas agosto – mês sabidamente “agourento” – não tarda.  E com ele chega essa  “herança” da ditadura que é o Horário Eleitoral Gratuito. Durante um mês e meio os telejornais serão expulsos da sala de visitas do contribuinte – e, zás! –  entram os candidatos de partidos nem sempre “verdadeiros”, meras ficções ou alegorias pouco sérias. Sendo a tevê uma concessão do Estado – e cabendo a este bancar a conta, mediante “renúncia fiscal” – chega-se à conclusão, óbvia, de que a fatura é dividida por cada contribuinte. Instala-se, então, um paradoxo: o contribuinte “paga” até mesmo para ouvir o candidato por quem nutre completa ojeriza. O charlatão que gostaria de ver banido da política.. Enquanto os candidatos aplicam seu tempo de tevê discutindo assuntos de interesse comunitário, projetos e programas de seu Estado e cidade, o contribuinte ainda consegue formar alguma “massa crítica”. Mas quando eles se empenham em “denunciar” os oponentes, seja mediante fatos, seja através do que se convencionou identificar, em campanha, como “Fake News” , aí, tudo degenera. Sobem ao éter boatos, difamações e baixarias em geral – sem falar nas projeções manipuladas de números de pesquisa. *** Não existe, em país algum do mundo, programa “gratuito” em horário nobre, franqueado à guerra de mentiras, meias-verdades ou desmentidos. O que deveria haver – isto sim – é a normatização eficaz dos debates, para que o “contraditório” fosse exercido, “ao vivo”, para  juízo do telespectador. Como a lei eleitoral muda todos os anos, ao sabor da conveniência dos senhores legisladores – mas, ultimamente, “interpretada” com algum protagonismo pelos tribunais – que tal consultar, a sério, o principal interessado -  ele mesmo, o paciente eleitor? Todos haveriam de escolher os debates. Os candidatos a governador e presidente se mostrariam, “como são”, em debates televisivos conduzidos, como têm sido, pela mídia. Fora disso, é ultraje à inteligência de quem paga.   Leia outras crônicas de Sérgio da Costa Ramos Veja também as publicações de Cacau Menezes

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Prazeres e sofrimentos

Por Sérgio da Costa Ramos

19/06/2018 - 07h23

Depois daquela “estréia” sem direito a árbitro eletrônico, resta-nos abrir um tinto nobre, um chileno “Montes Alpha” -  e saborear o frio. Sim, há delícias no frio, como um pinhão sapecado, uma “raclette”de queijo suíço, um fondue”, um “cassolet”, que é o primo francês da feijoada. O frio e seu estímulo às calorias. Muito melhor do que aquela seleção retranqueira, que não soubemos vencer, é o queijo suíço de grandes buracos – o ementhal. Quem começa a comer, não para mais. Vira uma repetição descontrolada, como zagueiros suíços fazendo falta no Neymar. Nem só de calorias memoráveis vive este belo pré-inverno. Claro que há, também, “pequenas torturas”. Sair de manhãzinha da cama, sentar no vaso frio ou vestir uma camisa nova e não aquecida. No século 19 a friagem era a mesma e, para combatê-la, os senhores das casas grandes convocavam suas mucamas para “passar a cama” - com um pesado ferro a carvão. Garantiam o sono e o sonho.                                                                                  *** Assim como o exagero pontua as histórias de pescador, não são menos hiperbólicas as lorotas dos habitantes do frio. Como na guerra “mentira é como terra”, no frio “mentira é como quirera”. O gaúcho chupa tranquilamente o seu chimarrão, enquanto desfila os “causos” mais impressionantes acontecidos na sua “querência”: - Cuepucha, chê! Estava abastecendo a minha cuia com a erva, quando vi a água saída do bule congelar “no ato”, traçando no ar um arco de vapores. O fio d’água quente esfriou no ar e congelou em seguida, virando uma “estalta” de gelo! O joaquinense não ouviria calado uma lorota dessas. E “contou” vantagem sobre as outras cidades que também recebem a visita da neve: — A maior nevasca aqui em São Joaquim transformou a serra num tobogã branquinho. Esquiei direto do Morro da Igreja até Laguna! Sem contar com a neve para aumentar suas histórias, o “amarelo” da Lagoinha, morador da Ilha mais bela dos mares do Sul, apelou para um “causo” de pescador ambientado no “friozim” do litoral: — “Pesquê” uma cocoroca durinha, que antes do morrê vomitô três pedrinhas de gelo! Com essa “friách” toda no horizonte das expectativas, concordam os Manés, o melhor mesmo é engolir o scotch ao modo “cowboy”.  Purinho.

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(Jewel SAMAD, AFP)

A bola e o drama

Por Sérgio da Costa Ramos

18/06/2018 - 05h00

Quem é a bola? – perguntava a grã-fina de Nelson Rodrigues. Encontro-a estirada sensualmente numa cama de lençóis de seda, após uma batalha de amor, 90 minutos depois de Portugal x Espanha, o grande jogo da Copa: – Estás exausta, pronta para Brasil x Suíça? A bola fez um gesto lânguido, de mulher habituada a ser cortejada: – Não. Nos últimos tempos, quem corre são os jogadores. A bola recebe carícias e, tudo bem, algumas patadas. – És daqui deste mundo, ou uma filha do Sol com a Lua? – Sou aqui da terra mesmo, um dia fui oval, mas fiz regime para perder cintura. Amo ser chutada por gente fina, como o meu Cristiano Ronaldo... – É o teu preferido? – Não viram como o gajo me tratou no outro dia? Com uma carícia lasciva, me fez chegar cheia de requebros e rotações, para que me aninhasse nas roupas íntimas da  Espanha... – Pensei que eras amante do Messi... – Coitado, sofre de dor de cotovelo, não consegue assistir a cada “cantada” que recebo do Cristiano. Viram o golpe infeliz com que me bateu e me remeteu às mãos geladas do goleiro da Islândia? Agora está lá, sofrendo. – E o Neymar, gostas dele? – Ele é malandro, nunca me chamou de pelota, caroço ou gorduchinha. – Nunca trocou as bolas, te chamando de Bruna Marquezine? – Nunca. Não seria tão ingênuo. Ele me trata de “você”, de querida, de minha amada... Cortejada na Copa pelos seus candidatos a Casanova, a Bola  é um ser universal e seu nome está em todas as línguas, as vivas e as mortas. Seu Casanova perfeito poderia ser um brasileiro _ Pelé, os Ronaldos ou, sim, esse Neymar que está entrando em campo agora para acariciar a “gorduchinha” no leito verde de Rostov-on-Don.   Interrompo a entrevista neste momento, para que a Bola vista seu mais sensual “peignoir” – e se entregue ao afago de 22 marmanjões. *** O que dizer dos amores da Bola neste tão dramático Brasil 1 x 1 Suíça? “Ela” poderia facilmente se ter enamorado por Philipe Continho, autor de um mágico gol, digno da assinatura de um grande craque. Mas a Bola se entregou a um perigoso jogo de ciúmes e fingimentos. Neymar, outro que se empenhava pela sua paixão, não podia dar um passo. Era sistematicamente derrubado, caçado, obstruído. Seu prometido idílio com a Bola não aconteceu A Bola odiou o juiz mexicano – e o drama que ele mesmo apitou.   Leia outras crônicas de Sérgio da Costa Ramos

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Mãe Rússia

Por Sérgio da Costa Ramos

16/06/2018 - 05h00

Que Rússia é essa que oferece seus campos ao rolar da “Telstar”, a bola da Copa? Economia menor do que a brasileira, equivalendo a R$ 5 trilhões, décimo segundo PIB do mundo, só de orçamento militar consome quase 5%, necessários para sustentar talvez o maior dispêndio em ogivas nucleares do planeta. Em 1978, sob Leonid Brejnev – à época com mais de 80 anos e foto 40 anos mais jovem na propaganda oficial das ruas – visitei essa Rússia da revolução de Lênin, que queria parecer o que não era: uma potência industrializada. Era, na verdade, uma potência industrial-militar. Um Brasil com foguete à Lua. Não fabricava uma geladeira decente, mas venceu a corrida espacial contra os EUA, dominando tecnologia militar de ponta.   Veja também:  As publicações de Cacau Menezes e de Roberto Alves   Havia uma certa igualdade entre estratos sociais “pobres”. Hoje, com todas as grifes do capitalismo de Estado, os pobres aumentaram e os ricos estão no comando, associados ao “Czar” Putin. Inegável reconhecer que a Rússia prosperou e se desenvolveu depois do fim do chamado “socialismo real”. Asseguram os especialistas: ao preço de um nível de corrupção ainda maior que do o daquela outra grande nação, florescida em terras tropicais. Com liberdade de imprensa controlada, a Mãe Russa, tão simpática, está habituada a aceitar governos fortes – sejam os de “czares” monárquicos, socialistas ou do presidencialismo absoluto deste já eterno Rei Putin. A Rússia que se revela à luz da Copa, é um país de admirável cultura, organizado, população educada e disciplinada, embora controlada com mão de ferro: lá não se espalham greves ou passeatas sem imediata repressão, especialmente as de intolerância homo-afetivas. *** Não vamos realçar ou procurar as mazelas que existem. Não durante uma Copa que promete ser impecável – e, consentânea com a alma russa, alegre. Tantas são as nações plantadas no imenso território da Rússia quantas são as 69 línguas e dialetos falados desde a fronteira com a Polônia até os montes Urais. Um georgiano não se parece com um moscovita, que nada tem em comum com um aristocrata da europeizada São Petersburgo. A alma russa é tão rica e variada que, igualá-la, seria confundir Tolstoi com Dostoiévski   Leia outras crônicas de Sério da Costa Ramos

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Tolstoiéwski

Por Sérgio da Costa Ramos

15/06/2018 - 05h00

Recuando 40 anos, vejo-me hóspede de um hotel-quartel, o “Rossya”, 2.600 quartos, debruçado para o Kremlin e seus cartões postais. Sob Brejnev, os passaportes eram confiscados na portaria do hotel, em troca de um ralo papel com o nome do hóspede em cirílico. A caminho do cenário impressionista da Praça Vermelha, antes de cruzar com as cúpulas aceboladas da Catedral de São Basílio – que, na falta de um corcunda comunista, cultivava a fama de dar abrigo ao espectro de Rasputin – sou abordado por turistas da Bielorúusia, viajantes “internos” e, como eu, calouros em geografia moscovita. Pedem informações: – Krasnaya Pushkin? – repetem. Querem saber onde fica uma das muitas “Praças Pushkin”, o poeta que bem representa a alma russa. Se me perguntassem pela rua Arcipreste Paiva, por cujos meio-fios passava o poeta Cruz e Sousa, talvez pudesse lhes ser útil. Peço desculpas aos meus interlocutores e a Pushkin, com um argumento simples e plausível: – Perdão. Não sou daqui. Sou de Floripa.                Parecendo mais cosmopolita do que nunca, hoje, a Moscou da Copa mostra o seu rosto globalizado, suas “nações” dançando nas “fan-fests” da Fifa. Pensar, contudo, numa Rússia de um rosto só, seria confundir Tolstoi com Dostoiévski. Soaria muito estranho lapidar semelhanças, pois são artistas profundamente diferentes, em suas origens e temperamentos. Tolstoi um aristocrata; Dostoiévski um plebeu. Tolstoi um latifundiário; Dostoiévski um pobre escritor sem posses, jornalista profissional. Tolstoi o maior “realista histórico”; Dostoiévski, o maior “realista psicológico”. Ainda hoje, porém, público e críticos ocidentais confundem Tolstoi e Dostoiévski, criando, para seu uso, um  “monstro” que os críticos literários russos apelidaram, irônicamente, de “Tolstoiévski”. *** Moscou mudou muito desde a “Perestroika” de Mikahil Gorbachev, idos de 1989. E mais ainda nos últimos 20 anos. Construiu até um centro-financeiro, repleto de arranha-céus futuristas: “Moscou-City”, a dois quilômetros do Kremlin. Surpreendente para quem, até a queda do muro de Berlim, não sabia o que era um banco ou um talão de cheques. Assistindo às feéricas imagens da Copa, pressentem-se diferenças daquela modorrenta Moscou que assistia em cinemas estatais filmes tão interessantes quanto “A Grande Colheita de Trigo à Luz do Último Plano Qüinqüenal”.   Leia outras crônicas de Sérgio da Costa Ramos

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A Copa sem bola

Por Sérgio da Costa Ramos

14/06/2018 - 08h12

A Copa com bola começa hoje, numa ensolarada Mãe Rússia, governada pelo “Czar” Vladimir Putin, central universal do Planeta Bola. Já a Copa de Outubro, sem bola, rola, ingovernável, no grande estádio das redes sociais. Nessa Copa das Eleições a torcida terá uma chance rara de se vingar das humilhações que lhe foram impostas - e poderá, sim, levantar a taça que lhe escapou entre os sete gols alemães. Os jogos acontecerão só a partir de 7 de outubro,  mas os treinos já estão autorizados. As brigas dar-se-ão entre  cândidos candidatos engravatados, em partidas que animarão as torcidas, com direito a hinos e sambinhas das agremiações políticas. É o jogo do “Horário Gratuito”, 45 minutos à tarde e outros tantos à noite. Jogos em que, na falta de uma bola de verdade, as  “embaixadinhas” se darão num feroz bate-boca entre, por enquanto, 17 candidatos... A expectativa é tanta para essa Copa sem bola que o entusiasmo dos torcedores mal pode esperar pelas primeiras partidas: - Confesso que é o meu programa predileto! - É a minha novela das oito! - É o meu vício! Ligarei a tevê de tarde e de noite, como na Copa. Não vou perder um jogo! - Jogo...? - Maneira de dizer. Já estou até colecionando o  álbum de figurinhas desta Copa das Copas! E nenhuma é “chapa”! - E os hinos? - Teremos sambinhas. Modinhas que recomendam os candidatos, rimando “supimpa” com “ficha limpa”? - E a sinceridade desses atletas de terno e gravata?! E as alianças que eles formam, como se suas  equipes vivessem para o “association”, formando  múltiplas alianças - as tríplices, as quádruplas, as quíntuplas! Uma maravilha de jogo coletivo! Nem a Alemanha naqueles 7 a 1! - E a retidão? A honestidade? A fidelidade de cada atleta com o seu time? Nunca trocam de camisa! São “fiéis” a toda prova! - E a inteligência? As tabelinhas? O espírito público! Todos já prometeram não pedir aumento de salário, nem empregar os parentes! - São todos Ruys Barbosas! Reservas do tesouro moral! Jequitibás da honra! - Nunca se viu tanto caráter ilibado! Tanta vocação pra servir! - Mas, peraí,  aquele teu candidato não teve o registro negado, por ser dono de uma “ficha suja”? - Nada disso! Já recorreu ao TSE e está outra vez na luta, circulando com uma liminar novinha... Leia também: Confira o que disseram os presidenciáveis em evento em Florianópolis nesta quarta-feira

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(Pedro Martins / MoWA Press)

A Copa nas letras

Por Sérgio da Costa Ramos

13/06/2018 - 05h00

Pronto. Faltando um dia para a Copa, não há quem não entenda de futebol. Tem até mulher discutindo, com grande conhecimento de causa, a lei do impedimento, uma excrescência que já deveria ter sido abolida. Não há neste mundo tanta lei que “não pegou”? Pois é: a do impedimento deveria ser uma dessas. O belo jogo ficaria muito mais interessante, com mais gols. Até os intelectuais estão “por dentro”, eles que, segundo Nelson Rodrigues, “nunca bateram um reles lateral”. Jean-Paul Sartre jamais bateu um tiro de meta, ou um “pênalti”, nunca deu um pontapé – mesmo quando foi traído por Simone de Beauvoir. Mas Albert Camus e Vladimir Nabokov foram goleiros, respectivamente do Racing da Argélia e do Dínamo de Moscou. Confira também as publicações de Cacau Menezes e Roberto Alves   No conto, na crônica, no teatro e até na poesia, é bem respeitável o time que bateu a sua bolinha literária. Oduvaldo Vianna Filho, o Vianinha, abordou o futebol sob a ótica política e social em “Chapetuba Futebol Clube”. Rubem Fonseca produziu um conto brilhante sobre o assunto em “Feliz Ano Novo”. “O futebol brasileiro evocado na Europa”, com esse nome comprido de ensaio literário, não parece, mas é o título de um admirável poema de João Cabral de Mello Neto, com direito às embaixadinhas de um verso antológico: – O futebol trata a bola com malícia e atenção,/ Dando aos pés astúcias de mão...                       *** O mesmo futebol que inspirou esses versos,  iluminou, igualmente, a prosa poética de um mestre do gênero, o saudoso Armando Nogueira (“Drama e Glória dos Bicampeões” e “O Homem e a Bola”), cuja frase límpida e esmerada fizeram-no merecedor do cognome  “o Machado de Assis da bola”: – Deus castiga a quem o craque fustiga. – Se a bola não quica, mau caráter indica. – Gol de letra é injúria, gol contra é incesto, gol de bico é estupro. De alguma forma, Nelson Rodrigues, Albert Camus, Vladimir Nabokov, José Lins do Rego, Eduardo Galeano, Armando Nogueira ou João Cabral – escrevendo, ou até praticando o esporte bretão – todos agregaram o seu estilo, o seu suor literário  e as suas digitais no limitado retângulo de uma folha de papel, ou na exígua tela de um computador – e nesses espaços marcaram os seus gols.   Leia outras crônicas de Sérgio da Costa Ramos

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Copa para encher o bolso

Por Sérgio da Costa Ramos

12/06/2018 - 05h00

Em meio a uma crise que não conhece fundo do poço, até a Copa do Mundo é um evento “perigoso”, pois autoriza certos “legisladores” a votar em causa própria. Aproveitando que a turma estará ligada na bola, Câmaras de Vereadores e Assembléias Estaduais votam, na surdina, aumentos dos respectivos salários. Com a mesma cara de pau com que certos políticos se outorgam “auxílios” e todo tipo de privilégios. Em nossa “Carta-Cidadã”, cabe tudo. O sujeito quer aumento de salário e já pensa em anotar o seu pedido na Constituição, mediante uma PEC – mais um remendo no “livrinho”. No Brasil, de 1834 a 1988 – “elegeram-se” oito constituições, algumas outorgadas – e o “retrato” é confuso, tanto quanto pode ser atrapalhada uma nação presidida por uma Carta de quase 500 artigos e um sem-número de emendas, algumas tão irrelevantes quanto as que alteram artigos que deveriam estar numa lei ordinária. Temos aqui um sério problema de “cultura”, um vício rapinante: se não deu pelo caminho legal, invente-se uma saída, um jeitinho, uma fórmula de tornar legal, o ilegal e o imoral. Mexe-se na Constituição como se esta fosse uma letra de samba experimental numa roda de bambas da Mangueira. Não há deputado ou senador que não tenha apresentado a sua PEC, na expectativa de perpetrar o seu mesquinho casuísmo. O Brasil será mais livre e respeitado no dia em que deixarem a Constituição em paz. *** Vivemos um conto de Kafka: uma crise dentro da outra. Saiu Dilma, entrou Temer. Cujo mandato está mais uma vez sob ameaça de nova denúncia, a terceira, ou seja, manipulável em nome de uma “boa barganha” no plenário da Câmara Federal. Como em Brasília, segundo Nelson Rodrigues, “não há inocentes, só cúmplices”, clama-se de lanterna na mão por “um honesto”. Nos “sites” criados na escuridão da Internet, a campanha já começou. E oferecem como matéria prima de cada candidato exatamente o que mais falta no Brasil de hoje: honestidade. Eis uma virtude que não deveria ser oferecida como “diferencial”. É obrigação.   Leia outras publicações de Sérgio da Costa Ramos

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Vai acabar a mamata

Por Sérgio da Costa Ramos

09/06/2018 - 05h00

Vai acabar! – trombeteava o vencedor, trinfante. E arrematava, eufórico: – Acabou a mamata! Vão procurar o que fazer! Funcionário estável, olhava com certo desdém os “temporários” do partido derrotado – PSD ou UDN – e, sádico, anunciava a partida da “barca”. Como uma gralha, exortava: – Limpem as gavetas! Vai acabá! Perder uma eleição no tempo dos velhos partidos era uma provação e uma “ciência”. A derrota chegava aos poucos, em boletins narrados entre hinos e fanfarras. A “barca” era a instituição mais temida pelos litigantes. Significava a perda da boquinha dos cargos comissionados, a crueldade das gozações impressas pipocando nos jornais vencedores: – Parte hoje, do Miramar, a barca do PSD (ou da UDN), tendo no timão o candidato fracassado e como “lastro” duas centenas de puxa-sacos, agora obrigados a trabalhar para ganhar suas vidinhas... Um vereador só tinha certeza da eleição depois de uma semana, entrando e saindo da lista dos ungidos. Os votos pingados salvavam ou crucificavam o candidato, logo “rotulado” pelo povão: – Entrou na “legenda”... Equivalia a um mandato de segunda categoria, principalmente se o cidadão se elegia com algumas dezenas de votos, como permite o esdrúxulo sistema proporcional. Era a segunda metade dos anos 1960, a “Revolução” já obscurecia o horizonte do Brasil, mas os antigos partidos ainda gozavam de uma sobrevida, até que o general Castelo Branco lhes cortou o pescoço _ certamente por falta de confiança no próprio. Trabalhar na editoria política dos jornais da época equivalia a imprimir um monólogo mais extenso do que “As Mãos de Eurídice”, a trafegar numa avenida de mão única, a tocar fagote de uma nota só. Como no clássico de George Orwell, “1984”, era estar em guerra contra a Eurásia, mesmo que a Eurásia não existisse. Era acreditar na vitória do PSD, mesmo que os votos de Lages não compensassem os de Itajaí e Joinville.                              *** Conheci essa época do “Charleston” da política, a atmosfera romântica de um tempo em que a fidelidade partidária, mais do que uma fé, era um dogma. Uma eucaristia cultivada pelos caciques, mas detestada pelos índios da redação, cuja vocação era mesmo a do espanhol da piada: – Se hay gobierno, soy contra!   Leia outras crônicas de Sérgio da Costa Ramos Veja também as publicações de Cacau Menezes

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